21 de dezembro de 2011

O Projeto de Jesus: o Reino de Deus.

O texto a seguir é a transcrição de um programa de rádio que fiz em 26 de março na Paróquia de Pratos. Pratos fica na barranca do Rio Uruguai e é ameaçada pela barragem binacional de Panambi.


O Projeto do Reino de Deus.
Onde encontramos a mensagem central de Jesus Cristo? Encontramos a sua mensagem central em Lc 4.42-43 onde diz: “Sendo dia, saiu e foi para um lugar deserto; as multidões o procuravam, e foram até junto dele, e instavam para que não os deixasse. Ele, porém, lhes disse: É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado”.

A partir deste texto quero falar sobre o Projeto de Jesus: o Reino de Deus. É o próprio Evangelho de Jesus Cristo que diz qual a sua missão. E qual a sua missão? A sua missão é anunciar o Evangelho do Reino de Deus. Também no livro de Lucas 16.16 diz: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele”.

Jesus diz que até João, o Batista, valiam a Lei e os Profetas. Quando a Bíblia fala de Lei ela se refere ao Pentateuco (os primeiros cinco livros da Bíblia) e os livros proféticos são os chamados Profetas Anteriores (Josué até os dois livros dos Reis) e os profetas Posteriores, que são os livros proféticos em si começando por Isaías. Jesus diz: até João, valiam a Lei e os Profetas, mas, agora, vale o Projeto do Reino de Deus. Se nós lermos a Bíblia nós vamos ver que Jesus tem insistentemente falado do Reino de Deus. Não apenas falado, mas toda a sua ação se pautava pelo anúncio do Evangelho Reino de Deus. As suas curas mostravam que no Reino de Deus não tem lugar para a doença. Deus não quer a doença e não quer o sofrimento. Jesus tem discutido com os fariseus e com os escribas sobre o Projeto do Reino de Deus que propõe uma nova sociedade. Quando Jesus fala do seu Evangelho ele está dizendo e apontando para uma nova forma de organizar a vida das pessoas e de toda a sociedade, de todo mundo. Jesus diz: eu vim para anunciar o Evangelho do Reino de Deus. Então ele está dizendo: eu não vim para anunciar o projeto deste mundo que no tempo de Jesus era o Império Romano, que através da religião de falsos deuses procurava legitimar a opressão de uma sociedade escravista que precisava de muitos escravos para produzir a rioqueza de seus senhores. E para ter muitos escravos precisava-se fazer muitas guerras para massacrar outros povos, saquear suas riquezas e levar a população vencida para a escravidão. No Império romano, na sociedade escravista, era como era no Brasil até 1888 onde havia duas classes básicas: os senhores, que eram os donos da terra e controlavam o Estado, e os escravos que trabalhavam, pois no Império Romano quem trabalhava eram os escravos. Eles é que moviam a economia, assim como no Brasil de 1500 até 1888 quem construiu a base da economia brasileira foi o trabalho escravo porque os senhores não trabalhavam.

Quando Jesus diz: eu vim para anunciar o Evangelho do Reino de Deus, ele está apontando para uma nova sociedade que não se baseia no projeto deste mundo. Quando Jesus contava as parábolas ele normalmente começava dizendo: “o Reino de Deus é semelhante a” e aí ele contava uma parábola. Parece que nós volta e meia, como comunidade, temos esquecido a mensagem central de Jesus Cristo que é o Evangelho do Reino de Deus.

