27 de junho de 2018

É preciso sonhar



É preciso sonhar
José Comblin – Teólogo - Conferência na UCA, El Salvador,14/11/2010.
 
            O conteúdo das perguntas que me chegam revela que há um certo desconforto quanto à situação da Igreja: insegurança. No pontificado de Pio XII, que havia condenado todos teólogos e movimentos sociais importantes, os seminaristas, depois jovens sacerdotes, também desconcertados, perguntavam: ainda há futuro?
            Naquela época, se publicou uma biografia de Pio XII, onde se dizia: "Hoje, a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água - levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair. A Igreja está cortada do mundo, não há nenhuma possibilidade de entrar".
            Depois veio João XXIII e todos os perseguidos, de repente, são as luzes no Concílio; todas as proibições são levantadas. Renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece...

1.    O Fim da Cristandade
            Estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Faz séculos que se anuncia a morte da cristandade, ela está agonizando, há 200 anos... e pode continuar sua agonia, durante décadas. Isto quer dizer que a Igreja deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula e explica a fonte da cultura, da economia e de tudo, no tempo da cristandade. Tudo foi destruído, progressivamente, desde a Revolução Francesa e, na América Latina, desde a independência.
            Agora, a cristandade está entrando, em sua fase final. Um sinal é a Encíclica Caritas et Veritate. Quantas pessoas leram a Encíclica? Impressionante silêncio.... Talvez, silêncio respeitoso... mais provavelmente, silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, uma vez que ela também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.
            A Doutrina Social Católica está em silêncio por não entrar, com força, nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo FMI, pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há nada que incomode esse pessoal. Então, para que serve a Encíclica? Disse coisas boas. Propôs passar de Igreja de "conservação" a Igreja de "missão". Só que pensa isso feito pelas instituições que não são de missão, mas de conservação - diocese, paróquia, seminários, Congregações Religiosas. Essas instituições, de repente e por milagre, vão se transformar em missionárias?
            A cristandade está se dissolvendo progressivamente. Mas, o problema é o depois. O que virá depois? Como virá? Daí a insegurança nossa por não saber o que vem depois. Isto aconteceu, na história, e vai acontecer muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo. O grave é que em Roma, os líderes não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, a Igreja é um mundo fechado que, de fato, vive em um castelo medieval, cercado de água. Vamos tentar interpretar que está acontecendo e ver qual é o "método teológico" que convém para isso.

2. O Evangelho vem de Jesus Cristo, a religião não
            É preciso partir da distinção básica feita, por vários teólogos, entre Evangelho e religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou uma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus - uma mudança radical de toda a humanidade, em todos os seus aspectos.
            Jesus propõe uma mudança e mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres certo que só eles são capazes de agir com sinceridade e autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.
            E a religião? Jesus não fundou uma religião. Seus discípulos criaram uma religião a partir d'Ele. Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Eles não podem viver sem religião. Se uma religião se desintegra... se busca outra. Há 38.000 religiões registradas nos EUA! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem, constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. 
            A religião é criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim, há a mitologia cristã, a mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável da humanidade. Necessita interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de entidades, seres sobrenaturais, fora deste mundo, que dirigem esta realidade.
            A religião é feita de ritos. Ritos para afastar as ameaças e acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. Todas têm pessoas separadas, preparadas para administrar os ritos, ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Isso aconteceu com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?
            Como começou a religião Cristã? Começou quando Jesus se transformou em objeto de culto. Isso aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, não haviam vivido com ele, nem estado próximos dele. Ou seja, a geração seguinte ou que viveu mais distante, Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso ele se desumanizou, gradualmente. O culto de Jesus vai, aos poucos, substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca pediu aos discípulos um ato de culto, que lhe oferecessem um rito... Ele queria o seguimento, seu seguimento.
            Essa dualidade começa a aparecer cedo. Trinta ou quarenta anos depois da morte de Jesus, apareceu com tanta força que levou Marcos a escrever um Evangelho para protestar contra a tendência de desumanização que faz de Jesus, um objeto de culto. Seu Evangelho veio para recordar a palavra de profeta: Não! Jesus era isso, fez isso, viveu aqui neste mundo, viveu nesta terra!
            Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez aos poucos, essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. Que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas que ele fez não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre.
            Essa foi a revelação, mas ela já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem natureza divina e natureza humana. Mas, o que é natureza? Um ser humano não é natureza. Um ser humano é uma vida, um projeto, um desafio, uma luta, uma convivência, em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.

