25 de agosto de 2011

Curas nos Evangelhos

Introdução
Mc 3.10: Pois curava a muitos, de modo que todos os que padeciam de qualquer enfermidade se arrojavam a ele para o tocar. 11 Também os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele e exclamavam: Tu és o Filho de Deus!

Causas da Doença na Bíblia
Lv 11-15 – Leis a respeito da Saúde Pública
Mc 3.1: No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, 2 sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.
Mc 4.3 Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear. 4 E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram. 5 Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. 6 Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se. 7 Outra parte caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto. 8 Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto, que vingou e cresceu, produzindo a trinta, a sessenta e a cem por um. 9 E acrescentou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Mt 20.6: e, saindo por volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo? 7 Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou.
Mt 25.14: Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu.
Mt 25.37: Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? 38 E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? 39 E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? 40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Mt 6.11: o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; 12 e perdoa-nos as nossas dívidas,

Realidade da opressão de hoje que gera a miséria e a doença
1 - 02/09/2011 - O governo vai deixar de arrecadar R$ 24,5 bilhões até julho de 2013. Indústrias de confecção, calçados, móveis e softwares não pagarão mais a contribuição de 20% para a Previdência Social. Somente o subsídio que o Tesouro Nacional deverá aportar à Previdência Social, em função da desoneração da folha de pagamentos do projeto piloto anunciado pelo governo, custará cerca de R$ 1,3 bilhão anuais. Terão a alíquota previdenciária de 20% zerada sobre a folha de pagamento os setores de confecções, calçados, móveis, e tecnologia da informação. "Isso significa que esses setores terão um ganho. Essa desoneração é importante para regularizar o emprego e combater a informalidade. Essa medida tem um impacto neutro na Previdência Social", afirmou o ministro Guido Mantega (Fazenda). Exportadores de bens industrializados receberão de volta até 3% do ganho com a exportação. É uma compensação pelos impostos pagos ao longo da produção. O governo vai reduzir impostos sobre a compra de máquinas, equipamentos para a indústria, materiais de construção, caminhões e veículos. As medidas são para fortalecer a indústria nacional e tornar as empresas mais competitivas no mercado internacional.
A presidente Dilma Rousseff disse que é preciso proteger a economia: “Hoje, mais do que nunca, é imperativo defender a indústria brasileira e nossos empregos da concorrência desleal da guerra cambial, que reduz nossas exportações”, afirmou a presidente.
Para a oposição, o que foi anunciado nesta terça também não resolve o problema da indústria brasileira: “Não garante uma proteção integral e um apoio de uma política industrial integral para o conjunto todo da indústria brasileira”, afirma o líder do PSDB, o deputado Duarte Nogueira. Em outras palavras queremos mais!

2 - 02/09/2010 - O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, afirmou nesta quinta-feira (2) que o Brasil deixou aproximadamente R$ 21 bilhões de arrecadar durante a crise financeira internacional, que atingiu o auge em setembro de 2008 e prejudicou o desempenho das principais economias do mundo em 2009. Para superar a crise, o governo isentou de impostos ou reduziu a carga de alguns segmentos do setor produtivo, como veículos, eletrodomésticos, materiais de construção, móveis, entre outras.

3 - O consórcio Norte Energia que construirá a UHE de Belo Monte contará com 80% de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desconto de 75% no Imposto de Renda e controle operacional de uma subsidiária da Eletrobrás, apesar de oito das nove empresas integrantes do consórcio serem da iniciativa privada. O Programa de Sustentação de Investimento (PSI) do governo federal é um dos mais vantajosos do país atualmente, por ter juros anuais de 4,5% - na prática, juros negativos, portanto, são subsídios, pois a inflação de 2010 foi de 5,9%. Governo e as grandes construtoras discordam sobre o custo de Belo Monte. Brasília calculou R$ 19 bilhões. As empresas estimam R$ 30 bilhões, incluíram certamente aí o superfaturamento da obra.

4 - Em 2009 jogamos 1 milhão de toneladas de veneno na terra brasileira. Estimativas apontam 75 mil casos de câncer por ano causado por agrotóxicos. Cada brasileiro come em média 5,2 kg de agrotóxico ao ano. O Governo alemão proibiu, provisoriamente, a classe de pesticidas neonicotinóides, conclusivamente ligados ao maciço desaparecimento de abelhas. Clothianidin é um pesticida da “família” neonicotinóides. Esta classe de substâncias químicas é aplicada às sementes e, em seguida, se espalha em todos os tecidos da planta. Com base em nicotina, os neonicotinóides são tóxicos para os sistemas nervosos de qualquer inseto que entra em contato com eles. O primeiro grande risco é a fragilização da produção mundial de alimentos, principalmente pelo fato de nós dependermos quase que exclusivamente das abelhas. Além disto, um risco secundário, mas não menos importante, é de afetarmos toda a ecologia local, porque essas abelhas também acabam polinizando as plantas nativas e, a partir do momento que você elimina os polinizadores, essas plantas nativas deixarão de se reproduzir e, com isto, nós poderemos estar alterando profundamente os ecossistemas. Uma das fases cruciais na existência de uma planta é o seu estágio reprodutivo, e hoje sabemos que 90% das plantas dependem da polinização realizada por animais, como abelhas e outros insetos. Se não tivermos esses animais, nós romperemos o ciclo de reprodução continuada das plantas. Isso poderá afetar profundamente a sobrevida destas espécies no mundo todo, no ecossistema. Se matarmos as abelhas a humanidade morrerá de fome num período de cinco anos.
O entendimento da importância da manutenção de áreas naturais como APPs e Reservas Legais na propriedade rural é fundamental, já que existe a concepção errônea de que a vegetação nativa representa área não produtiva, com custo adicional e sem nenhum retorno econômico para o produtor. No entanto, essas áreas são fundamentais para manter a produtividade em sistemas agropecuários, tendo em vista sua influência direta na produção e conservação da água, da biodiversidade e do solo, na manutenção de abrigo para agentes polinizadores, dispersores de sementes e inimigos naturais de pragas das culturas, entre outros. A pesquisa científica confirma os benefícios expressivos da polinização, como serviço ambiental, para a produtividade de culturas importantes. Os polinizadores podem ser responsáveis por um acréscimo de 50% na produção de soja; de 45 a 75% na produção de melão; 40% na produção de café; 35% na produção de laranja; 88% na produção de caju; 43% na produção de algodão; e 14% na produção de pêssego. Quanto ao maracujá, sua produção depende integralmente de agentes polinizadores. Os serviços prestados pelos polinizadores são altamente dependentes da conservação da vegetação nativa, onde encontram abrigo e alimento. Reciprocamente, a maioria das espécies nativas requer polinizadores específicos para conseguir se perpetuar.

A Missão de Jesus Cristo: anunciar e viver o Evangelho do Reino de Deus.
Lc 4.43: “É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado”.
“Aconteceu, depois disto, que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus”. Lc 8.1
Primeira pregação - “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”. Mc 1,15
Última pregação – “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus”. At 1.3
Olho qualquer ação de Jesus a partir de sua mensagem central: o Reino de Deus. Tudo o que falava e fazia era para mostrar como é esta nova sociedade, hoje, não capitalista: o Reino de Deus.
O movimento de Jesus viu, como principal obstáculo à realização do Reino de Deus na Palestina, o Templo e a estrutura classista que o Templo apoiava.

O evangelho do reino de Deus é a contraproposta de Jesus ao reino deste mundo (império romano aliado ao Templo de Jerusalém), hoje, o capitalismo; causador de muitas doenças, da mesma forma como o modo de produção escravista do tempo de Jesus.
Opressão e exploração econômica traz doença.

1. O exemplo da Vilma:
Vilma Fátima Favero era cultuada como “modelo” e “incentivo” a ser seguido pelos demais trabalhadores do frigorífico da Seara (então pertencente à Cargill, hoje à Marfrig). A gerência e seus capatazes aplaudiam tamanha rapidez e eficiência na sexagem. Além do bicampeonato brasileiro, Vilma Favero também foi vice-campeã, concorrendo com outros 52 incubatórios da Sadia, Perdigão, Avipal e da própria Seara.
Vilma Fátima Favero, “encostada” aos 42 anos, trabalhava na Seara de Sidrolândia, no interior do Mato Grosso do Sul, como “ajudante agropecuária”. “A gente separa os pintos, põe na caixa, vacina, forma o lote e põe no caminhão”. Cada trabalhador coloca milhares de pintos por hora nas caixas. Cada caixa tem cem aves. “Tinha gente que não agüentava e desmaiava, pois muitas vezes se varava a noite. Começava às duas da tarde e largava por volta da meia noite. Muitas vezes passava do horário, pois eram 130 mil pintos e apenas quatro pessoas para sexar. Se alguém faltava era pior, o trabalho acumulava para ser dividido entre quem se encontrava. O ritmo aumentava ainda mais, insuportável”.
Mostra mais fotos: ela própria separando os pintos, no jantar promovido pela empresa Merial, que fornecia as vacinas e os prêmios. O microondas conquistado, os demais colegas da equipe sorrindo. “Foi feita uma reportagem e até saiu na rádio. Deram uma festona. Éramos exemplo”. Não demorou muito tempo e a dor chegou, inclemente. Logo vieram os remédios, os laudos, a incapacidade crônica, permanente. E a negativa da empresa, que não reconhecia que ela trabalhava naquela seção e, consequentemente, a suspensão do convênio médico com a Unimed. As fotografias viraram provas materiais contra a empresa.
Hoje a dor é insuportável nos dois ombros, comprometendo o braço inteiro. A tendinite e as cinco hérnias de disco completam o quadro dantesco. “Não trabalhei um dia para a Seara. Não foi um dia, foram 14 anos, um mês e dez dias. Agora estou afastada há quatro anos. Nem o dono larga os cachorros como eles me largaram”, desabafa, com os olhos fixos. Numa das mãos mostra novamente a foto, jovem, premiada; na outra a radiografia da coluna em frangalhos. “Cortaram o meu plano médico e dizem que estou devendo oito mil reais para a Unimed”.
“Para a Seara, os trabalhadores são peças de reposição. Não se importam com a qualidade de vida das pessoas, estão sempre sugando, sugando. Assim, antes de emitirem o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT), que poderia garantir a estabilidade, eles já demitem”, denuncia a advogada Valdira Ricardo Galo Zeni. Acompanhando há dez anos as práticas da empresa na cidade, Valdira alerta que o grande problema das doenças ocupacionais é que não são visíveis: “eles estragam, dispensam e põem outro no lugar. As mulheres, por exemplo, acabam perdendo o movimento dos membros superiores e sequer conseguem pegar o filho no colo ou mesmo fazer um simples trabalho doméstico”.

2. Capitalismo mata – Vito Gianotti – Brasil de Fato, 21-27 de julho de 2011
A base do sistema capitalista é uma só: a exploração máxima dos trabalhadores e da natureza visando unicamente o lucro, ou seja, a multiplicação do capital nas mãos dos donos das empresas. O resto é conversa mole. Se o capital puder dispensar milhares de trabalhadores e deixá-Ios na sarjeta, fará isso sem nenhum problema. Uma empresa capitalista não é uma entidade filantrópica. Não tem nenhum objetivo social, humano, humanitário. Se puder acelerar o ritmo de trabalho até o extremo ela vai fazer. Quem morrer que morra. Há sempre milhões à espera de uma vaga.
Enquanto isso, iludidos ou enganadores falam de "responsabilidade social" das empresas. Outros fazem poesia com a tal "responsabilidade ambiental". Balelas. Para qualquer capitalista não entra na contabilidade a saúde, a vida dos trabalhadores dentro ou fora da empresa.
A pesquisa da Confederação dos Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação (CNTA), junto com a UFRGS vem comprovar isso. Você sabia que em frigoríficos de cortar frangos, os trabalhadores têm que fazer até 90 cortes por minuto? Vejam alguns dados da pesquisa.
A "vida útil" dos escravos que viviam na época de Zumbi dos Palmares (1655-1695) e trabalhavam nas lavouras de cana era de 20 anos. Hoje, os trabalhadores dos frigoríficos do Rio Grande do Sul têm uma "vida útil" em média é de apenas cinco anos. O estudo mostra que 77,5% dos trabalhadores da indústria da carne sofrem de alguma doença relacionada ao trabalho. 96% precisam tomar medicação para suportar a dor. Mais: 99,5% dos 640 trabalhadores entrevistados dos frigoríficos de Capão do Leão, Bagé, São Gabriel e Alegrete são empregados de um mesmo grupo: o Marfrig, que se orgulha de ter 151 unidades espalhadas por 22 países.
É grande, sim, é verdade. Mas tão preocupado com a saúde e o bem estar de seus empregados, quanto os donos de escravos de séculos atrás. Prova disso é que 78% dos seus trabalhadores admitem sofrer dores constantes no corpo, principalmente nos ombros, braços, costas, pescoços e pulsos, causadas pelo esforço repetido feito por horas e horas, sem qualquer interrupção e em condições insalubres de frio externo e umidade intensa.
Os principais efeitos disso se revelam fora do ambiente de trabalho, quando as mãos ficam dormentes, os braços tremem e a dor aparece ao se fazer coisas simples como abotoar a camisa ou escovar os dentes. A pesquisa revelou que ao final de um dia de trabalho 43,9% sentem um "cansaço insuportável" que afeta o sono, causa depressão e prejudica a convivência familiar.