Quando, segundo o Evangelho de Marcos no capítulo 1, João Batista foi preso, diz ali no vers. 15 que Jesus começou a pregar dizendo: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho”. Então, a fé no Evangelho requer arrependimento. Isto significa: mudança de vida individual e de toda a sociedade e mudança de pensamento. Significa que: quem crê em Jesus Cristo crê na promessa do Reino de Deus que está próximo. Jesus até chegou a dizer: ele já está no meio de vós (Lc 17.21). A questão do arrependimento é mudar o jeito de viver, não mais o jeito de viver do mundo que no tempo de Jesus era o sistema econômico escravista que usava as pessoas como objeto para enriquecer os senhores de escravos. Quando hoje se anuncia o Evangelho do Reino de Deus então também se está apontando para a construção de uma nova sociedade não capitalista. Hoje os cristãos estão tão iludidos que acham que não existe outra forma de organizar a vida e a economia do mundo a não ser do jeito capitalista. Só que nós cristãos não pensamos do jeito capitalista, então nós pensamos do jeito do Reino de Deus. A questão é que muitos cristãos estão tão iludidos pelo sistema capitalista, pelo jeito deste mundo, que eles acham impossível haver outro jeito de organizar a sociedade além do jeito capitalista. Só que a Bíblia deixa muito claro que Jesus Cristo veio para trazer o Reino de Deus e não para fortalecer o reino deste mundo, hoje o capitalismo. Pelo fato de Jesus estar falando do Reino de Deus ele está obviamente se antepondo e contrapondo ao reino do mundo. Hoje ‘o mundo’ é o capitalismo.

Portanto, o cristão quer organizar a sua vida conforme o ensinamento do Evangelho do Reino de Deus e não conforme o ensinamento do sistema capitalista. Jesus insistentemente, até antes de ser assunto ao céu falou sobre o Reino de Deus, mesmo depois da ressurreição. Diz no livro de Atos 1.3, antes de Jesus subir ao céu: “A estes também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus”. Assim, conforme o Evangelho de Marcos 1.15, a pregação de Jesus começou com o tema do Reino de Deus e terminou com o tema do Reino de Deus, antes de subir ao céu. Portanto, o anúncio do Evangelho do Reino de Deus perpassa toda a mensagem falada e praticada de Jesus Cristo. Esta é a sua mensagem central. Por ser a sua mensagem central é uma mensagem perigosa. Tão perigosa que o Templo de Jerusalém e o Império Romano resolveram matar Jesus porque ele estava pregando outro jeito de organizar a vida e o mundo, diferente daquele que o Império Romano propunha, que era continuar massacrando, trabalhando em cima da escravidão, usando as pessoas como objeto. Para Deus as pessoas não são objetos, mas são “Templo do Espírito Santo”. O apóstolo Paulo insiste nisso dizendo em 1 Co 6.19: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós”, portanto, o nosso corpo é sagrado. No sistema econômico escravista o escravo é um objeto, portanto não é sagrado para o mundo, mas para nós, o ser humano, o corpo da pessoa, é sagrado porque é templo do Espírito Santo e porque ressuscita. Quando nós hoje falamos do Reino de Deus estamos apontando para a construção de uma sociedade não capitalista, porque para o capitalismo as pessoas são considerados objeto, mercadoria, não são consideradas pessoas. Como se fala no sistema capitalista? Fala-se no mercado de trabalho. O que se compra num mercado? A gente compra mercadorias, coisas, objetos. O sistema capitalista também fala em ‘mercado de trabalho’, mas aí ele está se referindo à pessoas. Mas as pessoas no mercado de trabalho não são pessoas, são coisas, são objetos, são mercadorias, que se compra e se vende por um preço estipulado pelo patrão, pelo capitalista. E o preço básico é o Salário Mínimo, então a pessoa vale um Salário Mínimo. Esse é o preço de uma pessoa, da pessoa que vende a sua força de trabalho. Então, está se diminuindo a criação de Deus e se transformando o ser humano em objeto, em coisa. Este é o projeto do mundo. O projeto do mundo é transformar as pessoas em coisa que se compra e se vende; e coisa é coisa, não vale muita coisa. No entanto, para Deus nós não somos coisa nós somos pessoas. Por isso o Apóstolo Paulo em Rm 12.2 diz: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