       3. Religião: distinção entre sagrado e profano
            Progressivamente, a partir dos primeiros Concílios, apareceu esse distanciamento, na religião cristã que se forma. No Concílio de Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Na época, já se havia organizado as grandes liturgias, de Basílio e outros, e já se organizara um clero. O clero, como classe separada, é invenção de Constantino. Até Constantino, não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Jesus havia apartado a classe sacerdotal e não previu qualquer outra classe sacerdotal porque todos são iguais.
            Para ele não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano. Já na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano, em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. Os que estão no profano, para a religião, são receptores, não atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter papel ativo é preciso ser consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.
            A partir daí, vão aparecer duas linhas, na história cristã. A que segue o Evangelho de Marcos que recorda Jesus veio para mostrar o caminho para que o sigamos. Essa linha é que vai renovar, em diversas épocas históricas, o que foi a vida de Jesus e como ele ensinou. Pode-se seguir isso, na história. Não se sabe tudo, porque a grande maioria que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas, há pessoas que deixaram documentos e com isso se pode acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho, que buscava, primeiramente, a vivência do Evangelho. Quem buscava, radicalmente, o caminho do Evangelho eram, como dizia Hélder Câmara, as "minorias abraãmicas".
            A maioria está no outro polo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma de suas grandes tarefas: praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a distinção que vai se manifestar em toda a história. O polo "Evangelho" está em luta com o polo "religião" e "religião" contra o polo "Evangelho", em toda a história.
            Toda a história cristã é uma contradição permanente entre quem se dedica à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários, não há polos totais. Mas, na história, é visível duas histórias, dois grupos que se manifestam. A História da Igreja era "história da instituição eclesiástica" e ali só se falava da religião, supondo que religião era introdução ao Evangelho. Mas, isso é suposição: se dizia na teologia tradicional da cristandade que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, o que existe na Igreja Católica Romana vem de Jesus.
            Com malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem, afinal, sua raiz em Jesus. Não têm raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos convertidos à Igreja fossem puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião e introduzem, em sua vida cristã, elementos que são da religião e cultura anterior e por isso, resulta em uma religião que é sempre ambígua, complexa.
            É inevitável porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Estão carregados de séculos e séculos de história e transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí a oposição que se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada a seu passado é, pouco a pouco, abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é compreensível.
            O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico - doutrina, ritos, sacerdotes... todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. P. ex., a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!
            Falemos sobre o poder... Na época da prisão de bispos em Riobamba, o núncio dizia: "se a Igreja não tiver apoio dos governantes, não pode evangelizar". Pode-se pensar o contrário: caso tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas, essa é a mentalidade ainda remanescente na cristandade, na Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e, então, naturalmente, unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército - tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil.
            Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Um exemplo - um bispo franciscano da Bahia é Luís Flávio Cappio. Ficou famoso por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em imensa mentira. Tornou-se conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois, falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dele para entregar-lhe uma doação para suas obras. Era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: "De onde vem esse dinheiro?" Disseram que eram de empresas que alguns executivos recolheram. O Bispo disse: "Não aceito. Não aceito dinheiro roubado dos trabalhadores, de compradores de material". Não aceitou aliança com o poder econômico. Não sei quantos, no clero, não aceitariam... Esse bispo franciscano é igual a São Francisco. Toda a vida foi assim. Por isso, fui morar na sua diocese, para santificar-me um pouquinho, em contato com pessoa tão evangélica...
            Então, como nasceu a Igreja da qual falamos: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência? Para o povo, em geral, a Igreja é o Papa, bispos, padres, religiosas, religiosos... esse conjunto institucional do qual falamos e que provoca tanta incerteza. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era da continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muita coisa para eles e, então, Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda, nas cidades, o nome de "ekklesia", o que se traduziu por "igreja".
            O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é "a assembleia do povo reunido que governa a cidade". Na prática eram as pessoas mais poderosas; é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e faz isso, em reuniões que são "ecclesias". Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação das cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é a humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de "kahal" dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a "ecclesia", a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.
            Claro que não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. Quando cresceu o número de cristãos cresceu o número de comunidades e, aí, começaram a surgir algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas, São Lucas não tem valor histórico. Atribui a Paulo o que se fazia no seu tempo. Imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? É evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, nem os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham a função, a missão de governo, de administração, mas não função ritual ou função de ensino de uma doutrina.
            Depois apareceram os bispos. No final do século II, se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz "presbíteros", o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.
            E a Igreja como instituição universal, quando aparece? No século III, havia Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas, uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou a Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu os bispos que havia, com viagem e alimentação pagas por ele, e com a organização do Concílio dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal, como instituição, tenha nascido com o imperador.
            Depois, caiu o imperador romano e, progressivamente, o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve lutas, na Idade Média, entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era personalidade militar - comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.
            Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: governa as igrejas como um imperador - todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Se não nada de democracia na Igreja, quem orienta o papa? A corte! Os cortesões, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas é uma corte separada do povo cristão. Ainda sofremos as consequências da ação de Constantino. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que teria que mudar a função atual do Papa, o que o Papa faz. João Paulo II na "Unum sint" também disse que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião.