3. O exemplo da Foxconn:
Operário da Foxconn se queixa de pressão e ritmo de trabalho
"Da porta para fora, é uma coisa. Lá dentro, é outra", cochicha um dos funcionários em Jundiaí da Foxconn, a gigante asiática que anunciou em abril investimentos de US$ 12 bilhões para produzir iPads no Brasil. Operários na linha de produção da maior fornecedora de componentes eletrônicos do mundo reclamam de coação para fazer hora extra, pressão para atingir metas, ritmo de trabalho hiperintenso, múltiplos contratos de experiência e alta rotatividade. "Dizem que precisam de gente para sábado e domingo. Se a gente diz que não dá, perguntam: "Por quê? Que compromisso você tem?". Falam bem perto, assim [indica proximidade face a face]. A gente se sente coagido."
Nas varas do Trabalho de Jundiaí, há 166 ações contra a Foxconn, que emprega cerca de 3.000 pessoas na cidade. Dessas, 87% foram contratadas a partir de 2009. A Itautec, com 1.600 funcionários, acumula 151 ações desde 1994. A chinesa AOC (com 1.000 empregados), 41 ações desde 2008.
No ano passado, a empresa teve de modificar condições de trabalho na China após uma onda de suicídios. "Por causa da demanda de trabalho, com horas extras, ela conseguiu causar lesão em trabalhadores em seis meses, coisa que a gente não imaginava ser possível". Jornadas de trabalho longas, horas extras frequentes, teleconferências de madrugada, vigilância constante dos chefes, metas de produção irrealistas e inegociáveis.

O Evangelho do Reino de Deus veio para nos libertar disto, mas para isto acontecer temos que acabar com o capitalismo. Jesus salva, o capitalismo não salva. Jesus salva, o capitalismo mata. O capitalismo é obra humana, portanto, passageira e finita; o Reino de Deus é eterno, pois é obra de Deus e nós somos seus convidados especiais para participar de sua construção: começa aqui e se completa com a segunda vinda de Cristo no dia do Juízo Final.
As curas de Jesus fazem parte deste processo de salvação, não era algo meramente individual, isolado e desvinculado do processo de construção do Reino de Deus. Alguns curados seguiam Jesus e proclamavam a ação do Evangelho do Reino de Deus, outros não, mas sempre havia admiração no meio do povo. A restauração da vida plena contesta a realidade da doença gerada pela opressão. A cura é uma afronta ao sistema que o gerava, era subversão pura e denúncia profética contra a sociedade opressora. Os curados por Jesus como também o Lázaro ressurreto representa uma ameaça à sociedade por isto os sacerdotes também querem matá-lo (Jo 12.10). Jesus não faz nada por fazer, tudo é sinal do Reino de Deus, portanto contestação e apontamento para esta nova sociedade igualitária, não classista construída a partir do amor e contestatória da realidade da luta de classes existente no modo de produção escravista.

A igreja cristã fala muito da salvação que vem por meio de Jesus, mas fala pouco do Reino de Deus. O centro de sua pregação é Jesus Cristo e não explica a sua mensagem e proposta: o Reino de Deus. A salvação é para colocar dentro do processo de construção do Reino e não mero ato individual. Ser curado é começar a viver a salvação que me empurra para o processo coletivo de resistência contra o que produz a doença: o sistema ou a minha alienação advinda do sistema ou qualquer coisa externa: picada de mosquito que gera a dengue, que acontece por causa da ineficácia do modelo político de saúde adotado sem participação popular.

Salvação é cura, acolher, libertar, saúde, felicidade, terra, trabalho, etc.
Quem participa do Reino participa do processo de salvação coletiva; Mt 1.21: “Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (pecados individuais e coletivos, da sociedade pecadora na qual vivemos). Jesus veio para salvar todo o povo, salvação é um processo coletivo, não meramente e exclusivamente individual. Crer em Jesus é participar de uma comunidade de resistência, ex.: At 2 e 4, e não de conformação ingênua e apolítica com este século. Crer em Jesus é resistir e participar da construção do Reino de Deus. No crucifixo vemos pendurado um camponês sem terra palestino subversivo (Lc 23.1-7) torturado até a morte pelo Estado por não se conformar com este século (Rm 12.1-2) para salvar “o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21), sendo a salvação um processo coletivo (Zc 8.7; Dn 12.1; Sl 18.27; Sl 28.9; 2 Sm 22.28) e não meramente individual. At 16.31: Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa.

Visualização da participação do Reino de Deus hoje:
A construção do Reino de Deus abarca o:
1. Econômico: socialização dos meios de produção – At 2 e 4 – socializar o consumo e o processo produtivo em oposição ao sistema que privatiza o consumo e o processo produtivo, incluídos os meios de produção. O sistema privatiza a mão de obra (na época escrava) e os meios de produção: a terra, as minas, os meios de transporte (navios), o Reino de Deus coletiviza: reúne em comunidade e coletiviza os meios de produção.
2. Ideológico: não adorar a César como deus e nem outros deuses desestabiliza todo o sistema, se desmonta a base ideológica que dá sustentação ao sistema político e econômico. Quando Jesus diz ter que destruir o Templo ele não durou uma semana. O mundo antigo estava construído em cima da religião. Desprezar a religião oficial é subversão. A religião legitimava o escravismo, o militarismo e o imperialismo. II Timóteo 3.12 é claro sobre isto: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”.
3. Político – At 6 – democratiza as funções – desmonta o poder centralizado para servir melhor e pregar melhor; lembra Ex 18. Amplia a participação do processo coletivo de construção do Reino de Deus. A construção do Reino de Deus parte dos empobrecidos: trabalhadores braçais, escravos, mulheres, estrangeiros, sem terra.
4. Cultural – reproduz a cultura do dominado, do pobre e não do opressor:
Casa – Deus Pai e não César: pai da pátria e o pai da casa: dono da mulher, filhos, escravos e terra
Eclésia – assembléia do povo de Deus onde todos participam e não apenas a elite escravocrata.
5. Social – vida em comunidade – Ceia do Senhor – coleta para os pobres – visita a viúvas e órfãos - diaconia. Não isolamento e individualismo, pois o Reino de Deus é diaconia (viúvas visitam pobres, batizandos visitam empobrecidos e doentes) – é um processo coletivo. Não há salvação meramente individual desvinculada de um processo de luta e resistência contra o sistema dominante, pois o Reino de Deus é oposição ao sistema que não cai sozinho, mas com nossa luta por uma nova sociedade não capitalista.
6. Religioso – Evangelho do Reino de Deus em oposição à religião, que tem a função de legitimar o sistema. Evangelho é contracultura é para derrubar o sistema (Lc 23.1-5; Jo 2.13-22).
Comblin numa palestra em El Salvador sob o tema: “O que está acontecendo na Igreja?” diz: “O evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo”. Aí entra o comentário de José María Castillo (publicado na página do IHU): “E isto, o que tem a ver com o que está acontecendo na Igreja? Muito simples: na vida e no funcionamento da Igreja, a religião ocupa mais espaço e tem maior importância do que o evangelho. O evangelho expressa a vontade de Deus que busca o homem (leia-se pessoa). A religião expressa a vontade do homem que busca a Deus. Portanto, de entrada, evangelho e religião são dois movimentos radicalmente contrapostos. A religião é um “fato cultural”, ao passo que o evangelho é um “fato contracultural”. O que acabo de indicar explica como e por que, no cristianismo, ocorre que a presença da religião (elaborada na cultura do Ocidente) é mais forte e mais determinante que o evangelho, que teria que ser a força de contestação e transformação da nossa cultura do Ocidente, que é, até hoje, a cultura dominante num mundo sobrecarregado de desigualdades, injustiças e violências. O fato é que, como disse Comblin, as coisas chegaram a colocar-se de maneira que Jesus é mais “objeto de culto” do que “modelo de seguimento”. Mas, sabemos de sobra que o culto não muda a vida das pessoas, mas que antes a tranquiliza. Só o seguimento – que é o que Jesus pediu aos discípulos – seria capaz de mobilizar as pessoas para reorganizar uma Igreja mais de acordo com o evangelho, mesmo que isso tivesse o enorme custo do enfrentamento com tantos elementos anticristãos que marcaram a cultura em que vivemos”.
Está aí a explicação da situação em nossas igrejas onde a Religião se sobrepõe ao Evangelho. Está aí a explicação porque o nosso culto não muda as pessoas e nem as faz se engajar na luta para a transformação de nossa realidade a partir do Movimento Popular, Sindical, ecológico e luta político partidária de esquerda. O nosso culto e demais atividades “religiosas” fazem parte da “Religião”, que tranqüiliza, acomoda, aliena, e não do “Evangelho”, que transforma, revoluciona, subverte, agita (At 24.5-6) a partir da fé em Jesus Cristo. Essa é duro de engolir. Mas parece que é assim. E aí, o que sobra? O que faremos?

Estamos destinados como sacerdotes a “tranqüilizar” o povo?
Usar o Evangelho para legitimar o capital (que manda no Estado e este lhe dá o suporte para sobreviver) é o nosso pecado maior. I Sm 12.19: “Além de todos os nossos pecados, ainda pecamos ao pedir um rei”. O Evangelho não pressupõe a existência do Estado, pois o Estado é o aparelho da classe economicamente dominante para perpetuar a sua exploração sobre o povo (I Sm 8). Deus sempre combateu o Estado – Dt 6.20-23; Ex 3. Jesus é uma ameaça ao Estado – Lc 23.1-5; Jo 11.47ss; Herodes vê em Jesus uma ameaça - Lc 13.31-32: “Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei”. Jesus ataca o Templo como instituição do Estado para legitimar a opressão (Jo 2.13-22)

Jesus propõe uma sociedade sem classes, sem Estado, igualitária, (Gl 3.28: Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.), de concidadãos dos santos (Ef 2.19); construída pelos empobrecidos citados em Mt 25.31ss que trabalham com suas próprias mãos (1 Co 4.12) [a elite não trabalhava] para reduzir a nada o que é (I Co 1.26-29): o império romano, hoje o capitalismo.
Cura é reconstrução da vida destruída pelo sistema. Reino de Deus é reconstrução da sociedade alienada e oprimida. A cura faz parte da reconstrução da sociedade e das pessoas. A centralidade do Reino está na reconstrução da pessoa oprimida; deixar a criação de Deus ser criação plena de Deus. Jesus recria a criação de Deus com a cura, com o acolhimento, com o amor, com o amparo e com a eliminação das leis opressores do AT e da interpretação do Templo e seus defensores: fariseus, saduceus, escribas e sacerdotes (João 7.49: Quanto a esta plebe que nada sabe da lei, é maldita.).
A cura é sinal do reino de Deus já agora. Cura pela fé em Jesus Cristo; a fé é central. Fé é graça, sem pagamento, de graça. Salvação por graça e fé segundo Paulo (Ef 2.8: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus), sem sacrifícios pagos no Templo. Cura acontece longe do Templo e não por intermédio dele. A cura traz seguimento voluntário e divulgação da ação de Cristo (Mc 1.40-45)

As curas de Jesus são sinais do Reino de Deus:
Muitas outras curas (Mt 8.16-17; Lc 4.40-41)
Mc 1.32 “À tarde, ao cair do sol, trouxeram a Jesus todos os enfermos e endemoninhados. 33 Toda a cidade estava reunida à porta. 34 E ele curou muitos doentes de toda sorte de enfermidades; também expeliu muitos demônios, não lhes permitindo que falassem, porque sabiam quem ele era”.
Pobreza e opressão como as causas de doenças. Jesus combate o reino deste mundo curando e acolhendo os excluídos para mostrar como é o Reino de Deus e que ele já começou. Lc 17.21: “Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós”. Mt 12.28: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós”. Curar, acolher e conviver com os empobrecidos e adoecidos é pura subversão num mundo de exclusão e doença causada pela opressão. Curar é resistir contra a opressão do sistema econômico que cria a doença pela miséria e opressão; é mostrar que uma nova sociedade é possível: o Reino de Deus. Jesus não se conforma com a Ditadura do Pensamento Único que diz que não existe a possibilidade de se construir uma nova sociedade viveremos eternamente sob e no capitalismo. Não temos futuro, o nosso futuro é o presente. Porém, o Evangelho do Reino de Deus sempre aponta para a construção de uma nova sociedade no futuro, a partir do agora.

Na luta de classes existente na sociedade em que Jesus vivia Ele opta em viver na classe camponesa e a partir dela construir a nova sociedade que Ele chama de Reino de Deus. E no Reino de Deus a doença não tem espaço, pois é contrária à vontade de Deus, apesar da sociedade envolvente dizer que era castigo de Deus. A sociedade opressora sempre coloca a culpa do sofrimento sobre o que está sofrendo, o pobre e o doente são culpados de sua própria situação, pois são pecadores. Por isso Jesus sempre diz ao curar alguém: A tua fé te salvou.
Mc 10.52: Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora.
Lc 7.50: Mas Jesus disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.
Com isto Jesus diz que a cura e a salvação vêm pela fé e não pelo cumprimento da Lei – Torá. Além disto, é Deus que está curando, pois Jesus é Deus e homem ao mesmo tempo. Se Deus cura a doença é porque ele não quer a doença e com isto está apontando para as causas da doença; já que a causa não vem de Deus por ser seu castigo, então a causa é outra: a realidade opressiva. Doença e opressão, de todos os tipos, andam juntas. Úlcera do estômago vem do stress e da raiva. Excesso de trabalho cria doença: hoje as doenças do trabalho. As causas são psíquicas e econômicas: stress por causa do trabalho opressivo.