O projeto do mundo.
Paulo deixa muito claro: ‘não vos conformeis com este século’. O que é ‘este século’? ‘Este século’ é o mundo. E o que é ‘o mundo’? O ‘mundo’ hoje é o capitalismo. Então, o apóstolo Paulo, que estava falando no tempo do Império Romano, estava dizendo para os cristãos não se conformar com este século, significa com o Império Romano, com o sistema econômico escravista. Para nós o apóstolo Paulo está dizendo: ‘não vos conformeis com este século’ e com isto ele está dizendo: não vos conformeis com o capitalismo. Por que? Porque o nosso projeto não é o capitalismo. O nosso projeto é o Reino de Deus. O capitalismo não salva, quem salva é Jesus Cristo. Por isso Paulo nos adverte porque nós sempre somos enrolados pelo sistema deste mundo, mas Paulo continua dizendo: mas transformai-vos pela renovação de vossa mente. Nós precisamos constantemente e permanentemente renovar a nossa mente. Quer dizer: nos deixar, permanentemente, alimentar pelo Evangelho do Reino de Deus para não sermos enrolados pelo projeto deste mundo, o capitalismo.

Na carta de Tiago Tg 1.27 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. O que Tiago diz? O que é a fé cristã? É visitar os órfãos e as viúvas nas suas dificuldades. Quer dizer, estar do lado dos mais pobres, dos mais sacrificados, dos mais massacrados pelo sistema. O quer dizer estar ao lado dos empobrecidos e guardar-se incontaminado do mundo? Significa: não se deixar contaminar pelo jeito do mundo pensar e se organizar. Não deixar-se moldar pelo mundo. Um molde é a cópia do original, não é algo novo e diferente. Não assumir o jeito de pensar do mundo. E o jeito de pensar do mundo hoje é o capitalismo. E o capitalismo nos últimos 20 anos, quando começou a era neoliberal, dizia: não existe outra forma de organizar o mundo além do capitalismo. Só que nós cristãos dizemos: Isto é mentira! Pois o Evangelho diz que a proposta de Deus para organizar este mundo é o Evangelho Reino de Deus. Portanto, nós cristãos, precisamos sempre de novo, como diz o apóstolo Paulo, deixar transformar a nossa mente pelo Evangelho, que deixa claro que o nosso projeto é organizar a nossa vida e a da sociedade toda conforme o Reino de Deus e não conforme o sistema capitalista.

Tiago 4.4 ainda diz: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus”. Isto é forte, porque muitos cristãos acabam sendo amigos do mundo porque assumiram o projeto do sistema capitalista como a única forma de organizar a sua vida e a economia do Planeta. Mas Tiago diz bem claro: quem faz isto é inimigo de Deus. Quem é amigo do mundo é inimigo de Deus. Não dá para ser amigo do mundo e amigo de Deus ao mesmo tempo. Ou você é amigo de Deus ou você é amigo do mundo. Não dá para, como diz o Evangelho, adorar a dois senhores, ter dois senhores, ao mesmo tempo. Ou você adora a Deus ou você adora as riquezas, o capitalismo. Em 1 Jo 2.15 diz: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”. Significa, traduzindo: não ameis o mundo significa não ameis o capitalismo e nem as coisas que há no capitalismo. Isto é duro para nós que estamos acostumados a achar que só existe uma forma de organizar a vida que é o capitalismo. Mas, a Bíblia diz que há outra forma de organizar a vida que é o Evangelho do Reino de Deus. Quando Jesus fala do Reino de Deus ele está apontando para a construção de uma nova sociedade não capitalista. Em 1 João 3.10 diz: “Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão”. O capitalismo não pratica a justiça, pois vive da injustiça que é a produção do lucro pelo não pagamento de parte do trabalho realizado pelo trabalhador no processo da geração da mercadoria.