       4. Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião
            A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa; porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que se aprende no seminário. Muitos não acreditavam nisso, mas a maioria crê. Que fazer?
Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? A primeira tarefa é saber o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, não vêm de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que ele realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.
            Vendo a história, porque as situações culturais eram diferentes, quais as manifestações, onde podemos reconhecer a continuidade da linha Evangélica? Pois, se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Pergunto por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo. Não há outra coisa mais importante para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso, faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários...
            A linha evangélica é essa - São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: "O que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho". Isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em perturbação completa e que se afasta, sempre mais, das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.
·         O que fazer com a religião?

      O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se alguém olha a vida dos monges do deserto, no Egito, vê que isso não é mensagem. Não é mensagem e não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez do budismo ou coisas assim. Então, é preciso examinar o que é e o que ainda vale hoje.
            Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7 por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas, há coisas que já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, na Semana Santa, numa paróquia popular, um padre auxiliar atendia 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30... as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes.
           Há muitas coisas que é necessário revisar porque não têm futuro. É inútil defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda em nada. Nas liturgias há coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer sacrifício e que a Eucaristia seja sacrifício, vem de Jesus? Não vem de Jesus. Então, é preciso ver o que vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?

            Há também outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, para outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese, atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude; esses homens eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio - na Irlanda os rios são frios - e ficar nu para rezar todos os salmos... Essa maneira de entender a vida, não devemos considerar que seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta.
           Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Conheço uma série de congregações femininas e o tempo que se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e as que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! A tarefa da teologia é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia do sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.
            Na América Latina apareceu algo novo, conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Houve bispos que participaram disso e que animaram Medellín e a opção pelos pobres junto com os santos padres da América Latina que muitos conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, diria que foi no dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de "Pacto das Catacumbas". Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato, fizeram depois que chegaram às suas dioceses. Prometeram priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres - deixar muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e coisas que vão no mesmo sentido. Eles que animaram a Conferência de Medellín.
            Tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e, ao mesmo tempo, uma animação grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Não. Sempre é uma minoria. Um dia, um jornalista perguntou ao cardeal Arns - um santo: "você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!". Dom Paulo disse: "Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos". Era muito. Hoje, já não há tantas.
            Foi uma época de criação, dessas épocas em que há, às vezes, na história com efusão grande do Espírito. Mas, temos que viver essa herança; herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque não vai reaparecer. Às vezes, me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.
            Quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem grupinhos de jovens que praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser tarefa também da teologia: divulgar o que está acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário, podem perder ânimo ou não ter perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. É uma situação histórica nova. Não espero muito do clero.
            Faz tempo que os leigos deixaram de ser analfabetos. Eles têm uma formação humana, formação cultural, formação de sua personalidade que é superior ao que se ensina nos seminários. Têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que conheço, dioceses que conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Muitos ainda não se atrevem. Mas aí está o futuro.
            Para terminar, uma anedota: me chamaram a Fortaleza, no nordeste do Brasil, uma cidade muito grande. De lá a Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio, em Aparecida, que é lugar de castigo para bispos que não agradam. Veio o sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Os que me chamaram eram os 300, chorando, lamentando: "e agora não podemos fazer nada; o que vai acontecer?". Eu lhes disse: "vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com personalidade forte. Tiveram êxito na família, êxito em suas carreiras, e trabalhos profissionais. Do que se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e capacidade. Por que não agem, formam uma associação, um grupo, de forma independente? O Direito Canônico - que muitos católicos não sabem - permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina nas paróquias, mas é algo importante. Vocês podem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, de espiritualidade, de organização de presença na vida pública, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga a 5, e cada um não vai gastar sequer 2% do que ganha; ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. Escolham entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento, termina seus estudos e já conseguiu trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade". Mas não o fizeram. Por quê? Por que tanta timidez? "Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!" Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa. Mas nós podemos! Podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer.
            O futuro depende de grupos semelhantes de leigos, que já existem mesmo que ainda estejam dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil, há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres - são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São os jovens que estão descobrindo o mundo. Há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é a minoria. O conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não com cursos de teologia; explicar fazendo, participando de atividades que são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.
Tarefa da teologia. Será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque antes se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu; os filósofos do século XX a enterraram. Agora, temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.

[Conferência transcrita por Enrique A. Orellanae no dia 14-11-2010].