Contando todos os milagres presentes nos quatro evangelhos, podemos classificar assim cerca de 30 relatos de gestos prodigiosos de Jesus. Ele dirige seus milagres para determinados tipos de pessoas: as crianças (Mc 5.41), as mulheres (Mc 5.25), as viúvas e os órfãos (Lc 7.11), os pecadores (Mc 2.5), os samaritanos (Lc 17.16), os estrangeiros (Mc 7.26). Todas as pessoas marginalizadas no sistema religioso do judaísmo. Jesus cura as vítimas do sistema (Mt 25.31-46) e com isto denuncia o sistema opressivo e o combate desfazendo a opressão e capacitando para, agora com saúde, lutar contra a opressão.


1. Os milagres são sinais da chegada e realização do Reino de Deus que Jesus anuncia.
2. Os milagres de Jesus atingem todos os aspectos da realidade.
3. Os milagres não têm a intenção de “provar” que Jesus é Filho de Deus, nem dispensam a necessidade de crer nele.
4. Os milagres de Jesus não o dispensam do sofrimento e da cruz.
5. Milagre, no NT, não significa um acontecimento extraordinário que não pode ser explicado pelas leis da ciência, mas é um sinal da ação protetora e salvadora de Deus.
Duas Conseqüências - Podemos orar a Deus pedindo ajuda para os males.
- Muitos males são conseqüências do pecado de uma sociedade mal organizada. Muita doença é fruto da fome, salário baixo, falta de acesso a terra, abuso de veneno, falta de atendimento médico. Jesus se recusou a transformar pedras em pão, mas ensinou a repartir os pães existentes (Mc 6.34-44)

Os milagres de Jesus indicam a presença libertadora de Deus no meio do povo, escutando o grito e o clamor daquele que sofre, do que está doente, do marginalizado. O milagre é apenas um pequeno sinal, suficiente bastante para lembrar Deus presente, vivo e atuante. Pedir milagres é duvidar desta presença libertadora de Deus. Muitos passaram por esta grande tentação: pelo milagre ter a certeza da presença de Deus, para só então seguir Jesus. Jesus repreende esta atitude (Mc 8.11-12). A fé nunca é fruto de milagres. A fé é fruto do acolhimento da Palavra e da mudança de vida. O milagre é um gesto gratuito da bondade de Deus, sinalizou sua presença.

A Mensagem do Milagre.
Os evangelhos querem apresentar os milagres de Jesus como sinais da presença do Reino de Deus. Com os milagres, Jesus realiza tudo o que foi prometido na Lei e nos Profetas a respeito do Reino (Is 29,18-19; 35,5-7).
Milagres são como sinais dos tempos messiânicos. Quando João Batista pede que Jesus dê uma comprovação de sua missão, Jesus manda os mensageiros de volta, citando passagens de Isaías como que dizendo que agora se cumpre a Escritura: chegaram os tempos messiânicos. Os milagres de Jesus querem confirmar a presença do Reino de Deus no meio do povo. Os milagres aparecem assim como uma confirmação das palavras de Jesus (Lc 24,19; At 2,22).
Os sinais que Jesus realiza dão testemunho de que Jesus é de fato o enviado do Pai. Quem faz esta leitura toda própria dos milagres de Jesus é a comunidade de João. O evangelho de João apresenta os milagres como sinais da Glória suscitando a fé em Jesus. Encontramos sete sinais em João que manifestam a Glória de Deus nas obras de Jesus:
Bodas de Caná (Jo 2.1-11) = falta de vinho x vinho em abundância; a festa tem que continuar e logo após vem a denúncia de quem está impedindo da vida ser uma festa: o Templo.
Cura do filho de um funcionário real (Jo 2.46-54) - doença x saúde/vida.
Cura de um enfermo na piscina de Betesda (Jo 5.1-18) = paralisia x liberdade.
Cura de um cego de nascença (Jo 9.41) = cegueira, trevas x visão, luz.
Ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-44) = morte x vida, ressurreição.
Os sinais são quase sempre complementados por discursos (Jo 6.22-71), para evidenciar a força da Palavra de Jesus que é a encarnação da Palavra do Pai (Jo 1.1-18). O principal objetivo dos Sinais é dar Glória a Deus e levar à fé em Jesus, seu Filho, enviado para realizar a obra do Pai.
No entanto, o próprio evangelho atesta que, apesar de tantos sinais, Jesus é recusado por alguns (Jo 11.47-48). Também foi acusado de ser um agente do mal (Mc 3.22) sendo o seu poder o mesmo que o dos demônios.
Jesus não obrigava ninguém a crer no que ele fazia, apenas convidava as pessoas a tirar suas conclusões diante do que ele fazia (Jo 10.38). Todos os que aceitassem os sinais aceitariam Jesus como o enviado do Pai (Jo 5.36). Afinal, todos os sinais prodigiosos atribuídos a Jesus têm por objetivo apontar para o milagre maior: a ressurreição de Cristo.

22 de agosto de 2011

Advento

Em At 9.1-2 diz: “Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém”.
Em At 19.23 diz: “Por esse tempo, houve grande alvoroço acerca do Caminho”.
Os primeiros cristãos eram chamados de: “os do Caminho” e o Projeto de Deus era chamado de: “o Caminho”.

Falando em “caminho” nos lembramos da família camponesa sem terra Abraão e Sara que caminhou, sob a orientação de Deus, da Mesopotâmia em direção à Terra Prometida.

A família camponesa escrava de Moisés, Arão e Miriam, no Egito, caminhou com seu povo pelo deserto, guiados pela luz de Deus, em direção à conquista da Terra Prometida com a proposta de acabar com o Estado (Js 6-8) por ser instrumento da classe economicamente dominante para perpetuar a sua opressão e exploração sobre a classe que trabalha (na época a classe camponesa) e construir uma nova sociedade sem classes e sem Estado, onde não haveria escravos e nem senhores.

Os juízes palestinos Gideão e Débora caminharam por Canaã para organizar os camponeses israelitas a fim de manter a terra conquistada e a sociedade livre do Estado e manter o Projeto de Deus que queria uma sociedade sem classes sociais, sem Estado, sem Templo, livre, onde todos tem acesso à terra e uma sociedade, que propõe conforme Dt 15.4: “para que entre ti não haja pobre”.

Os profetas Isaías e Zacarias caminharam pela Palestina para advertir o povo de seus pecados (entre eles o maior: ter constituído um rei, um Estado para os oprimir e os desviar do caminho do Projeto de Deus, como fala em I Sm 12.29) e para falar da esperança do Messias, que vem como Servo Sofredor.

O profeta Ezequiel caminhou com o seu povo para a escravidão da Babilônia para lá aprender da História, dos Profetas, dos Salmos e da Lei que Deus sempre está do lado dos que sofrem e são oprimidos para fortalecê-los no sofrimento, a ajudá-los a superá-lo e manter vivo a esperança da nova sociedade.

O profeta Ageu caminhou entre o seu povo sofrido e oprimido pelos impostos incentivando a reconstrução do Templo como o único espaço possível de resistência dentro da repressão persa.

O governador Neemias andou em meio ao sofrimento de seu povo falido economicamente e denunciou a elite que escravizava o seu próprio povo que não tinha condições de pagar as suas dívidas devido à alta dos preços dos alimentos, dos altos impostos pagos em moeda e da penhora de suas terras, e, pelo poder de uma Assembléia Popular, conquistou com o povo organizado o perdão das dívidas e a libertação dos escravos.

Os irmãos Macabeus caminharam por todo o Israel para organizar o povo para a luta armada contra seus opressores gregos que queriam acabar com a sua fé no Deus que liberta para poder oprimi-los melhor e caminharam com o povo em armas durante mais de vinte anos até que pudessem festejar a vitória, viver em liberdade num país independente.

João Batista caminhou pelo deserto da Judéia para anunciar que o Messias irá chegar. Como preparo batizava no rio Jordão, longe do Templo e de graça, para a remissão de pecados, pois a salvação nos é dada de graça pela fé.

A família da classe camponesa, José e Maria, caminhou de Nazaré para Belém, por causa de uma ordem opressora imperialista romana, para se recensear; e neste processo nasce marginalizado um sem terra numa estrebaria que é aquele que libertará a todos de todas as opressões e morte e fará todas as pessoas livres, como lembra o apóstolo Paulo em Gl 5.1: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão”.

Os magos, que eram estrangeiros e migrantes, caminharam por terras longe de sua pátria na procura do rei dos judeus que não foi encontrado no palácio do rei Herodes, mas numa estrebaria, numa família da classe camponesa e rodeado por camponeses pastores empobrecidos e marginalizados, deitado numa manjedoura fora da cidade de Belém.

Os 12 discípulos e o grupo de mulheres, que seguiam Jesus e serviam o Movimento de Jesus, caminharam com Ele pela Palestina para anunciar que o reino de Deus já “está entre vós” (Lc 17.21), dizendo ainda, conforme Lc 6.20: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus”.

Jesus caminhou para Jerusalém, acompanhado de seus discípulos e discípulas, para ser crucificado e ressurreto no terceiro dia e para nos mostrar a vitória de Deus sobre a morte e sobre todas as mortes em vida e para mostrar a sua vitória sobre o sistema deste mundo, quando pela ressurreição anulou e contrariou uma decisão do Estado.

Os Apóstolos, entre eles Pedro e Paulo entre muitos outros e outras, caminharam pelas estradas do Império Romano para proclamar o Evangelho do Reino de Deus como proposta de uma nova sociedade não opressora que constrói a sua Assembléia – eklesia - com a participação daqueles que não podiam participar da assembléia da cidade por serem mulheres, jovens, estrangeiros, sem terra, jornaleiros e escravos.

As muitas mulheres que eram lideranças e eram a sustentação das primeiras comunidades cristãs, como Priscila, Trifena, Trifosa e Júlia, caminhavam pelas cidade praticando a diaconia que fazia as comunidades crescer.

Nós hoje caminhamos como comunidade porque somos a luz do mundo, como nos falou o Cristo, enquanto camponês peregrino sem terra e sem teto Jesus de Nazaré, conforme Mt 5.14 dizendo: “Vós sois a luz do mundo”. Jesus lembra ainda em Mt 5.16: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus”. Pois: “Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte” (Mt 5.14).

Sejamos, pois, sempre luz do mundo que aponta para a construção desta nova sociedade não capitalista que Jesus chama de Reino de Deus.

As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo

V. I. Lénine
Março de 1913

A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.
Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.
A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a supertição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.
Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.
I
A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à supertição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.
Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.
Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.
Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquisto formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.
Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.
A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.
II
Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.
A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.
Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.
A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx.
O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.
Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.
Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.
Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.
E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.
O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.
III
Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialista. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.
Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.
Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.
Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.
O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.
Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.
Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.
No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.
http://www.marxists.org/portugues/lenin/1913/03/tresfont.htm

O Que Quer a Liga Espartaco?