Em 2 Pedro 2.20 há uma palavra muita clara e muito dura que diz: “Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro”. Pedro está dizendo: depois que você foi batizado e confessou a sua fé em Jesus Cristo e se deixou enrolar pelo mundo, você acabou de entrar numa situação pior que a de antes do batismo. Porque antes do batismo você era pagão e agora você é cristão pelo batismo, mas se deixou enrolar pelo capitalismo, pelo sistema deste mundo, pelas contaminações deste mundo, como diz Pedro. Então você está numa posição anterior a do batismo, anterior á fé cristã. Está pior do que antes, pois voltou para trás. Você renegou a Jesus Cristo, fez o papel de Judas. Por isso é importante deixar bem claro que o centro da pregação de Jesus Cristo é o Reino de Deus. E quando ele fala em Reino de Deus ele está apontando para frente, para a construção de uma nova sociedade, hoje, não capitalista. Porque a nossa fé é contra o projeto do mundo, conta o capitalismo.

Nossa fé é contra o projeto do mundo.
Na Primeira Carta de João 5.4 diz: “porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”. Quer dizer: a nossa fé vence o mundo. Significa que se organizo a minha vida e ajudo a organizar a vida de toda a sociedade conforme a fé em Jesus Cristo nós vamos transformar este mundo. Às vezes as pessoas dizem: não, não existe outro jeito de organizar o mundo. A gente tem que se ajeitar aqui assim como é. Só que a gente esquece a palavra de João 16.33: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo”. As pessoas dizem que nós temos que nos conformar com este mundo e com isto elas estão esquecendo que na verdade este mundo já foi vencido. Jesus Cristo venceu o mundo na Páscoa. Isto é importante a gente saber neste período em que nós estamos aqui discutindo em nosso município a questão das barragens que é um projeto do sistema capitalista para criar mais lucro em favor daqueles que já tem muito dinheiro à custa da apropriação da terra dos pequenos proprietários à beira do Rio Uruguai. Muitos destes pequenos proprietários atingidos dizem: “Ah! Pastor não adianta, eles vão fazer igual o que querem”. A gente esquece esta palavra de Jesus que diz: Eu venci o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.

Nós cremos em nosso Senhor Jesus Cristo e por isso nós temos a maior força que é possível ter para enfrentar o mundo, para enfrentar o capital. É claro que quando a gente se contrapõe ao mundo, assim como Jesus se contrapôs ao mundo e por isso ele foi crucificado, nós também vamos ser perseguidos. Por isso em 1 João 3.13 diz: “Irmãos, não vos maravilheis se o mundo vos odeia”. Então, se vocês começarem a lutar contra as barragens, que é o projeto do capital, que é o projeto do mundo, que é, portanto, o projeto do diabo, porque o capitalismo é o projeto do diabo, portanto vocês vão ser odiados. Muitos não vão mais querer falar com vocês. O Estado vai vos perseguir porque vocês não estão se submetendo, porque vocês não estão se conformando com este mundo. 2 Tm 3.12 lembra: “Ora todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos”. Além disso, a essência da fé cristã é não se conformar com este mundo; é não se conformar com o projeto do diabo, que hoje é o projeto capitalista. Na carta de Tiago 2.5 diz: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?” Então, quem Deus escolheu para fazer a grande transformação, para ser instrumento de Deus na construção de seu Reino? Os pobres. Por isso o próprio Deus se fez pobre em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo diz isto em sua carta: ele se tornou servo, ele se tornou pobre (2 Co 8.9), porque é a partir dos pobres que Deus começa a construir a transformação.

No livro do Êxodo já diz isso. Deus não escolheu o Faraó, mas Deus escolheu os camponeses sem terra escravos no Egito para construir o seu projeto. São os pobres que vão mudar o mundo e não os ricos. Porque os ricos só oprimem, perseguem e exploram. Portanto, as transformações só acontecem a partir dos pobres, dos fracos.