31 de agosto de 2017

Uma ponte para o passado: como chegamos até aqui?


http://www.ihu.unisinos.br/571179-uma-ponte-para-o-passado-como-chegamos-ate-aqui

“Não se pode dizer que o Brasil não tem recursos: só de juros da dívida, são no mínimo 400 bilhões de dinheiro público que é transferido por ano para os mais ricos. Se os juros fossem 0% - como em vários países desenvolvidos -, haveria 400 bilhões para investir em saúde, educação, transporte, saneamento e ainda sobraria”, escreve Ivo Lesbaupin, sociólogo, professor da UFRJ, coordenador da ONG Iser Assessoria.

Segundo ele, “não adianta esconder que este mesmo ajuste fiscal foi iniciado pelo governo Dilma, que a recessão que estamos vivendo foi piorada pelo governo Temer, mas começou lá. O desemprego cresceu em 2015, 2016 e este ano: suas raízes estão no ajuste fiscal, iniciado por Dilma e aprofundado por Temer”,

“O governo e boa parte da esquerda - constata o sociólogo -não entendeu o recado das ruas em junho de 2013. Lá estava a reivindicação por transporte, por melhor saúde, por melhor educação, contra os gastos excessivos na Copa do Mundo em detrimento de melhores políticas sociais. As ruas explodiam por reivindicações às quais o governo não estava atento. Ao invés de reagir atendendo as estas reivindicações, boa parte da esquerda preferiu acusá-las de "armação da direita". Como tem feito até hoje, negou as críticas”.