Rosa Luxemburgo
1918

Título original: Was willt der Spartakusbund (Die Rote Fahne, 14 de Dezembro de 1918)

I
A 9 de Novembro(1*), os obreiros e soldados destruíram o antigo regime na Alemanha. Nos campos de batalha franceses dissipara-se a sangrenta ilusão de domínio mundial polo sabre prussiano. O bando de criminosos que ateara o mundo e mergulhara a Alemanha num mar de sangue, gastara todo o seu latim. Enganado durante quatro anos, o povo esquecera todo o dever de cultura, todo o sentimento de honra e humanidade a serviço de Moloch e se deixara usar para qualquer infâmia, despertou do seu assombro para impedir a catástrofe.
A 9 de Novembro, revoltou-se o proletariado alemão para desbaratar o jugo ignominioso que o oprimia, e após afugentar os Hohenzollern, foram eleitos conselhos de operários e soldados.
Os Hohenzollern, contudo, eram apenas os gerentes da burguesia imperialista e da nobreza latifundária. A verdadeira culpada pola guerra mundial, tanto na Alemanha quanto na França, na Rússia quanto na Inglaterra, na Europa quanto na América, é a dominação de classe da burguesia. Os verdadeiros instigadores do genocídio são os capitalistas de todos os países. O capital internacional é o Baal insaciável em cujas sangrentas fauces são atiradas milhões e milhões de vítimas humanas palpitantes.
A guerra mundial pôs uma alternativa à sociedade: ou manutenção do capitalismo, o que quer dizer novas guerras, assim como a queda rápida no caos e na anarquia, ou abolição da exploração capitalista.
Com o fim da guerra, a dominação de classe da burguesia perdeu o direito à existência. A burguesia já não é capaz de livrar a sociedade da catástrofe económica engendrada pola orgia imperialista. Foram destruídos quantidades enormes de meios de producção. Morreram milhões de operários, o melhor e o mais competente da estirpe da classe obreira. Aos que voltam vivos ao seu fogar espera-os a miséria escarnecedora do desemprego; a fame e as doenças ameaçam aniquilar até à raiz a força do povo. A bancarrota do Estado, conseqüência do enorme fardo das dívidas de guerra, é inevitável.
Face esta desordem sangrenta e esta catástrofe pasmosa, somente o socialismo supõe uma ajuda, uma solução e uma salvação. Unicamente a revolução mundial do proletariado pode pôr ordem neste caos, dar trabalho e pão a todos, pôr fim ao dilaceramento recíproco entre os povos e dar paz, liberdade e cultura verdadeira a uma humanidade saudável. Morra o salariato! Eis o lema do momento. Que o trabalho cooperativo substitua o trabalho assalariado e a dominação de classe. Os meios de producção não devem ser o monopólio duma classe para se tornarem bem comum. Chega bem de exploradores e explorados. Que se regulamente a produção e a distribuição dos produtos no interesse da comunidade. Abolição, tanto do modo actual de produção, de exploração e roubo, quanto do comércio actual, que não passa de engano.
Trabalhadores livres cooperando no lugar de patrões e escravos assalariados! Que o trabalho não seja um tormento, porque dever de todos! Para todos os que cumprem com os seus deveres para com a sociedade, uma existência digna! A fame não seja mais a maldição do trabalho, mas a punição da preguiça!
Somente numa sociedade assim serão extinguidos a servidão e o ódio entre os povos. Só quando esta sociedade se concretizar, o homicídio deixará de manchar a terra. Só então poderá se dizer: Esta guerra foi a derradeira.
Nesta hora, o socialismo é a única salvação da humanidade. Sobre uma sociedade capitalista que afunde brilham, como uma advertência ardente, as palavras do Manifesto Comunista; "Socialismo ou queda na barbárie!(2*)
II
A realização da sociedade socialista é a tarefa mais grandiosa que coube nunca a uma classe ou a uma revolução na história do mundo. Esta tarefa ordena uma transformação completa do Estado, assim como uma revolução dos fundamentos económicos e sociais da sociedade.
Esta transformaçãoão e esta revolução não podem ser decretadas por autoridade, comissão ou parlamento nenhum, embora são as massas populares as que tem de empreendê-las e realizá-las.
Em todas as revoluções anteriores era sempre uma pequena minoria do povo que conduzia a luita revolucionária, que lhe dava objectivo e orientação e aproveitava as massas populares como instrumento para fazer triunfar os seus interesses, os interesses da minoria. A revolução socialista é a única que pode triunfar graças à grande maioria dos trabalhadores e no iteresse da grande maioria.
A massa do proletariado é chamada não só a fixar o objectivo e a orientação claramente à revolução, mas também a de pôr na prática o socialismo passo a passo, através da actividade própria.
A essência da sociedade socialista consiste em que a grande massa trabalhadora deixa de ser uma massa governada para viver, sem embargo, ela mesma a vida política e econômica com autonomia, a orientá-la por uma autodeterminação consciente.
Do degrau mais alto do Estado até o concelho mais pequeno, a massa proletária tem que substituir os órgãos superados da dominação burguesa de classe, isto é,o Bundesrat(3*), os parlamentos, os conselhos municipais, polos seus órgãos próprios de classe, quer dizer, os conselhos de operários e de soldados, tem que ocupar todos os postos, fiscalizar todas as funções, medir todas as necessidades estatais, segundo os interesses próprios de classe e os objectivos socialistas. Unicamente uma acção recíproca constante e viva entre as massas populares e os seus órgãos, os conselhos de obreiros e camponeses, pode lograr que a sua actividade induza o espírito socialista no Estado.
Por sua vez, a revolução económica tão só pode realizar-se sob a forma de um processo levado a cabo no decurso de uma acção proletária de massas. Os secos decretos das autoridades revolucionárias supremas, de por si, não passam de palavras ocas. Só a classe operária pode dar conteúdo a tais palavras pola sua própria acção. Os trabalhadores podem alcançar o controle da produção e, finalmente, a direcção efectiva dela, unicamente por uma luita encarniçada e tenaz contra o capital, em cada empresa, graças à pressão directa das massas, às greves, à criação dos seus órgãos representativos permanentes.
As massas proletárias têm que deixar de ser máquinas mortas que o capitalista usa no processo de produção e aprender a tomar-se dirigentes reflexivos, livres e autónomos deste processo; têm que dessenvolver o sentimento de responsabilidade dos membros activos da comunidade, única proprietária da totalidade da riqueza social; precisam mostrar zelo no trabalho sem necessidade do látego do empresário, produzir ao máximo sem contramaestres capitalistas, mostrar disciplina sem sujeição a um jugo e manter a ordem sem dominação. O idealismo mais elevado no interesse da colectividade, a autodisciplina mais estrita e verdadeiro senso de cidadania das massas constituem o fundamento moral da sociedade socialista, assim como o embrutecimento, o egoísmo e a corrupção são o fundamento moral da sociedade capitalista.
A massa obreira pode apoderar-se de todas essas virtudes cívicas socialistas, assim como os conhecimentos e capacidades para a direcção das empresas socialistas, só pola actividade e experiências próprias.
A socialização da sociedade só pode ser realizada por uma luita dura e teimosa da massa trabalhadora em toda a sua amplitude e em todos aqueles pontos onde o trabalho e o capital, o povo e a dominação burguesa se encaram, olhos nos olhos. A libertação da classe obreira deve ser obra da própria classe obreira.
III
Nas revoluções burguesas o derramamento de sangue, o terror e o assassinato político eram uma arma indispensável nas mãos da classe ascendente.
A revolução proletária não precisa de terror algum para realizar os seus fins: odeia e abomina o homicídio; não precisa desses meios de luita porque não combate contra o indivíduo, mas contra instituições, e porque não entra na areia cheia de nenhuma ilusão ingênua cuja destruição teria de vingar sangrentamente. A revolução proletária não é a tentativa dessesperada duma minoria de moldar o mundo à força de acordo com o seu ideal, mas a acção da imensa massa popular, que está a ser chamada a cumplir a sua missão histórica e a fazer uma realidade a necessidade histórica.
Mas, ao mesmo tempo, a revolução proletária é, também, o dobre de finados de toda servidão e de toda opressão; eis por que se erguem contra ela, numa luita de vida ou morte, todos os capitalistas, os latifundiários, os pequeno-burgueses, os oficiais, todos os aproveitadores e parasitas da exploração e da dominação de classe.
É uma ilusão extravagante acreditar que os capitalistas hão de se render de bom grado ao veredicto socialista de um parlamento ou de uma assembleia nacional e que hão renunciar tranquilamente à propriedade, ao lucro e aos privilégios da exploração(4*). Todas as classes dominantes luitaram sempre até ao fim com a mais pertinaz energia por manter os seus privilégios; os patrícios romanos, assim como os barões feudais da Idade Média, os cabaleiros ingleses igual que os esclavagistas norteamericanos, os boiardos valacos, assim como os fabricantes de seda de Lyon, todos eles derramaram rios de sangue e, para defender os seus privilégios e o seu poder, pouco lhes importou caminhar sobre cadáveres, chegando até o assassinato e o incêndio, e até mesmo provocaram guerras civis ou traíram os seus países.
Na sua condição de último rebento da classe exploradora, a classe capitalista imperialista ultrapassa em brutalidade, em cinismo e em infâmia todas as suas antecessoras. Esta classe defenderá o que tem de mais sagrado, o lucro e o privilégio da exploração, com unhas e dentes e com os métodos da maldade calculada revelados em toda a história colonial e na última Guerra Mundial. Moverá ceu e terra contra o proletariado; mobilizará o campesinato contra as cidades, açulará as camadas de trabalhadores mais retrógados contra a vanguarda socialista, utilizará oficiais do exército para organizar massacres, tentará barrar toda medida socialista polos milhares de meios de resistência passiva, estimulará vinte Vendéias(5*) contra a revolução, chamará polo inimigo externo, ao aceiro assassino de Clemenceau, Lloyd George e Wilson(6*) como salvadores e, antes de renunciar de bom grado à escravidão do salariato, preferir transformar o país num monte de entulhos fumegantes.
Esta resistência terá de ser quebrada passo a passo, com mão de ferro e energia impiedosa. À violência da contrarevolução burguesa há que opor a violência revolucionária do proletariado; aos combates, intrigas e tramas da burguesia, a lucidez inquebrantável dos objectivos, a vigilância e a actividade pronta da massa proletária; aos perigos ameaçantes da contra-revolução, o armamento do povo e o desarmamento das classes dominantes; às manobras de obstrução parlamentar da burguesia, a organização activa das massas dos trabalhadores e dos soldados; à omnipresença e aos mil meios de que dispõe a sociedade burguesa, o poder concentrado, elevado ao máximo, da classe operária. A frente única do conjunto do proletariado alemão, do proletariado do Norte com o do Sul da Alemanha, do proletariado urbano junto com o rural, dos trabalhadores com os soldados; o contacto espiritoal vivo da revolução alemã com a Internacional, o alargamento da revolução alemã em revolução mundial do proletariado criará a base de granito sobre a qual se poderá construir o edifício do futuro.
A luita polo socialismo é a guerra civil mais violenta conhecida pola história mundial, e a revolução proletária tem de se procurar o armamento necessário para esta guerra civil, tem por obrigação aprender a utilizá-lo, nas luitas e nas vitórias.
Munir assim as massas obreiras compactas com todo o poder para realizar as tarefas da revolução, eis no que consiste a ditadura do proletariado e, portanto, a democracia verdadeira. Esta não se encontra lá onde o escravo assalariado se senta ao lado do capitalista e o proletariado agrícola ao lado do latifundiário em falaciosa igualdade, para debater num parlamento os seus problemas vitais; a democracia quando não é um engano popular aparece quando de milhões de proletarios empunham todo o poder do Estado coas suas mãos calosas, tal como o deus Thor com o seu martelo, para machucar a cabeça das classes dominantes.
Para tornar possível ao proletariado a realização destas tarefas, a Liga Espartaco exige:
I. Medidas imediatas para assegurar a revolução:
1. Desarmamento de toda a polícia, de todos os oficiais do exército, assim como dos soldados que não são proletários; desarmamento de todos os que pertencem às classes dominantes.
2. Requisação de todos os estoques de armas e munições, assim como das fábricas de armas, polos conselhos de operários e soldados.
3. Formação duma milícia operária polo armamento do conjunto da população proletária adulta e masculina. Estabelecimento de uma Guarda Vermelha, constituída por proletários que será a parte activa da milícia para a defesa permanente da revolução contra os ataques e as maquinações contra-revolucionárias.
4. Abolição do poder de comando dos oficiais e suboficiais. Sustituição da obediência servil militar pola disciplina consentida dos soldados. Eleição de todos os superiores pola tropa, com direito permanente de revogar. Abolição da jurisdição militar.
5. Exclusão dos oficiais e capitulantes(7*) de todos os conselhos de soldados.
6. Instituição de um tribunal revolucionário para julgar os culpados principais pola guerra e polo seu prolongamento: os dous Hohenzollern, Ludendorff(8*), Hindenburg(9*), Titpiz(10*) e outros delinquentes, assim como todos os conjurados da contra-revolução.
7. Requisação imediata de todos os estoques de víveres, com o fim de garantir a alimentaçã do povo.
II. Medidas nas áreas políticas e sociais:
1. Abolição de todos os Estados independentes; criação de uma república alemã socialista e unificada.
2. Supressão de todos os parlamentos e conselhos municipais e preenchidas as suas funções polos conselhos de obreiros e soldados, assim como aos seus comitês e outros órgãos.
3. Eleição de conselhos de operários em toda Alemanha e nas empresas com a participação de toda a classe trabalhadora adulta de ambos os dous sexos na cidade e no campo. Eleições, também, de conselhos de soldados pola tropa, a não ser os oficiais e capitulantes. Direito dos operários e soldados a revogarem, a todo momento, os seus representantes.
4. Eleições em todo o Império de delegados dos conselhos de obreiros e de soldados para o Conselho Central de conselhos de operários e camponeses que, por sua vez, terá de eleger o Conselho Central Executivo, órgão supremo do poder legislativo e executivo.
5. Reunião do Conselho Central, no mínimo, uma vez a cada três meses — com reeleição dos delegados de cada — a fim de exercer um controle permanente sobre a actividade do Conselho Executivo e instituir um contacto vivo entre a massa dos conselhos de operários e de soldados na nação(11*) e o seu órgão supremo de governo. Direito dos conselhos locais de operários e soldados de revogar e de substituir, a todo momento, os seus delegados no Conselho Central, no caso destes não agirem de acordo com o mandado que lhes foi dado polos eleitores. Direito do Conselho Executivo de nomear e depor os comissários do povo(12*), assim como as autoridades centrais do Império e os funcionários.
6. Abolição de todas as diferenças de casta, de todas as ordens e de todos os títulos. Igualdade jurídica e social total entre os sexos.
7. Legislação social terminante. Redução do tempo de trabalho para luitar contra o desemprego e levar em consideração a fraqueça física da classe obreira como conseqüência da Guerra Mundial; jornada de trabalho em seis horas, no máximo.
8. Reorganização fundamental imediata do sistema de alimentação, da habitação, da saúde e da educação, no sentido e no espírito da revolução proletária.
III. Reivindicações econômicas imediatas:
1. Confisco em proveito da comunidade de todos os bens e rendas da casa real.
2. Anulação das dívidas do Estado e de outras dívidas públicas, assim como de todos os empréstimos de guerra, excepto das subscripções dum determinado valor, que fixará o Conselho Central dos conselhos de operários e de soldados.
3. Expropriação da terra de todas as explorações agrícolas médias e grandes; constituição de cooperativas agrícolas socialistas sob a direcção central única à escala de todo o Império; as pequenas explorações agrícolas continuarão de posse dos seus proprietários até que estes adiram voluntariamente às cooperativas socialistas.
4. Expropriação polo poder republicano dos conselhos de todos os bancos, minas, fundições e todas as grandes empresas da indústria e do comércio.
5. Confisco de todas as fortunas acima dum certo valor, a ser fixado polo Conselho Central.
6. Apropriação polo poder republicano dos conselhos de todos os transportes públicos.
7. Eleição de conselhos de empresa em todas as fábricas, que, conforme com os conselhos operários, deverão regulamentar os assuntos internos da empresa, decidir as condições de trabalho, fiscalizar a producção e, finalmente, assumir a direcção da empresa.
8. Fundar uma Comissão Central de Greve que, em colaboração permanente com os conselhos de empresa, assegure ao movimento de greve que começa em todo o Império, uma direcção única, orientação socialista e o apoio mais poderoso polo poder político dos conselhos de operários e soldados.
IV. Tarefas internacionais:
Estabelecimento imediato das relações com os partidos irmãos do estrangeiro para dar uma base internacional à revolução socialista e estabelecer e garantir a paz pola fraternidade internacional e o levante revolucionário do proletariado mundial.
V. Eis o que se propõe a Liga Espartaco!
E porque isto se propõe, porque é o arauto, o acicate e a consciência da revolução, a Liga é odiada, é perseguida e caluniada por todos os inimigos da revolução, públicos e secretos.
Crucificai-os!, gritam os capitalistas, tremendo polos seus cofres-fortes.
Crucificai-os!, clamam os pequeno-burgueses, os oficiais, os anti-semitas, os lacaios da imprensa burguesa, tremendo polos seus grãos de bico.
Crucificai-os!, bramam os Scheidemann(13*) que, como Judas Iscariotes venderam os trabalhadores à burguesia e tremem perder os denários do seu poder político.
Crucificai-os!, repetem como um eco camadas enganadas, iludidas e mistificadas da classe operária e dos soldados que não sabem que, quando acusam a Liga Espartaco, acusam a sua própria carne e o seu próprio sangue.
No ódio e na calúnia contra a Liga Espartaco unem-se todos os elementos contra-revolucionários, os anti-populares, os anti-socialistas, os turvos, os equívocos, os lucífugos. Confirma-se assim que na Liga bate o coração da revolução e que o futuro lhe pertence.
A Liga Espartaco não é um partido que queira chegar ao poder por cima ou servindo-se das massas trabalhadoras.
A Liga Espartaco é apenas a parte mais consequente do proletariado que, a cada momento, indica às grandes massas da classe obreira as suas tarefas históricas e que a cada estágio particular da revolução defende o fim último socialista, igual que nas questões nacionais defende os interesses da revolução mundial.
A Liga Espartaco recusa-se a compartilhar o poder do governo com os cúmplices da burguesia, com os Scheidemann e os Ebert(14*), porque considera que colaborar com eles é atraiçõar os princípios fundamentais do socialismo, reforçar a contra-revolução e paralisar a revolução(15*).
A Liga Espartaco recusa igualmente a chegar ao governo unicamente porque os Scheidemann-Ebert ruiram a economia e os independentes(16*), ao colaborar com eles, ficaram num beco sem saída.
A Liga Espartaco só tomará o poder pola vontade clara e inequívoca da grande maioria do proletariado em toda Alemanha, isto é, unicamente se o proletariado aprovar conscientemente os projectos, os objectivos e os métodos de luita da Liga Espartaco.
A revolução tão só pode chegar a uma total lucidez e maturidade, passo a passo no longo caminho do Calvário das experiências amargas, as derrotas e as vitórias.
A vitória da Liga Espartaco não é o começo, mas o fim da revolução e se identifica com a vitória de milhões de proletários socialistas.
Avante, proletários! À luita! Há que conquistar um mundo e luitar contra outro. Nesta última luita de classes da história mundial polos objectivos mais sublimes da humanidade, lançamos ao inimigo este grito: Mãos ao pescoço e joelho no peito!
A Liga Espartaco(17*)