As transformações acontecem a partir dos pobres e fracos.
O apóstolo Paulo em 1 Coríntios 1.27-28 diz: “pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são”. Quer dizer: Deus escolheu os humildes, os pobres, os fracos para reduzir a nada as coisas que são. O que é isto hoje? Hoje, as coisas que são, é o capitalismo. Para reduzir a nada o capital, porque o capital não é nada, porque o poder de Deus é maior que o poder do capital. Porque o poder de Deus é maior do que a morte porque ele venceu a morte na Páscoa. O capital traz a morte com a guerra, com a exploração, com as barragens que estão à serviço do grande capital. O apóstolo Paulo ainda lembra em 2 Coríntios 12.9-10: “Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte”. Parece contraditório, mas o poder de Deus está no poder da fraqueza e o símbolo maior disto está na cruz de Cristo. A cruz, o Cristo crucificado, representa o poder da fraqueza de Deus. Paulo lembra em 1 Coríntios 2.12: “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”. É importante não esquecer isto. Nós não temos recebido o espírito do mundo no batismo, mas o Espírito Santo. Portanto, nós vamos seguir o projeto do Reino de Deus e não o projeto do capital. Nós fomos ungidos pelo poder do Espírito Santo e fomos marcados por Deus pelo Projeto do Reino de Deus no dia do nosso batismo para sermos ‘sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus’, como diz em 1 Pe 2.9. E se nós fomos ungidos por Deus pelo poder do Espírito Santo, então o fomos para construir o Reino de Deus e não o reino do mundo, o reino do capital. Por isso o Evangelho de Jesus Cristo convoca a todos para se engajar na luta contra o sistema capitalista que está construindo as barragens, que faz a guerra e que explora a classe trabalhadora. Porque o nosso projeto é o projeto do Reino de Deus que aponta para a construção de uma nova sociedade não capitalista. Nós não nos conformamos com este século, pois o nosso projeto é o Projeto do Reino de Deus, que se constrói a partir da fraqueza; porque é a partir da fraqueza que Deus constrói o seu projeto e a cruz de Cristo é o símbolo maior deste projeto. Então, não nos deixemos amedrontar quando dizem que nós temos que nos sujeitar àquilo que o capitalismo quer e que só existe esta forma de organizar a vida. Nós dizemos, não, nós temos outro projeto que é o Projeto de Jesus Cristo que ele chama de Reino de Deus e este aponta para frente, pois não se conforma com este século. Ele aponta para uma nova sociedade não capitalista. Por que? Porque Jesus Cristo já venceu o mundo e por isso nós não vamos nos submeter à vontade do mundo. Nós apenas vamos nos submeter à vontade de Deus. Amém.

16 de dezembro de 2011

Deus se revela como camponês sem terra em Jesus de Nazaré.

Como Javé se revela, onde ele se revela, em que situação ele se revela e a quem ele se revela?
Olhando o texto do Êxodo 3.1 que diz: “Apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e, levando o rebanho para o lado ocidental do deserto” vemos que ele se revela a um camponês sem terra empobrecido. Deus se revela a Moisés no deserto, durante o processo de trabalho, à margem da sociedade. O texto do Êxodo começa com a palavra “apascentava”, quer dizer: Deus se revela àqueles que trabalham e não àqueles que exploram o trabalho de outrem e por isso são vagabundos. Deus se revela à classe camponesa (Moisés) livre da influência do Estado, pois ainda vive no Modo de Produção Tribal. Deus envia Moisés para a luta e o enfrentamento com o Estado para libertar a classe camponesa escravizada para reconstruir o Modo de Produção Tribal. Quem é Moisés? Moisés é filho de camponeses escravos no Egito, é um exilado político e fugitivo porque enfrentou o poder opressivo do Estado, matando um capataz a serviço do Estado opressivo, é um assassino, um peão, pastor, sem terra, marginalizado por causa de sua luta contra o Estado escravista, um estrangeiro no Sinai. Deus se revela a Moisés, que tem estas características, e não ao Faraó, que é o representante do Estado. Deus se revela a Moisés porque ele pertence à classe que produz e é explorada em sua produção pela classe do Estado. Apesar de que ali no Sinai o Estado egípcio não tinha muita influência, mesmo sendo território ocupado pelo Egito.