Eis o artigo.
A situação que estamos vivendo hoje
Nos últimos tempos, o que estamos vivendo é a dominação por parte do grande capital (banqueiros e rentistas – empresários – ruralistas) sobre todas as coisas: sobre a maioria do Congresso, sobre a legislação (aprovação de leis favoráveis ao capital), sobre as terras, sobre os povos indígenas, sobre o meio ambiente, as privatizações, a entrega do petróleo (inclusive do pré-sal).
Nossa resistência só conseguiu, até agora, impedir a reforma da Previdência. No mais, o governo ilegítimo e totalmente desmoralizado (apenas 5% da população o aprova), tem conseguido aprovar, a toque de caixa, todas as leis que propõe.
O retrocesso é impressionante:
Nos direitos trabalhistas, estamos recuando cem anos, voltando aos anos 1920, antes de Getúlio Vargas;
Nos direitos sociais, trata-se de um retorno à Constituição da ditadura civil-militar (1969);
Nos direitos ambientais, é a volta à ditadura;
Quanto aos povos indígenas, é a reedição da política indigenista da ditadura (caracterizada pela afirmação "o índio não pode prejudicar o progresso do país"): o direito de tomar suas terras, agredir, reprimir e matar índios está liberado.
Democracia?
Não estamos numa democracia, as leis que defenderiam a maioria dos cidadãos – a Constituição de 1988 – não valem, são constantemente derrubadas em favor da minoria dominante, o 1% mais rico.
A situação atual resulta do desrespeito ao processo democrático pelo impeachment da presidente sem que houvesse crime de responsabilidade: ele representou o desprezo ao voto popular. Não adiantou uma candidata ter tido 54 milhões de votos, os que se opunham a ela tiraram-na do poder. Daí para a frente, desprezar o processo democrático se tornou corriqueiro, as leis são ignoradas, os juízes fazem o que querem, são dois pesos e duas medidas a todo momento...
As chacinas no campo – contra trabalhadores, contra indígenas – se sucedem; nas periferias urbanas, também. É como se tivesse sido baixado um decreto de que a violência policial está permitida, a violência contra os "inimigos" (trabalhadores, povos indígenas, jovens da periferia, juventude negra). Não é simplesmente que a formação policial da ditadura não foi superada, é que o "espírito" próprio da polícia sob a ditadura foi restabelecido. A polícia sabe que seus crimes ficarão impunes, que serão defendidos e mesmo comemorados.
As leis não são cumpridas, as instituições não funcionam: algumas lideranças, algumas pessoas, um partido, são investigadas e perseguidas sistematicamente, com ampla exposição na grande mídia, outras são protegidas. Sem que qualquer instância superior questione os métodos adotados, as arbitrariedades e ilegalidades cometidas (vazamentos seletivos, divulgação de gravações, denúncias públicas contra pessoas que, em muitos casos, são posteriormente revogadas, com evidentes prejuízos morais para os envolvidos, prisões prolongadas para motivar delações, etc.).
É verdade que as últimas delações atingiram outros partidos e o próprio governo, mas seus efeitos foram rapidamente apagados.
O STF, guardião último da Constituição, tem se caracterizado pela omissão, a começar pelo próprio impeachment, ao se recusar a definir se "pedalada fiscal" era crime de responsabilidade. Evitaram se comprometer e deixaram o Congresso decidir sozinho, para possibilitar o impeachment de Dilma.
Nos julgamentos, não há garantia nenhuma que a jurisprudência seja seguida: as decisões são tomadas segundo as conveniências políticas do momento. Isto se verificou no julgamento do TSE sobre a chapa Dilma-Temer. Isto se viu anteriormente no caso de Renan Calheiros quando presidente do Senado. O STF havia decidido que um réu não poderia estar na linha de sucessão do presidente da República e, duas semanas depois, quando Renan não quis cumprir a ordem de deixar a presidência do Senado, o mesmo STF permitiu que Renan continuasse no seu posto.
Não há mais regras claras, quem tem poder faz o que quer. Há uma completa desmoralização deste órgão superior de Justiça.
É sabido que, no Congresso – tanto na Câmara quanto no Senado –, a maioria está aprovando projetos de lei com votos comprados, isto é, através de corrupção, suborno, propina. A grande mídia denuncia a compra de votos. Mas esta corrupção, presente, atual, aos olhos de todos, não é investigada.
Os projetos de lei sequer são debatidos, são votados em bloco, como se fosse uma "linha de montagem". Leis que vão mudar radicalmente políticas públicas essenciais para os próximos anos ou décadas – como saúde, educação, trabalho - são votadas e aprovadas sem debate com a sociedade que será gravemente afetada por estas mesmas leis.
Nós estamos num Estado de Exceção.
Mas: por que chegamos até aqui, por que chegamos a esta situação?
A pergunta que nos fazemos é: por que se fez uma campanha cerrada pela derrubada da presidente eleita por 54 milhões de votos e a reação popular foi tão pequena? Quem protestou contra este processo foram os movimentos organizados, mas a massa da população (a maioria de seus eleitores) esteve ausente: não estava de acordo, mas também não saiu a defender a presidente.
Primeiro fator: o estelionato eleitoral. A presidente, eleita depois de uma campanha eleitoral dura, e que ganhou graças à intervenção maciça dos movimentos sociais em seu favor nas últimas semanas, optou, no dia seguinte às eleições, por fazer o programa econômico do adversário: o ajuste fiscal. Ela o fez para conseguir as boas graças do "mercado", e com isso abandonou o voto dado por seus eleitores.
Não se pode dizer que a presidente não foi alertada para a gravidade desta opção. Nas primeiras semanas após as eleições, vários economistas de esquerda advertiram Dilma dos riscos em que jogaria o país se adotasse o ajuste fiscal. Mostraram que ela repetiria os erros das políticas de austeridade europeias, com recessão e aumento do desemprego. Apontaram outros caminhos possíveis para tirar o país da grave situação em que se encontrava, ofereceram um programa alternativo.
O governo não cedeu, adotou o ajuste fiscal e as consequências foram se sucedendo exatamente como previsto.
A direita, apesar de estar satisfeita com o programa econômico implementado, aproveitou para denunciar o estelionato eleitoral e mostrar a incoerência da presidente: usou a grande mídia para desmoralizar o governo.
Daí em diante, mesmo percebendo o caminho antidemocrático seguido pelas manifestações de setores da classe média, pela grande mídia, pelo parlamento, as massas não reagiram. Não havia motivação para defender o governo que estava aplicando as políticas que lhes eram contrárias.
Esta é uma das razões pelas quais os eleitores de Dilma não foram às ruas para defendê-la.
Mas há outras razões, mais fundas, de mais longo prazo
Desde o início dos governos Lula-Dilma, o que ocorreu foi um estelionato eleitoral. É verdade que a Carta ao Povo Brasileiro (junho de 2002) já fazia prever uma mudança de rumo nas promessas feitas pelo candidato Lula. Mas a mudança foi mais longe: a política econômica do governo Lula, seguida no essencial pelo governo Dilma, foi de atendimento aos interesses do capital financeiro. Ela era centrada no pagamento da dívida pública e de seus juros, o que favorecia o 1% mais rico da sociedade: no orçamento público realizado, a cada ano aumentava a proporção dedicada à dívida, de 35% a 45%. Nestes 13 anos, a taxa de juros real esteve sempre entre as mais altas do mundo, mesmo nos períodos em que a taxa nominal baixou. Os juros aumentaram de 200 bilhões de reais nos primeiros anos até 500 bilhões em 2015.
É inegável que o governo Lula e, depois, o governo Dilma, implementaram políticas públicas que melhoraram muito a situação dos mais pobres e dos trabalhadores: a política de valorização do salário-mínimo, o Bolsa-Família, os programas de Farmácia Popular, o Luz para Todos, o programa de construção de cisternas no semiárido, o Minha Casa Minha Vida e muitas outras coisas. Estas políticas retiraram da miséria 30 milhões de brasileiros e melhoraram a renda dos trabalhadores, permitindo uma capacidade de consumo que há décadas não tinham. Houve políticas muito boas, é preciso reconhecer.
Porém: a parcela dos recursos públicos que foi para os ricos foi muito maior do que aquela para os pobres. Os lucros dos bancos nos governos Lula-Dilma foram maiores que durante o governo FHC.
O que permitiu os pobres ganharem ao mesmo tempo que os ricos foi a situação econômica mundial e o aumento do valor dos bens de exportação, as commodities – uma situação que não existe mais.
Os grandes beneficiários nos governos Lula-Dilma foram, em primeiro lugar, o capital financeiro (bancos e rentistas), as empreiteiras e o agronegócio. O PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), com vários megaprojetos de hidrelétricas a serem construídas na Amazônia, foi a felicidade das empreiteiras – como as revelações da Lava-Jato estão permitindo comprovar. Jirau, Santo Antônio, Belo Monte, foram pagamento de doações para as campanhas eleitorais por parte da Odebrecht, OAS, Camargo Correia, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão. Basta examinar quem foram os maiores doadores das campanhas de 2006, 2010 e 2014 para ver que elas estão em primeiro lugar, junto com os bancos e o agronegócio.