Notas:
(1*) O 9 de Novembro de 1918 é a data oficial da revolução alemã; quando o príncipe Max von Baden transfere os poderes a Ebert; mas estes são os passos oficiais de um decurso que começara com o levantamento dos marinheiros de Kiel em 31 de Outubro de 1918, constituindo um conselho. A revolta espalhou-se rapidamente com a constituição espotânea de conselhos de operários e soldados por outras cidades da beira-mar (Hamburgo, etc.). No mesmo espaço de tempo, 8 de Novembro, Kurt Eisner promulgava a república em Munique. Em Berlim, o Conselho de Operários e Soldados proclamara a greve geral e verificava-se que o exército não disparava os grevistas.
(2*) A expressão de Rosa Luxemburgo: "Sozialismus oder Untergang in der Barbarei", não se encontra no Manifesto Comunista. Supõe Hermann Weber que pode tratar-se duma alusão sintética ao trecho do Manifesto Comunista que diz: “opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta”.
(3*) Conselho Federal. Segunda Câmara legislativa na Constituição bismarckiana de 1871.
(4*) Faz referência Rosa Luxemburgo à decisão do Congresso de Conselhos em pronunciar-se pola convocatória de eleições para a Assembléia Nacional. Na revolução alemã, o sector mais moderado (SPD maioritário), pretendia a abolição do Estado de Conselhos de operários por meio da convocatória duma Assembléia Constituinte; a esquerda (Espartaco) ocupava-se de fomentar o sistema de conselhos; enquanto o centro (USPD) queria fazer compatíveis ambas possibilidades.
(5*) Região ao Sul-este de Paris que foi o centro de levante mais grave contra o governo revolucionário central durante a Revolução francesa. Diz-se de qualquer movimento agrário clerical e contra-revolucionário.
(6*) Clemenceau (França), Lloid George (Inglaterra), e Wilson (Estados Unidos), eram os três mais altos dignatários dos seus países quando terminar a Primeira Guerra Mundial. Formavam, por isso, a frente dos inimigos da Alemanha e a alusão de Rosa Luxemburgo está ligada, sem qualquer dúvida, com a acusação antecedente que faz à classe capitalista, de perpetrar alta traição.
(7*) de Kapitulant. Soldado que por um contrato (Kapitulation), se obrigava a um longo serviço no exército, alcançando assim direito à aposentação.
(8*) Erich Ludendorff (1865-1937). Militar responsável do Terceiro Comando Supremo, com grande autoridade na política interna quanto na externa desde 1916 até 1918. Responsável da decisão da guerra submarina ilimitada. Desde 1916 até 1918 foi conhecido como o “ditador da Alemanha”.
(9*) Paul von Beneckendorff und von Hindenburg (1847-1934), Chefe dos exércitos alemães na frente oriental. Junto com Ludendorff foi o chefe supremo dos exércitos desde 1916. O mando supremo militar atingiu a máxima importância desde 1916 até 1918.
(10*) Alfred von Tirpitz (1849-1930). Militar e marinho, foi quem pôs na prática um programa ambicioso de construção naval com a que procurava limitar o domínio marítimo britânico e superar o isolamento alemão. A sua influência diminuiu na Primeira Guerra Mundial. Apartou-se em 1916, quando não logrou impor o seu critério de guerra submarina ilimitada.
(11*) Rosa usa aqui Reich, isto é, Império. O tradutor espanhol argumenta o uso da palavra nação pois na sua opinião, à qual aderimos, é mais apropriada à concepção de um Estado governado por Conselhos de Operários e Soldados.
(12*) Os deputados do povo (Volksbeauftragten). Eram os seis compõentes do governo. O que Rosa reclama é, nada menos que a submissão do governo aos Conselhos de Operários e Soldados, enfrente, precisamente do que se passava. Já na reunião do governo de 13 de Dezembro de 1918, Ebert exigira total independência executiva do governo, reduzindo os Conselhos ao estatuto de órgãos de assesoria (Cf. Gerhard A. Ritter e Susana Miller, Die deutsche Revolution 1918-1919, Fischer, Frankfurt, 1968, p. 133).
(13*) Philip Scheidemann (1865-1930), membro do SPD desde 1883. 1917-1918, presidente do partido junto com Ebert. Partidário de uma paz sem anexões durante a guerra. Outubro 1918, ministro no governo de Max von Baden. Novembro 1918, exige a renúncia de Guilherme II. A 9 de Novembro proclama a república.
(14*) Friedrich Ebert, político do SPD (1871-1925), secretário do Comitê de Berlin do SPD. Desde 1916, presidente da facção parlamentar do SPD, junto com Scheidemann. A 9 de Novembro de 1918 (começo da revolução de Novembro) foi designado chanceler. O seguinte dia designado, junto com Hugo Hasse, presidente do Conselho de diputados do povo. Logrou garantir o período de transição de 1918 à república de Weimar. Desde 11 de Fevereiro de 1919 até a sua morte, foi presidente da República.
(15*) Esta recusa é um algo mais do que clara retórica. O 9 de Novembro de 1918, Emil Barth (SPD) ofereceu Karl Liebnecht a possibilidade de fazer parte do governo. Após algumas consultas, Karl Liebnecht pôs tais condições à sua participação (proclamação da República social; transmissão de todos os poderes aos conselhos de obreiros e soldados; eliminação de todos os burgueses do governo) que o SPD não aceitou a transição.
(16*) Membros do USPD (Unabhangige Sozialdemokratische Partei Deutschlands). Partido fundado em Abril de 1917 e formado por social-democratas que em 1915 votaram contra os orçamentos militares e todos os que agiam contra a guerra. Presidentes, Haase e Dittmannn. Faziam parte Kautsky e Bernstein. Também pola esquerda o grupo Espartaco de C. Liebknecht e Rosa Luxemburgo.
(17*) O programa, redigido por Rosa Luxemburgo, foi apresentado e aprovado polo Congresso de fundação do PCA (Partido Comunista Alemão) de 30 de Dezembro de 1918 a 1 de Janeiro de 1919.
http://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1918/12/14.html

PRINCÍPIOS DO COMUNISMO

Friedrich Engels

O presente texto, esboço de programa para a Liga dos Comunistas, foi escrito por Engels no final de outubro de 1847, num contexto demarcado pela discussão, no interior da Liga, de um "Projeto de Profissão de fé comunista", submetido ao exame das comunas em junho daquele mesmo ano.

1. Pergunta: O que é o comunismo?
Resposta: O comunismo é a doutrina das condições de libertação do proletariado.

2. Pergunta: O que é o proletariado?
Resposta: O proletariado é a classe da sociedade que retira sua subsistência unicamente da venda de seu trabalho e não do lucro de um capital qualquer; a classe cujo bem-estar, cuja vida e cuja morte, cuja existência toda depende da demanda de trabalho, quer dizer, da alternância de bons e maus períodos de negócios, das flutuações de uma concorrência desenfreada. O proletariado ou a classe dos proletários é, numa palavra, a classe trabalhadora do século XIX.

3. Pergunta: Nem sempre, portanto, existiram proletários?
Resposta: Não. Classes pobres e trabalhadoras sempre existiram, e na maior parte das vezes as classes trabalhadoras foram pobres. Porém, pobres como esses, trabalhadores como esses, vivendo nas condições acima indicadas, quer dizer, proletários, não existiram sempre, do mesmo modo que a concorrência nem sempre foi livre e desenfreada.