Javé faz uma opção de classe na luta de classes que ocorre no Egito. Javé opta pela classe camponesa e contra a classe do Estado; estas eram as classes básicas no Modo de Produção Tributário. Javé não é neutro na luta de classes. Mais que isso, ele interfere na luta de classes a favor da classe camponesa (Dt 6.20-23). Não apenas interfere, mas ordena, organiza (Êx 3.16: Vai, ajunta os anciãos de Israel) e comanda o processo de libertação da classe camponesa escrava hebréia. Javé interfere na política econômica e trabalhista do Estado egípcio a favor dos camponeses sem terra escrava e age contra os interesses do Estado. Javé é subversivo, pois é o Deus da classe camponesa oprimida. Javé não é Deus de todos, mas é o Deus da classe camponesa. O Faraó não conhecia Javé, Moisés teve que falar de Javé para o Faraó. Por que? Porque Javé é um Deus da classe oprimida, subalterna, da classe que é explorada no processo de produção, a classe camponesa. Por isso Javé se revela à Moises durante o processo produtivo, enquanto ele cuidava do rebanho de seu sogro. É durante o processo produtivo que a classe que trabalha é explorada e produz o mais valor: o lucro, pelo tempo de trabalho realizado a mais, que necessita para sua subsistência, e não pago. Javé tem uma postura subversiva em relação ao poder constituído. Javé descontrói o aparato do Estado libertando os escravos apontando para uma nova possibilidade de se organizar numa sociedade sem Estado e sem classes sociais nas montanhas da Palestina. Nas montanhas da Palestina Javé comanda a tomada do poder político (destruição das cidades-estado) para depois mudar o Modo de Produção Tributário para Tribal (Js 6-8).

Onde é que fica o Deus de todos? Este Deus não existe. O Deus de todos foi fabricado pela classe economicamente dominante que controla o aparato do Estado para poder, também pela religião, oprimir o povo. Javé é Deus do Faraó? Não, o Faraó nem o conhecia. Javé é o Deus da classe camponesa por isso no capítulo 3.15 do Êxodo ele se apresenta como o Deus dos antepassados de Moisés, que eram todos da classe camponesa: Abraão, Isaque e Jacó. Ele não se apresenta a Moisés como o Deus dos antepassados do Faraó. Javé se apresenta como “o Deus dos hebreus” em Êx 3.18; e hebreu não é um povo, uma etnia, mas uma classe social despossuída. Javé é o Deus de uma classe social: a classe camponesa, não é o Deus de todos. Hoje o povo diz: Deus é o mesmo. Não, o deus do Faraó não é o mesmo Deus de Moisés, Miriam e Arão. O deus do Bush e da Angela Merkel não é o mesmo Deus do João Pedro Stédile. Javé não é o Deus da classe que controla o aparato do Estado. Esta classe tem outros deuses e nem quer saber do projeto de Javé e muito menos de Javé. Pois o Projeto de Javé difere em tudo do projeto dos deuses do Estado. O Projeto de Javé começa com a classe camponesa livre e dona dos meios de produção: a terra. No Projeto de Javé não existe Estado, nem Templo, nem classes sociais, ali reina a igualdade e o poder está sob o controle da classe camponesa que decide seus destinos na Assembléia Popular em frente da Tenda da Congregação (Nm 27.1-11), que é local de culto e local de decisões políticas e econômicas. O Projeto de Javé não separa a fé da vida político-econômica. O Projeto de Javé prevê o Poder Popular e a extinção do Estado e do templo, que é um aparelho do Estado para legitimar o tributo, que é a forma do Modo de Produção Tributário explorar a classe camponesa.