Os povos indígenas foram vítimas dos governos Lula-Dilma, mesmo reconhecendo que "Raposa Serra do Sol" (terra indígena em Roraima) foi homologada por Lula. A construção das hidrelétricas - a maior das quais foi Belo Monte, no rio Xingu -, resultaram no genocídio de várias etnias indígenas, além da população ribeirinha. Não adiantaram as mobilizações dos atingidos, dos povos indígenas das regiões visadas, das Igrejas: tanto o governo Lula quanto o governo Dilma foram insensíveis a suas reivindicações.
O discurso era "energia elétrica para o povo pobre". Porém os bem informados sabiam que o objetivo era atender às empreiteiras e às empresas que queriam se instalar na Amazônia (alumínio, mineração, etc.).
Cabe observar que o mesmo governo que falava da necessidade de hidrelétricas para gerar energia nada fez para desenvolver a energia solar num dos países mais ensolarados do mundo, que é o Brasil: o investimento é menos de 10% do que investem Alemanha, China e Espanha, para citar apenas três exemplos.
O ajuste fiscal foi iniciado pelo governo Dilma
Temos denunciado vigorosamente a política de ajuste fiscal (“austeridade”), que retira direitos da maioria, dos trabalhadores, dos mais pobres e transfere recursos públicos (de todos, portanto) para a camada mais rica da sociedade, o 1% já privilegiado.
Não se pode dizer que o Brasil não tem recursos: só de juros da dívida, são no mínimo 400 bilhões de dinheiro público que é transferido por ano para os mais ricos. Se os juros fossem 0% - como em vários países desenvolvidos -, haveria 400 bilhões para investir em saúde, educação, transporte, saneamento e ainda sobraria.
Não adianta esconder que este mesmo ajuste fiscal foi iniciado pelo governo Dilma, que a recessão que estamos vivendo foi piorada pelo governo Temer, mas começou lá. O desemprego cresceu em 2015, 2016 e este ano: suas raízes estão no ajuste fiscal, iniciado por Dilma e aprofundado por Temer.
Não podemos esquecer que o Ministro da Fazenda do atual governo, Henrique Meirelles, foi, durante 8 anos, o presidente do Banco Central no governo Lula, garantindo a prioridade dos interesses do capital financeiro.
O atual governo – embora impopular e desmoralizado – está defendendo uma reforma da Previdência prejudicial à maioria dos cidadãos. Mas cabe lembrar que o governo Lula fez, no primeiro ano de governo, a reforma da previdência do setor público, aquela mesma que Fernando Henrique não conseguira fazer, porque os movimentos sociais e o PT daquele tempo impediram. E Dilma estava preparando um projeto de reforma da previdência que o Ministro Nelson Barbosa não se cansou de anunciar.
Então, nós estamos diante de um governo de direita, que está levando a seu extremo as políticas neoliberais, mas várias destas políticas foram feitas nos governos Lula-Dilma, embora de forma mais lenta e menos agressiva. Banqueiros e rentistas nunca ganharam tanto como nestes 13 anos, graças à centralidade do papel da dívida pública nestes governos, dando continuidade à política econômica de FHC. O “fator previdenciário”, uma medida introduzida pelo governo FHC e prejudicial para os trabalhadores, foi mantido por Lula e por Dilma. Caiu por obra da oposição, contra a vontade de Dilma.
As privatizações que, antigamente, permitiam distinguir o PT do PSDB, foram retomadas nos governos Lula e Dilma, tanto de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias como os leilões de petróleo, inclusive de áreas do pré-sal (governo Dilma).
A diferença é que, nestes governos, houve uma preocupação também pelos mais pobres, pelos trabalhadores, na política do salário-mínimo, no Bolsa-Família, entre outras coisas, que permitiram que os pobres também ganhassem e não apenas os ricos.
A Reforma Agrária – pela qual os trabalhadores lutam desde a década de 1950 -, não foi feita, nem pelo governo Lula nem pelo governo Dilma, porque o agronegócio era aliado do governo e elemento central da política de exportações.
A cooptação dos movimentos sociais
Quanto aos movimentos sociais, a preocupação do governo Lula era que continuassem como seus apoiadores, mesmo percebendo que suas principais reivindicações não eram atendidas. O governo manteve uma busca permanente de cooptação, atendendo a necessidades imediatas, não a suas demandas por reformas estruturais. Era preciso convencê-los de que ou apoiavam ou fariam o “jogo da direita".
Portanto, a maior parte dos movimentos sociais manteve seu apoio aos governos do PT, apesar de saberem que atendiam em primeiro lugar aos interesses dos grandes grupos econômicos.
O governo Lula enfraqueceu os movimentos sociais, contribuiu para que abandonassem as lutas pela transformação social em troca de resultados mais imediatos. Quem leu os manifestos e as tomadas de posição de vários movimentos sociais nos últimos anos, pode observar que, na maioria deles, está ausente a defesa dos povos indígenas (porque colocaria em xeque os megaprojetos governamentais de hidrelétricas), assim como a exigência de “Auditoria da Dívida Pública” (porque questionaria a submissão aos interesses do capital financeiro).
A ética na política: a questão da “governabilidade”
Os escândalos de corrupção a que assistimos nos últimos anos têm uma raiz: é o esforço que o governo faz para ter maioria no Congresso, para ter o que é chamado de “governabilidade”. Ter maioria para poder aprovar seus projetos, para levar à frente seu projeto de poder, para ter apoio para seus candidatos, para eleger aqueles que indicar. Neste processo, “os fins justificam os meios”, vale tudo: o governo faz as alianças que julga necessárias para alcançar seus fins, pouco importa o caráter pouco ou nada ético dos compromissos assumidos. Passam para trás os compromissos assumidos com os movimentos sociais, de construir algo novo no país, passam para a frente os interesses da velha política.
Aqui se jogou fora toda a história de ética exigida por um novo modo de fazer política (o PT era “um partido diferente dos outros”), se jogou fora a campanha pela “ética na política”, liderada pelo saudoso Betinho nos anos 90. Jogou-se fora “o modo petista de governar”, que implicava inversão de prioridades, participação popular e ética, e temos muitos exemplos significativos de coerência dos primeiros tempos do PT, tanto de parlamentares quanto de governantes, como foi o caso da gestão de Luiza Erundina, em São Paulo e Olívio Dutra, em Porto Alegre.
A aliança com Sarney – do mesmo modo que com Romero Jucá, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Collor e Maluf – se justificava para garantir a “governabilidade”. Mas ela implicou, da parte do governo, abandonar muitas das promessas feitas a seus eleitores.
Seu modo de agir sinalizou para todos, especialmente para os jovens, que a única política possível é esta, feita à base da barganha, do “toma-lá-dá-cá”.
A aceitação deste argumento – a “governabilidade” – levou à aceitação de toda sorte de práticas, comuns aos partidos tradicionais (desde “caixa 2” até outras), concessões tantas que, ao final, já não se reconhecia mais o PT das origens e, certamente, não era mais um partido “dos trabalhadores”.
Não houve reforma política porque o governo já se dava muito bem com o sistema tradicional, caracterizado pelo “balcão de negócios”. Não era mais necessário mudar o modo de fazer política, porque se conseguia fazer política daquele jeito antigo de fazer.
Não era preciso a democratização dos meios de comunicação, porque era possível lidar com a grande mídia, com a Globo, de forma favorável. O que permitiria desconfiar que, se a grande mídia aprovava as políticas do governo, é porque elas atendiam, em boa parte, a seus interesses.
Em suma, o partido que veio para mudar se transformou num partido igual aos outros.
E vários movimentos sociais de maior alcance nacional e maior peso, ao invés de serem questionadores das políticas de direita seguidas pelo governo, acabaram se tornando sua base de apoio.
Junho de 2013
Até junho de 2013, com 70% de aprovação popular, o governo se dava ao luxo de desprezar os protestos de minorias. Assim, ignorou as reações de movimentos contra a construção das hidrelétricas na Amazônia, contra a transposição do rio São Francisco, contra os investimentos insuficientes em saúde e em educação, contra o desprezo pela grave situação carcerária e assim por diante. Neste mês, explodem manifestações em favor de um transporte digno (passe livre) que, em virtude da forte repressão, se ampliam e alcançam todo o país.
O governo e boa parte da esquerda não entendeu o recado das ruas. Lá estava a reivindicação por transporte, por melhor saúde, por melhor educação, contra os gastos excessivos na Copa do Mundo em detrimento de melhores políticas sociais. As ruas explodiam por reivindicações às quais o governo não estava atento. Ao invés de reagir atendendo as estas reivindicações, boa parte da esquerda preferiu acusá-las de "armação da direita". Como tem feito até hoje, negou as críticas. Dos cinco pactos propostos pelo governo Dilma para responder ao clamor das ruas, o primeiro era para acalmar o mercado, para atender às elites (pacto por responsabilidade fiscal, estabilidade da economia e controle da inflação).
Ao invés de assumir publicamente suas falhas e dar um exemplo de governo comprometido com a maioria - os trabalhadores, as classes populares -, seguiu em frente, acertou-se com o Congresso. E preparou medidas para aumentar a repressão. Neste ano, não conseguiu, mas dois anos depois, a presidente Dilma assinou a Lei Antiterrorismo, pouco antes de sofrer o impeachment.