4. Pergunta: Como nasceu o proletariado?
Resposta: O proletariado nasceu da revolução industrial que se produziu na Inglaterra na segunda metade do século passado [século XVIII] e que se repetiu depois em todos os países civilizados do mundo. Essa revolução industrial foi provocada pela invenção da máquina a vapor, das diversas máquinas têxteis, do tear mecânico e de toda uma série de outros dispositivos mecânicos. Tais máquinas, que eram muito caras e, por isso, só podiam ser adquiridas pelos grandes capitalistas, transformaram completamente o antigo modo de produção e suplantaram os antigos trabalhadores, já que as máquinas forneciam mercadorias melhores e mais baratas do que as que os trabalhadores podiam fabricar com suas rocas de fiar e seus teares imperfeitos. Essas máquinas puseram a indústria inteiramente rias mãos dos grandes capitalistas e desvalorizaram a escassa propriedade dos operários (ferramentas, teares, etc.), até que os capitalistas apropriaram-se de tudo e nada mais restou aos operários. Implantou-se desse modo o sistema fabril na produção de tecidos. Uma vez dado o primeiro impulso à introdução da maquinaria e do sistema fabril, esse sistema estendeu-se rapidamente aos demais ramos industriais, principal-mente à estamparia de tecidos, à tipografia, à cerâmica e à indústria metalúrgica. O trabalho foi dividido cada vez mais entre os operários, e o operário que antes fazia um objeto inteiro passou então a fazer apenas uma parte desse objeto. Tal divisão do trabalho permitiu que os produtos pudessem ser fabricados mais rapidamente e, portanto, a menor preço. Reduziu a atividade de cada operário a um movimento mecânico muito simples, constantemente repetido, que podia ser não só realizado mas também melhorado por uma máquina. Desse modo, todos os ramos industriais foram caindo, um após o outro, sob o domínio da força a vapor, da maquinaria e do sistema fabril, a exemplo das fiações e tecelagens. Conseqüentemente, passaram de uma vez por todas e integralmente para as mãos dos grandes capitalistas, e os operários foram despojados dos últimos resíduos de independência. Pouco a pouco, além da manufatura propriamente dita, também o artesanato caiu sob o domínio do sistema fabril: os grandes capitalistas, instalando grandes oficinas que lhes permitiam diminuir os custos e dividir o trabalho em grande escala, suplantaram progressivamente os pequenos mestres-artesãos (die kleinen Meister). E assim chegamos à situação atual, em que, nos países civilizados, quase todos os ramos de trabalho funcionam com o sistema fabril e em quase todos os ramos de trabalho a grande indústria suplantou o artesanato e a manufatura. Com isso, arruinou-se cada vez mais a antiga classe média, em particular os pequenos mestres-artesãos (die kleinen Handwerksmeister), transformou-se completamente a antiga situação dos trabalhadores e foram criadas duas classes novas, que pouco a pouco absorvem todas as demais, a saber:
a) A classe dos grandes capitalistas, que em todos os países civilizados já tem a posse quase exclusiva de todos os meios de subsistência, e também das matérias-primas e dos instrumentos (máquinas, fábricas) necessários à produção dos meios de subsistência. Essa é a classe dos burgueses ou a burguesia.
b) A classe dos que não possuem absolutamente nada, que são obrigados a vender aos burgueses seu trabalho, para receber em troca os meios de subsistência necessários à sua manutenção. Essa classe denomina-se classe dos proletários ou proletariado.

5. Pergunta: Sob que condições realiza-se essa venda do trabalho dos proletários aos burgueses?
Resposta: O trabalho é uma mercadoria como todas as outras e o seu preço é portanto determinado exatamente segundo as mesmas leis que regem o preço de todas as demais mercadorias. Entretanto, sob o domínio da grande indústria ou da livre concorrência - que, como veremos, são a mesma coisa -, o preço de uma mercadoria é em média sempre igual ao custo de produção dessa mercadoria. O preço do trabalho, portanto, também é igual ao custo de produção dessa mercadoria. Mas o custo de produção do trabalho consiste exatamente na quantidade de meios de subsistência necessários para o operário manter sua capacidade de trabalho e para impedir a extinção da classe operária. Portanto, o operário não receberá por seu trabalho mais do que o necessário para esse fim; o preço do trabalho, ou o salário, será portanto o mínimo estritamente necessário à subsistência. Porém, como os períodos de bons negócios alternam-se com os períodos de maus negócios, o operário receberá umas vezes mais outras menos, exatamente como o fabricante que recebe umas vezes mais outras menos por suas mercadorias. Contudo, do mesmo modo que o fabricante, na média dos bons e dos maus períodos, não recebe por sua mercadoria nem mais nem menos do que o seu custo de produção, o operário também não receberá, em média, nem mais nem menos do que esse mínimo. Tal lei econômica do salário irá se impor com tanto maior rigor quanto mais a grande indústria for se apropriando de todos os ramos do trabalho.

6. Pergunta: Quais eram as classes trabalhadoras antes da revolução industrial?
Resposta: As classes trabalhadoras viveram sob diferentes condições e ocuparam posições diferentes diante das classes possuidoras e dominantes, segundo as diferentes fases de desenvolvimento da sociedade. Na antiguidade, os que trabalhavam eram os escravos (Sklaven) dos que possuíam, como ainda é o caso em muitos países atrasados e inclusive no sul dos Estados Unidos. Na Idade Média, eram os servos (Leibeigenen) dos nobres proprietários de terras, como são ainda hoje na Hungria, na Polônia e na Rússia. Na Idade Média e até à época da revolução industrial, existiam também, nas cidades, oficiais-artesãos (Handwerksgesellen) que trabalhavam a serviço de mestres pequeno-burgueses (kleinenbürgerlicher Meister); pouco a pouco, com o desenvolvimento da manufatura, surgiram também operários de manufatura, empregados por capitalistas mais encorpados.

7. Pergunta: O que distingue o proletário do escravo?
Resposta: O escravo é vendido de uma vez por todas; o proletário tem que se vender a si mesmo a cada dia e a cada hora. O escravo singular, propriedade de um senhor, tem, por interesse desse senhor, uma existência assegurada, por mais miserável que seja ela; o proletário singular, propriedade, por assim dizer, de toda a classe burguesa, e que só tem seu trabalho vendido quando alguém dele necessita, não tem a existência assegurada. Apenas está assegurada a existência da classe proletária em seu conjunto. O escravo está fora da concorrência; o proletário está a ela submetido e se ressente de todas as suas flutuações. O escravo é considerado um objeto, não um membro da sociedade civil (bürgerlichen Gesellschalt); o proletário é reconhecido como pessoa, como membro da sociedade civil. Portanto, o escravo pode ter uma existência melhor do que a do proletário, mas o proletário pertence a uma etapa superior de desenvolvimento da sociedade e ocupa também, ele mesmo, uma posição superior à do escravo. O escravo se liberta abolindo, entre todas as relações de propriedade privada, apenas a relação de escravidão e convertendo-se com isso em proletário; o proletário só pode se libertar abolindo a propriedade privada em geral.

8. Pergunta: O que distingue o proletário do servo?
Resposta: O servo (Leibeigene) tem a posse e o uso de um instrumento de produção, de um pedaço de terra, em troca de uma parte do produto ou da prestação de trabalho. O proletário trabalha com instrumentos de produção de um outro, por conta deste outro, e recebe em troca uma parte do produto. O servo cede, o proletário recebe. O servo tem uma existência assegurada, o proletário não. O servo está fora da concorrência, o proletário está a ela submetido. O servo se liberta ou refugiando-se nas cidades para tornar-se artesão, ou dando ao seu senhor dinheiro ao invés de trabalho ou produtos, transformando-se assim em arrendatário livre, ou ainda expulsando o seu senhor feudal e tornando-se ele mesmo proprietário; em resumo, entrando de uma maneira ou de outra na classe possuidora e na concorrência. O proletário se liberta abolindo a concorrência, a propriedade privada e todas as diferenças de classe.

9. Pergunta: O que distingue o proletário do artesão?
Inexiste resposta. Engels deixou meia Página em branco no original. No "Projeto de Profissão de fé comunista", onde a mesma questão aparece na pergunta 12, pode-se ler como resposta: "O artesão, assim chamado em oposição a proletário, o artesão tal qual existia por quase todo o século passado e existe ainda aqui e ali, é proletário no máximo durante um certo tempo. Seu objetivo é adquirir um capital e, assim, explorar outros operários. Freqüentemente, ele consegue atingir esse objetivo nos locais onde as corporações (die Zünfte) ainda existem ou onde a liberdade industrial ainda não conduziu nem à organização fabril dos ofícios, nem a uma concorrência violenta. Porém logo que o sistema fabril é introduzido nos ofícios e a concorrência a pleno progresso, essa perspectiva desaparece e o artesão torna-se cada vez mais proletário. O artesão se liberta, pois, seja tornando-se burguês ou passando em geral para a classe média, seja tornando-se proletário através da concorrência (como acontece na maioria das vezes) e ligando-se então ao movimento do proletariado, quer dizer, ao movimento comunista mais ou menos consciente". Ver Documents Constitutift de la Ligue des Communistes. Organização e apresentação de Bert Andreas. Paris, Aubier Montaigne, 1972, p. 132-133.

10. Pergunta: o que distingue o proletário do operário manufatureiro?
Resposta: O operário manufatureiro do século XVI ao século XVIII possuía ainda, em quase todas as partes, um instrumento de produção: seu tear, as rocas para sua família, uma pequena área de terra que cultivava nas horas livres. O proletário não possui nada disso. O operário manufatureiro vivia quase sempre no campo, estabelecendo relações mais ou menos patriarcais com seu senhor (Gutsherrn) ou com seu patrão (Arbeitgeber); o proletário vive, em geral, nas grandes cidades e mantém com seu patrão relações exclusivamente de dinheiro. O operário manufatureiro é arrancado pela grande indústria de suas patriarcais condições de vida, perde aquele pouco que ainda possuía e só então se converte em proletário.

11. Pergunta: Quais foram as conseqüências imediatas da revolução industrial e da divisão da sociedade em burgueses e proletários?
Resposta: Em primeiro lugar, o antigo sistema da manufatura ou da indústria baseada no trabalho manual foi completamente destruído, em todos os países do mundo, pela diminuição constante dos preços dos produtos industriais decorrente da introdução do trabalho feito com as máquinas. Todos os países semi-bárbaros, que até então tinham permanecido mais ou menos à margem do desenvolvimento histórico e cuja indústria ainda se baseava na manufatura, foram violentamente arrancados de seu isolamento. Começaram a comprar as mercadorias mais baratas dos ingleses e deixaram perecer seus próprios operários manufatureiros. Países que após milhares de anos não tinham feito qualquer progresso - a Índia por exemplo - foram completamente revolucionados e até a China caminha agora para uma revolução. A situação chegou a tal ponto que a invenção de uma nova máquina na Inglaterra pode, no espaço de um ano, privar do pão milhões de operários chineses. Desse modo, a grande indústria estabeleceu ligações entre todos os povos da terra, uniu num único mercado mundial todos os pequenos mercados locais, preparou em todas as partes a civilização e o progresso e criou uma situação na qual tudo o que ocorre nos países civilizados repercute necessariamente nos demais países. Assim, se hoje se libertarem os operários na Inglaterra ou na França, isso deve provocar em todos os demais países revoluções que mais cedo ou mais tarde conduzirão à libertação dos operários desses países.
Em segundo lugar, em todas as partes onde a grande indústria substituiu a manufatura, a burguesia aumentou ao máximo sua riqueza e seu poder e tornou-se a primeira classe do país. Em conseqüência, em todas as partes onde isso ocorreu, a burguesia tomou o poder político em suas mãos e desalojou as classes até então dominantes: a aristocracia, os mestres-artesãos dos grêmios (Zunftbürger) e a monarquia absoluta que representava os dois grupos. A burguesia destruiu o poderio da aristocracia e da nobreza suprimindo o morgadio (die Majorate), isto é, a inalienabilidade da propriedade fundiária, e os demais privilégios da nobreza. Destruiu o poderio dos mestres dos grêmios suprimindo todas as corporações e todos os privilégios corporativos. No lugar disso tudo colocou a livre concorrência, quer dizer, aquele estado da sociedade em que cada um tem o direito de explorar o ramo industrial que lhe apetece, sem que nada, a não ser a falta do capital necessário para isso, possa impedi-lo. A introdução da livre concorrência representa, portanto, a proclamação- pública de que, a partir daquele momento, os membros da sociedade são desiguais entre si unicamente na medida em que são desiguais seus capitais; a proclamação de que o capital é a potência decisiva e de que portanto os capitalistas, os burgueses, tornaram-se a primeira classe da sociedade. Mas a livre concorrência é necessária no início da grande indústria, pois é o único estado social em que ela pode progredir. A burguesia, após aniquilar deste modo o poderio social da nobreza e dos mestres dos grêmios, aniquila também o seu poderio político. E do mesmo modo que se instaurou como primeira classe da sociedade, a burguesia proclama-se também a primeira classe no terreno político. E faz isso mediante a introdução do sistema representativo baseado na igualdade civil diante da lei e no reconhecimento legal da livre concorrência, sistema esse que nos países europeus foi introduzido sob a forma da monarquia constitucional. Nessas monarquias constitucionais somente são eleitores aqueles que possuem um certo capital, quer dizer, somente os burgueses; esses eleitores-burgueses elegem os deputados e esses deputados-burgueses, através do direito de recusar o pagamento dos impostos, elegem por sua vez um governo burguês.
Em terceiro lugar, por toda parte a revolução industrial desenvolveu o proletariado na mesma medida em que desenvolve a burguesia. O número de proletários aumentou nas mesmas proporções que o enriquecimento dos burgueses. Como os proletários só podem ser empregados pelo capital e como o capital só aumenta na medida em que emprega trabalho, o crescimento do proletariado dá-se em exata correspondência com o crescimento do capital. A revolução industrial concentra ao mesmo tempo burgueses e proletários em grandes cidades, nas quais indústria pode ser exercida em condições mais vantajosas, com essa concentração de grandes massas num único lugar dá aos proletários a consciência de sua força. Além disso, quanto mais a revolução industrial se desenvolve, quanto mais se inventam novas máquinas que suplantam o trabalho manual, tanto mais a grande indústria reduz os salários a seu mínimo, como já dissemos, tornando assim cada vez mais insuportável a situação do proletariado. Desse modo, de um lado pelo crescente descontentamento, de outro pelo crescente poderio do proletariado, a burguesia prepara uma revolução da sociedade pelo proletariado.