Este Javé radicaliza a sua ação no NT tornando-se pessoa na classe camponesa, numa família camponesa oprimida pelo Estado Romano durante o processo de opressão: quando participava de um recenseamento que tinha como objetivo saber quanto imposto se poderia cobrar a partir de se saber quantas pessoas existem no Império. Aqui Javé não somente está com a classe camponesa, mas ele agora em Jesus de Nazaré faz parte da classe camponesa. Javé se incorpora fisicamente na classe camponesa tornando-se o camponês sem terra e sem teto Jesus de Nazaré numa região da periferia, desprezada e marginalizada pela elite do centro do poder religioso do Templo de Jerusalém. Javé radicaliza sua opção de classe, tornando-se da classe camponesa para construir o Projeto de Deus que Jesus chama de Reino de Deus. Uma proposta em oposição ao reino do mundo, o reino romano. Javé continua subversivo.

Javé finca um marco de resistência no Natal, se fazendo pessoa num camponês, contra a opressão e durante o processo opressivo de se fazer a contagem da população, que definiria a quantia de dinheiro a ser arrecadada em impostos para fortalecer o Estado à serviço da classe escravista romana para poder melhor oprimir a classe camponesa das regiões ocupadas militarmente por Roma.

O relato do Natal não é uma estorinha para distrair criançinhas desavisadas e ingênuas, mas é o relato do início da resistência contra o projeto do mundo para começar a construir o Projeto do Reino de Deus (Lc 4.43). A subversão de Javé começa no acontecimento do Natal. Por isso o relato do Natal segundo Lucas 2.1-5 começa assim:
“Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida”.

Este relato é uma análise da conjuntura do Império Romano que diz quem é quem no processo de opressão e como acontece a opressão exercida pelo Estado. A opressão acontece pela legislação tributária, que era a forma de espoliação dos povos ocupados por Roma. Nesta análise de conjuntura Lucas coloca frente a frente as duas classes em luta: o Estado e a classe camponesa. O Estado era controlado pela classe escravista latifundiária romana que usava do exército para conseguir escravos, saquear outras nações e dos que ficavam na terra cobrar impostos que mantinha o Estado, que por sua vez mantinha a opressão de classe. José e Maria são os representantes da classe camponesa palestina oprimida pelo pagamento dos impostos. O relato do Natal denuncia que Israel não é independente, mas é território ocupado militarmente pelo exército romano. O relato do Natal denuncia que o povo de Israel é um povo submetido pelos interesses do imperialismo romano e tem que se sujeitar às normas e leis imperialistas romanas. O relato do Natal denuncia a falta de liberdade e vida plena que há na Palestina. O texto começa como começam os livros proféticos, com uma análise de conjuntura da realidade de opressão.

Comparemos com o livro do profeta Amós 1.1: “Palavras que, em visão, vieram a Amós, que era entre os pastores de Tecoa, a respeito de Israel, nos dias de Uzias, rei de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel, dois anos antes do terremoto”. Citando os reis o povo se lembrava do tempo de cada um. É como hoje falar do tempo do Collor e do FHC e todos já se lembram da opressão exercida pelos seus governos.

Javé entra pelo camponês sem terra e sem teto Jesus de Nazaré na luta de classes para acabar com a luta de classes construindo uma nova sociedade sem classes sociais. Isto é subversão pura e simples, passível de cruz. Imagine uma sociedade sem classes sociais e sem opressão política, econômica, cultural, ideológica e religiosa! Isto não é possível, diz a classe dominante; isto é uma utopia!