Foram importantes as conquistas do Bolsa Família, o resgate de milhões de pessoas da miséria, mas Junho mostrou que a sociedade exigia mais, eram necessárias mudanças estruturais que fossem materializadas em serviços públicos de qualidade. No entanto, a esquerda não quis ouvir essa voz. Ao invés de aproveitar o impulso para promover mudanças, jogou Junho nos braços da direita.

Podemos elencar os aspectos positivos do governo Lula
- Houve um aumento real do salário-mínimo (de 74%, entre 2003 e 2010);
- a taxa de desemprego diminuiu (de 19% para 11,9%) e o número de empregos formais cresceu;
- o atendimento à rede de energia elétrica aumentou (“Luz para Todos”);
- o acesso à educação melhorou, inclusive o acesso à universidade por parte dos mais pobres;
- o Bolsa-Família atingiu a 50 milhões de pessoas (12 milhões de famílias);
- o mercado interno (o consumo das famílias) aumentou;
- o combate ao trabalho escravo se tornou mais sistemático (foram libertados 33 mil trabalhadores entre 2003 e 2010);
- as operações da Polícia Federal tiveram um enorme incremento (216 operações entre 2003 e 2010) e, pela primeira vez no Brasil, atingindo indivíduos ricos;
- houve a revalorização do Estado (funcionalismo, universidades públicas, etc.);
- valorizou-se a liberdade de ação dos órgãos de controle social (Ministério Público, Polícia Federal, CGU, STF);
- a política externa se tornou mais independente;
- após a crise econômica mundial de setembro de 2008, para evitar o aumento do desemprego, o governo mudou a política econômica, abandonando alguns dogmas neoliberais .