12. Pergunta: Quais foram as demais conseqüências da revolução industrial?
Resposta: A grande indústria criou, com a máquina a vapor e as demais máquinas, os meios de aumentar a produção industrial ao infinito, em pouco tempo e com poucos gastos. Graças a essa facilidade de produção, a livre concorrência - conseqüência necessária da grande indústria - adquiriu rapidamente um caráter extremamente violento; uma multidão de capitalistas atirou-se sobre a indústria e em pouco tempo produziu-se mais do que podia ser consumido. Em conseqüência, as mercadorias fabricadas não conseguiam ser vendidas, produzindo-se assim o que se chama de crise comercial. As fábricas foram obrigadas a parar, os fabricantes faliram e os operários ficaram sem pão. Apareceu por toda parte uma miséria espantosa. Passado algum tempo, os produtos excedentes puderam ser vendidos, as fábricas recomeçaram a trabalhar, os salários subiram e pouco a pouco os negócios voltaram a prosperar como nunca. Mas ao fim de pouco tempo tornou-se a produzir um excesso de mercadorias e sobreveio nova crise, que se desenrolou exatamente como a anterior. E assim, desde o inicio do século, a indústria vem oscilando constantemente entre períodos de prosperidade e períodos de crise, e quase regularmente a cada cinco ou sete anos produziu-se uma dessas crises que foram sempre acompanhadas por uma enorme miséria dos operários, uma excitação revolucionária geral e um grande perigo para toda a ordem existente.

13. Pergunta: Quais são as conseqüências dessas crises comerciais que se repetem regularmente?
Resposta: Em primeiro lugar, a grande indústria, embora tenha sido ela mesma, no primeiro período de seu desenvolvimento, a gerar a livre concorrência, agora já não pode mais conter-se nos limites da livre concorrência; a concorrência e em termos gerais o exercício da produção industrial por parte de indivíduos singulares converteram-se num entrave que a grande indústria deve romper e romperá; a grande indústria, enquanto continuar funcionando sobre sua base atual, só pode manter-se ao preço de uma confusão geral que se repete de sete em sete anos, que toda vez coloca em perigo a civilização inteira, precipita os proletários na miséria e arruina um grande número de burgueses; conseqüentemente, ou se deve renunciar por completo à grande indústria, o que é absolutamente impossível, ou a grande indústria torna absolutamente necessária uma organização totalmente nova da sociedade, na qual a produção industrial não seja mais dirigida por fabricantes singulares concorrentes entre si mas por toda a sociedade, segundo um plano determinado e segundo as necessidades de todos.
Em segundo lugar, a grande indústria e a extensão da produção ao infinito por ela permitida tornam possível um estado da sociedade no qual a produção satisfaça a todas as necessidades, de modo que cada membro da sociedade seja posto em condições de desenvolver e exercitar com absoluta liberdade todas as suas energias e aptidões. Assim, é precisamente essa qualidade da grande indústria - que na sociedade atual gera todas as misérias e todas as crises comerciais - que, numa outra organização social, destruirá essa mesma miséria e essas funestas flutuações.
Fica pois clarissimamente demonstrado:
a) que a partir de agora todos esses males devem ser atribuídos exclusivamente à atual ordem social, que já não se adapta mais à situação;
b) que já existem os meios de eliminar completamente esses males, mediante a instauração de uma nova ordem social.

14. Pergunta: Como deverá ser essa nova ordem social?
Resposta: Antes de mais nada, ela tirará o funcionamento (Betrieb) da indústria e de todos os ramos da produção das mãos de indivíduos singulares concorrentes entre si e o entregará a toda a sociedade, quer dizer, à comunidade, para funcionar segundo um plano comum e com a participação de todos os membros da sociedade. Desse modo, abolirá a concorrência e implantará em seu lugar a associação.
Além disso, como a exploração da indústria pelos singulares tinha por conseqüência necessária a propriedade privada - e como a concorrência nada mais é do que a forma que assume a exploração industrial realizada por proprietários privados singulares -, a propriedade privada é inseparável da exploração individual da indústria e da concorrência. Portanto, também deverá ser abolida a propriedade privada, que será substituída pela utilização em comum de todos os instrumentos de produção e pela distribuição dos produtos com base num acordo comum, ou seja, pela chamada comunidade dos bens (Gütergemeinschaft).
A abolição da propriedade privada é, de fato, a síntese mais concisa e mais característica da transformação da ordem social em seu conjunto, transformação essa que deriva do desenvolvimento da indústria; é por isso que os comunistas fazem dela sua principal reivindicação.

15. Pergunta: Quer dizer, então, que a abolição da propriedade privada não era possível até agora?
Resposta: Não, não era possível. Toda transformação da ordem social, toda revolução das relações de propriedade, sempre foi a conseqüência necessária do nascimento de novas forças produtivas, que já não correspondiam, mais às velhas relações de propriedade. A própria propriedade privada surgiu dessa maneira. A propriedade privada não existiu sempre; quando, nos fins da Idade Média, foi criado com a manufatura um novo tipo de produção que não se deixava subordinar à propriedade feudal e corporativa então vigente, essa manufatura, que já não se ajustava mais às velhas relações de propriedade, gerou uma nova forma de propriedade, a propriedade privada. Para a manufatura e para a primeira etapa de desenvolvimento da grande indústria, não era admissível qualquer outra forma de propriedade senão a propriedade privada e nenhuma outra ordem social senão a ordem social baseada na propriedade privada. Enquanto a produção não for suficiente tanto para cobrir as necessidades de todos como também para fornecer um certo excedente de produtos destinados ao incremento do capital social e ao ulterior desenvolvimento das forças produtivas, devem existir necessariamente uma classe dominante que disponha das forças produtivas da sociedade e uma classe pobre, oprimida. Como essas classes se constituem é algo que depende, em cada caso, do grau de desenvolvimento da produção. A Idade Média, que dependia da agricultura, nos dá o senhor feudal (Baron) e o servo; as cidades do fim da Idade Média nos mostram o mestre-artesão (Zunftmeister), o oficial e o diarista (Taglöhner); o século XVII, os manufatureiros e os operários de manufatura; o século XIX, o grande fabricante e o proletário. É evidente que, até o presente, as forças produtivas ainda não estavam desenvolvidas para produzir o suficiente para todos e a propriedade ainda não era um entrave, um obstáculo a essas forças produtivas. Mas hoje, quando, graças ao desenvolvimento da grande indústria, em primeiro lugar, produziram-se capitais e forças produtivas em proporções jamais conhecidas antes e existem, além disso, os meios para aumentar ao infinito e rapidamente essas forças produtivas; quando, em segundo lugar, tais forças produtivas estão concentradas nas mãos de um reduzido número de burgueses, enquanto a grande massa do povo se proletariza cada vez mais e sua situação torna-se cada vez mais miserável e insustentável, na mesma proporção em que aumentam as riquezas dos burgueses; quando, em terceiro lugar, essas forças produtivas, poderosas e fáceis de serem incrementadas, ultrapassam a tal ponto os marcos da propriedade privada e do burguês que provocam a todo instante as mais violentas perturbações da ordem social - hoje então, a abolição da propriedade privada tornou-se não só possível, como também absolutamente necessária.

16. Pergunta: Será possível a abolição da propriedade privada por via pacífica?
Resposta: Seria desejável que isso pudesse ocorrer e os comunistas seriam, com toda certeza, os últimos a isso se oporem. Os comunistas sabem muito bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, mas até mesmo prejudiciais. Sabem muito bem que as revoluções não se fazem deliberadamente ou por vontade, mas são sempre e em todos os lugares a conseqüência necessária de circunstância absolutamente independentes da vontade e da direção de partidos singulares e mesmo de classes inteiras. Mas vêem também que o desenvolvimento do proletariado é reprimido com violência em quase todos os países civilizados e que, com isso, os adversários dos comunistas nada mais fazem do que trabalhar com todas as forças para uma revolução. E se, nessas condições, o proletariado oprimido for finalmente impelido para uma revolução, nós, comunistas, defenderemos a causa do proletariado com a ação, do mesmo modo como agora a defendemos com a palavra.

17. Pergunta: A abolição da propriedade privada poderá ser feita de um só golpe?
Resposta: Não, do mesmo modo que as forças produtivas existentes não podem ser multiplicadas de um só golpe na medida necessária para a instituição da comunidade dos bens. A revolução do proletariado, que com toda probabilidade está para se produzir, só poderá portanto transformar gradualmente a sociedade atual e só poderá abolir a propriedade privada quando tiver criado a massa de meios de produção necessária para isso.

18. Pergunta: Que curso seguirá essa revolução?
Resposta: Antes de mais nada, estabelecerá uma Constituição democrática (eine demokratische Staatsverfassung) e portanto, direta ou indiretamente, a dominação política do proletariado. Diretamente na Inglaterra, onde os proletários já são a maioria do povo. Indiretamente na França e na Alemanha, onde a maioria do povo não é composta sã de proletários, mas também de pequenos camponeses e pequenos burgueses, que apenas agora se encontram na fase de transição ao proletariado e que, no que se refere aos seus interesses políticos, dependem cada vez mais do proletariado, razão pela qual acabarão por aderir às reivindicações do proletariado. Isso talvez venha a custar uma segunda luta que, entretanto, apenas poderá terminar com a vitória do proletariado.
A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada como meio para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado. As principais dessas medidas, que já resultam como conseqüências necessárias da atual situação, são:
1. Limitação da propriedade privada mediante impostos progressivos, fortes impostos sobre as heranças, supressão dos direitos hereditários em linha colateral (irmãos, sobrinhos, etc.), empréstimos obrigatórios, etc.
2. Expropriação gradual dos proprietários fundiários, fabricantes, proprietários de ferrovias e armadores navais, em parte mediante a concorrência das indústrias do Estado, em parte diretamente, mediante indenização em hipotecas (Assignatem).
3. Confisco dos bens de todos os emigrados e de todos aqueles que se rebelarem contra a maioria do povo.
4. Organização do trabalho, ou seja, emprego dos proletários nas terras, fábricas e oficinas nacionais, o que eliminará a concorrência dos operários entre si e obrigará os fabricantes, enquanto existirem, a pagar salários tão elevados quanto os do Estado.
5. Trabalho obrigatório para todos os membros da sociedade, até a completa abolição da propriedade privada. Formação de exércitos industriais, especialmente para a agricultura.
6. Centralização do sistema de crédito e das finanças nas mãos do Estado através de um banco nacional formado com capital do Estado e interdição de todos os bancos privados e dos banqueiros.
7. Multiplicação das fábricas e oficinas nacionais, das ferrovias e dos navios; arroteamento de todas as terras e melhoramento das já arroteadas, na mesma medida em que aumentem os capitais e os operários de que disponha a nação.
8. Educação de todas as crianças a partir do instante em que possam prescindir dos cuidados maternos, em estabelecimentos nacionais e a cargo do Estado. Educação conjugada com o trabalho fabril.
9. Construção, nos terrenos nacionais, de grandes prédios (Paläste) que sirvam de habitação coletiva às comunidades de cidadãos que trabalhem tanto na indústria como na agricultura, reunindo assim as vantagens da vida urbana e da vida no campo, sem compartilhar a unilateralidade e os inconvenientes de ambos os modos de vida.
10. Demolição de todas as casas e de todos os bairros insalubres e mal construídos.
11. Iguais direitos hereditários tanto para os filhos legítimos quanto para os ilegítimos.
12. Concentração de todos os meios de transporte nas mãos da nação.
Todas essas medidas não poderão, evidentemente, ser implantadas de uma só vez. Mas de uma decorrerá necessariamente a outra. Realizado o primeiro ataque (Angriff) radical contra a propriedade privada, o proletariado ver-se-á obrigado a avançar cada vez mais, a concentrar cada vez mais nas mãos do Estado todo o capital, toda a agricultura, toda a indústria, todos os transportes e todas as trocas. É para isso que tendem todas essas medidas; elas serão realizadas e engendrarão suas conseqüências centralizadoras na mesma medida em que o trabalho do proletariado multiplicar as forças produtivas do país. Finalmente, quando todo o capital, toda a produção e todas as trocas concentrarem-se nas mãos da nação, a propriedade privada desaparecerá por si só, o dinheiro será supérfluo, a produção aumentará a tal ponto e os homens mudarão em proporções tais que poderão desaparecer também as últimas formas de relação (Verkehrsformen) da velha sociedade.

19. Pergunta: Essa revolução poderá ser realizada em um só país?
Resposta: Não. A grande indústria, ao criar o mercado mundial, uniu todos os povos da terra, e principalmente os povos civilizados, a tal ponto que cada povo depende daquilo que ocorre com os demais. Além disso, a grande indústria nivelou em todos os países civilizados o desenvolvimento social, a tal ponto que em todos eles a burguesia e o proletariado tornaram-se as duas classes decisivas da sociedade e a luta entre essas duas classes tornou-se a principal luta de nossos dias. Por isso, a revolução comunista não será uma revolução apenas nacional, mas ocorrerá simultaneamente em todos os países civilizados, quer dizer, pelo menos na Inglaterra, na América, na França e na Alemanha. Irá se desenvolver mais rapidamente ou mais lentamente em cada um desses países, de acordo com o maior ou menor desenvolvimento da indústria, a maior ou menor acumulação de riquezas e a maior ou menor massa de forças produtivas que possua cada um deles. Assim, na Alemanha ela será mais lenta e mais difícil, enquanto que na Inglaterra será mais rápida e mais fácil. Terá grande repercussão sobre os outros países do mundo, transformará completamente e acelerará extraordinariamente o modo de desenvolvimento por eles seguido até aqui. Será uma revolução universal e terá por isso um terreno universal.