Ainda hoje a Ditadura do Pensamento Único para legitimar a Ditadura do Capital continua dizendo que não existe outra forma de organizar a sociedade além do capitalismo. Aí vem o tal de Jesus de Nazaré, o Deus encarnado num camponês sem terra, e diz que é possível construir uma nova sociedade e que existe outra possibilidade de se organizar a vida e a sociedade que é o reino de Deus. Isto é subversão! A história do Natal é pura subversão! Por isso o capitalismo mudou os personagens do Natal. Mudou o Jesus camponês sem terra para o Papai Noel que veste as cores da Coca Cola, pois antigamente ele vestia-se de verde ou azul. E mudou a mensagem do Reino de Deus para o consumo de mercadorias a serem dadas como presente para viabilizar o capitalismo, que se mantém pela produção de mercadorias. E é no processo de produção da mercadoria que se dá o processo de exploração da classe trabalhadora gerando o mais valor, o lucro, pelo tempo de trabalho feito, mas não pago. Com a produção de mercadorias pela classe trabalhadora a partir de matérias primas da natureza o capitalismo se reproduz. O Natal veio para dar um fim nisso com a proposta de uma nova forma de se organizar a vida e a convivência entre as pessoas: o Reino de Deus.

No relato do Natal Javé se torna classe camponesa para entrar na luta de classes no processo de construção de uma nova sociedade não opressora, não classista e sem estado que Jesus chama de Reino de Deus. Para isso Jesus começa usando termos do próprio império: evangelho e reino, para poder se expressar melhor em suas intenções subversivas. De onde Jesus tirou a palavra: Evangelho? Jesus tirou a palavra Evangelho do mundo político romano. Ali era usado para anunciar a vitória em uma guerra contra outro povo. Para este povo evangelho significava derrota, massacre e escravidão. Jesus deu outro sentido à esta palavra, agora Evangelho está ligado ao Reino de Deus, que é a proposta de uma nova sociedade não classista. Jesus fala do Evangelho do Reino de Deus (Lc 8.1; 16.16) em oposição ao evangelho do reino romano. No mundo romano a “Boa Nova” era na verdade o anúncio da dominação. Jesus transformou esta palavra em anúncio de libertação, vida plena e eterna. Jesus fala em Evangelho do Reino de Deus, em contraposição ao evangelho do mundo romano que significava morte e escravidão para os povos vencidos.

“Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” diz em Mc 1.1. Marcos está dizendo que em oposição ao evangelho de Roma inicia aqui o Evangelho de Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, o Kyrios. Com isto diz que o imperador, que se dizia o kyrios, não é filho de deus e nem deus. Compare agora lendo o que diz este Evangelho de Jesus Cristo (o Kyrios) em oposição ao evangelho romano que anunciava a matança, o massacre e a dominação dos povos. O evangelho de Roma legitima a sociedade dividida em classes sociais antagônicas em permanente luta – senhores versus escravos. O Evangelho de Jesus Cristo quer acabar com esta sociedade de classes, de ontem e de hoje, e construir o Reino de Deus, onde não há classes sociais, nem legitimação da desigualdade e do Estado, pela religião, como ópio do povo.

O Estado Romano e o Templo de Jerusalém entenderam muito bem a mensagem subversiva embutida no Evangelho do Reino de Deus pregado pelo Deus tornado pessoa em Jesus de Nazaré: um camponês sem terra e sem teto palestino. O Reino de Deus é o Projeto para a classe camponesa oprimida: uma sociedade sem classes, sem estado, sem templo, igualitária e fraterna construída a partir do amor a Deus e ao próximo onde os meios de produção pertencem à coletividade (At 2 e 4); construída a partir daqueles que trabalham com suas próprias mãos, segundo Paulo em 1 Co 4.12 (os escravocratas não trabalhavam com suas mãos, e sim, usavam as mãos dos escravos para tal). O trabalho para os escravocratas era algo indigno. No Reino de Deus o trabalho é algo que dignifica a pessoa, pois em Gn 1 Javé trabalhou 6 dias e descansou no sétimo dia. O trabalho deve trazer o bem estar, a realização pessoal e o lazer e não ser instrumento de dominação, exploração e opressão. O relato do Natal está nos apontando para um horizonte onde não haverá mais exploração do trabalho e nem alienação do trabalhador de sua produção.

Por isso podemos dizer a partir da esperança subversiva do Natal:
Feliz Natal!
E um Próspero Ano Novo (não no sentido de acumular capital, mas no sentido de ter vida abundante, digna, livre e plena).