20. Pergunta: Quais serão as conseqüências da definitiva eliminação (Beseitigung) da propriedade privada?
Resposta: Ao despojar os capitalistas privados da utilização de todas as forças produtivas e de todos os meios de comunicação, assim como da troca e da distribuição dos produtos, ao administrar tudo isso de acordo com um plano baseado nos recursos disponíveis e nas necessidades de toda a sociedade, a própria sociedade eliminará, antes de tudo, todas as conseqüências deploráveis hoje inerentes ao funcionamento da grande indústria. As crises desaparecerão; a produção ampliada, que na atual organização da sociedade representa uma superprodução e uma poderosa causa de miséria, será então muito insuficiente e deverá ser ainda muito mais aumentada. Ao invés de engendrar a miséria, a superprodução garantirá, bem mais que as necessidades imediatas da sociedade, a satisfação das necessidades de todos e engendrará novas necessidades, bem como os meios para satisfazê-las. Desse modo, será a condição e a causa de novos progressos, e os alcançará sem levar a ordem social, como antes, a transtornos periódicos.
Livre das pressões da propriedade privada, a grande indústria desenvolver-se-á em proporções diante das quais seu desenvolvimento atual parecerá tão mesquinho quanto a manufatura comparada com a grande indústria moderna. Esse desenvolvimento da indústria colocará à disposição da sociedade uma massa de produtos suficiente para satisfazer às necessidades de todos. Assim também a agricultura que, pressionada pela propriedade privada e pelo fracionamento da terra, não pode apropriar-se das melhorias e dos progressos científicos já conseguidos, alcançará um novo auge e entregará à sociedade uma quantidade suficiente de produtos. Desse modo, a sociedade criará produtos suficientes para que se possa organizar a distribuição de maneira a satisfazer as necessidades de todos os seus membros. Com isso, ficará supérflua a divisão da sociedade em diferentes classes contrapostas entre si. Tal divisão, além de supérflua, será mesmo incompatível com a nova ordem social. A existência das classes tem origem na divisão do trabalho, e a divisão do trabalho, tal como existiu até agora, desaparecerá completamente. De fato para elevar a produção industrial e agrícola ao nível acima assinalado, não bastam apenas os meios mecânicos e químicos; devem ser também desenvolvidas, na mesma proporção, as capacidades dos homens que fazem funcionar esses meios. Assim como os camponeses e os operários manufatureiros do século passado, ao serem arrastados pela grande indústria, modificaram todo o seu modo de vida e converteram-se eles mesmos em homens completamente distintos, a exploração em comum da produção por toda a sociedade e o novo desenvolvimento da produção disso decorrente necessitarão de homens totalmente novos e os criarão. A exploração em comum da produção não pode ser realizada por homens como os de hoje, cada um dos quais está subordinado a um único ramo da produção, encadeado a ele, explorado por ele, cada um dos quais desenvolveu apenas uma de suas capacidades à custa de todas as demais e conhece apenas um ramo ou o ramo de um ramo da produção total. A própria indústria atual já está cada vez menos empregando tais homens. A indústria explorada em comum e segundo um plano, por toda a sociedade, exige homens cujas, capacidades estejam desenvolvidas em todos os aspectos, homens que possam abraçar todo o sistema da produção. A divisão do trabalho, que converte um em camponês, outro em sapateiro, um terceiro em operário fabril e um quarto em especulador da bolsa, e que hoje já está minada pelas máquinas, desaparecerá portanto completamente. A educação dará aos jovens a possibilidade de percorrer rapidamente todo o sistema de produção, colocando-os em condições de se deslocarem por turnos de um para outro ramo da produção, conforme as necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. A educação, portanto, libertará os jovens desse caráter unilateral que a atual divisão do trabalho imprime a cada indivíduo. Desse modo, a sociedade organizada sobre bases comunistas oferecerá a seus membros a oportunidade de empregar em todos os aspectos suas capacidades universalmente desenvolvidas. Mas com isso desaparecerão também, necessariamente, as diferentes classes. Assim, de uma parte, a sociedade organizada comunisticamente é incompatível com a existência das classes e, de outra parte, a instauração dessa sociedade oferece, por si só, os meios para abolir tais diferenças de classe.
Resulta disso que também desaparecerá o antagonismo entre cidade e campo. A exploração da agricultura e da indústria pelos mesmos homens, e não por duas classes diferentes, em si mesma já é, por razões puramente materiais, uma condição necessária da associação comunista. A dispersão pelo campo da população dedicada à agricultura e a concentração da população industrial nas grandes cidades correspondem a um estágio ainda não desenvolvido da agricultura e da indústria e são um obstáculo para todo desenvolvimento ulterior, obstáculo que hoje já se faz sentir com muita força.
A associação geral de todos os membros da sociedade para a exploração planificada e comum das forças produtivas, a extensão da produção em proporções que satisfaçam às necessidades de todos, o término da situação em que as necessidades de uns são satisfeitas às custas de outros, a destruição completa das classes e de seus antagonismos, o desenvolvimento universal das capacidades de todos os membros da sociedade mediante a eliminação da divisão do trabalho até agora existente, mediante a educação industrial, mediante a mudança de atividades, mediante a participação de todos nos bens criados por todos, mediante a fusão do campo e da cidade: serão esses os principais resultados da abolição (Abschaffung) da propriedade privada.

21. Pergunta: Que influência a ordenação comunista da sociedade exercerá sobre a família?
Resposta: Ela transformará a relação entre os dois sexos numa relação puramente privada, concernente apenas às pessoas nela envolvidas e na qual a sociedade não terá por que se intrometer. Poderá fazer isso porque elimina a propriedade privada e educa em comum as crianças, destruindo assim as duas bases do matrimônio atual, a saber: a dependência da mulher em relação ao homem e dos filhos em relação aos pais por meio da propriedade privada.
Nisso reside igualmente a resposta à gritaria altamente moralista dos filisteus contra a comunidade comunista das mulheres. A comunidade das mulheres é uma situação totalmente ligada à sociedade burguesa e que hoje existe plenamente sob a forma da prostituição. Mas a prostituição repousa na propriedade privada e desaparecerá com ela. Portanto, ao invés de implantar a comunidade das mulheres, a organização comunista a suprimirá.

22. Pergunta: Qual a atitude da organização comunista diante das nacionalidades existentes?
Resposta: Permanece.
Ao que tudo indica, deveria permanecer a resposta formulada no "Projeto de Profissão de fé comunista": "As nacionalidades dos povos que irão se unir segundo o princípio da comunidade serão forçadas por essa união a se fundirem e, em conseqüência, a se suprimirem (Aufzuheben), assim como as diferenças de ordens (Stände) e de classes desaparecerão com a supressão (Aufhebung) de seu fundamento, a propriedade privada". Documents Constitutifs de la Ligue des Communistes, cit., p. 138-140.

23. Pergunta: Que atitude adotará diante das religiões existentes?
Resposta: Permanece.
No "Projeto de Profissão de fé comunista": "Todas as religiões até agora foram a expressão de estágios do desenvolvimento histórico de povos singulares ou de grupos de povos. O comunismo, porém é o estágio de desenvolvimento que torna supérfluas todas as religiões existentes e “as suprime”. Documents Constitutifs de la Ligue des Communistes, cit., p. 140-141.

24. Pergunta: Em que os comunistas se distinguem dos socialistas?
Resposta: Os chamados socialistas dividem-se em três classes. A primeira delas está formada por partidários da sociedade feudal e patriarcal que foi destruída e continua a ser destruída todos os dias pela grande indústria, pelo comércio mundial e pelo produto de ambos, a sociedade burguesa. Essa classe extrai dos males da sociedade atual a conclusão de que se deve restaurar novamente a sociedade feudal e patriarcal, que estava livre desses males. Todas as suas propostas encaminham-se, direta ou indiretamente, para esse objetivo. Tal classe de socialistas reacionários, apesar de sua pretensa simpatia e das ardorosas lágrimas que derramam pela miséria do proletariado, será sempre combatida energicamente pelos comunistas, pelas seguintes razões:
a) porque aspira a algo absolutamente impossível;
b) porque procura restaurar a dominação da aristocracia, dos mestres-artesãos (Zunftmeister) e dos manufatureiros, com todo seu cortejo de reis absolutos ou feudais, funcionários, soldados e sacerdotes - uma sociedade que, é certo, estava livre dos males da sociedade atual mas que, em troca, continha pelo menos outros tantos males e nem sequer oferecia a perspectiva da emancipação dos operários oprimidos mediante uma organização comunista;
c) porque revela suas reais intenções toda vez que o proletariado se torna revolucionário e comunista, quando então se alia imediatamente à burguesia contra os proletários.
A segunda classe é composta de partidários da sociedade atual, para os quais os males que ela necessariamente engendra despertam temores quanto à existência dessa própria sociedade. Tais socialistas procuram, portanto, conservar a sociedade atual, mas eliminando os males a ela inerentes. Para alcançar isso, uns propõem simples medidas de beneficência; outros, grandiosos sistemas de reformas que, a pretexto de reorganizar a sociedade, visam de fato conservar as bases da sociedade atual e, portanto, a própria sociedade atual. Esses socialistas burgueses também deverão ser continuamente combatidos pelos comunistas, pois trabalham para os inimigos dos comunistas e defendem exatamente a sociedade que os comunistas querem destruir.
Finalmente, a terceira classe é composta dos socialistas democráticos, que procuram, pelo mesmo caminho dos comunistas, realizar uma parte das medidas enumeradas na resposta à pergunta 18, mas não como meios de transição ao comunismo e sim como medidas suficientes para abolir a miséria e fazer desaparecer os males da sociedade atual. Tais socialistas democráticos são, ou proletários ainda não suficientemente esclarecidos sobre as condições da libertação de sua classe, ou representantes da pequena burguesia, quer dizer, da classe cujos interesses, sob muitos aspectos, coincidem com os interesses dos proletários, até o momento em que se conquista a democracia e se aplicam as medidas socialistas dela derivadas. Os comunistas deverão portanto chegar a um entendimento com esses socialistas democráticos nas diferentes fases da ação e deverão em geral seguir para o momento uma política comum com eles, sempre que esses socialistas não atuarem a serviço da burguesia dominante e não atacarem os comunistas. É evidente que esse tipo de ação comum não exclui a discussão das diferenças existentes entre eles e os comunistas.

25. Pergunta: Como se comportam os comunistas diante dos demais partidos políticos de nossa época?
Resposta: Essa relação varia segundo os vários países. Na Inglaterra, na França e na Bélgica, onde domina a burguesia, os comunistas ainda têm, no momento, interesses comuns com os vários partidos democráticos, interesses esses que são tanto maiores quanto mais os democratas, com as medidas socialistas por eles hoje proclamadas em todas as partes, aproximam-se da meta dos comunistas, quer dizer, quanto mais clara e decididamente defendem os interesses do proletariado e quanto mais se apóiam no proletariado.
Na Inglaterra, por exemplo, o movimento cartista, integrado por operários, está infinitamente mais próximo dos comunistas do que os pequenos burgueses democráticos ou os chamados radicais.
Na América, onde está introduzida uma Constituição democrática, os comunistas deverão apoiar o partido que deseja dirigir essa Constituição contra a burguesia e utilizá-la em proveito do proletariado, quer dizer, os reformadores agrários nacionais.
Na Suíça, os radicais, apesar de constituírem um partido muito heterogêneo, são os únicos com quem os comunistas podem se entender; e entre esses radicais, por sua vez, os mais progressistas são os dos cantões de Vaud e de Genebra.
Na Alemanha, por fim, ainda não ocorreu a luta decisiva entre a burguesia e a monarquia absoluta. E como os comunistas não podem contar com uma luta decisiva contra a burguesia antes que a burguesia domine, estão interessados em ajudar os burgueses a conquistarem o poder o mais cedo possível, para então derrubá-los o mais cedo possível. Os comunistas devem portanto tomar sempre partido dos burgueses liberais contra os governos, precavendo-se apenas de compartilhar as ilusões dos burgueses ou de confiar em suas sedutoras garantias de que a vitória da burguesia trará saudáveis conseqüências para o proletariado. As únicas vantagens que a vitória da burguesia oferecerá aos comunistas serão: a) diversas concessões que facilitarão aos comunistas a defesa, a discussão e a difusão de seus princípios e, portanto, a unificação do proletariado numa classe organizada, estreitamente unida e pronta para a luta; b) a certeza de que no dia em que caírem os governos absolutos começará a luta entre burgueses e proletários. A partir desse dia, a política partidária dos comunistas será a mesma que nos países onde já domina a burguesia.
http://www.marxists.org/portugues/marx/1847/11/principios.htm