Tudo isto evidencia que houve melhorias efetivas para o conjunto da população, especialmente a população mais pobre.
Estas políticas diferenciaram o governo Lula do governo anterior (FHC): neste sentido, pode-se dizer que ele não foi simplesmente a cópia do governo anterior. Na comparação, há várias iniciativas positivas. Além do mais, houve uma mudança importante do governo Lula do primeiro para o segundo mandato: a atuação do Estado para promover a atividade econômica, rompendo com o princípio neoliberal de não intervenção do Estado na economia.

Porém, todas estas diferenças não mexem no fundamental. No essencial, a opção deste governo foi feita desde o começo e não mudou: a política econômica foi centrada nos interesses do capital financeiro, no atendimento dos interesses das empreiteiras (transposição, hidrelétricas, obras do PAC), dos grandes proprietários de terra vinculados à exportação (agronegócio).
É só olhar a diferença no orçamento, entre o que foi para o pagamento dos juros da dívida e o Bolsa-Família:
200 bilhões por ano, no mínimo (em 2008, foram 282 bilhões; em 2009, 380 bilhões; em 2015, 500 bilhões), para os banqueiros e rentistas (que não chegam a 1 milhão de pessoas);
27 bilhões para o Bolsa-Família (cerca de 50 milhões de pessoas) – em que o valor máximo é 350 reais por família por mês.
A ausência das massas
Frente ao descalabro da política nacional, das ilegalidades cometidas por Temer e seu governo, das concessões à bancada ruralista, da distribuição de benefícios aos parlamentares para se manter no poder, apesar de tudo isso, não há manifestações de protesto à altura.
Houve reações até um determinado momento, em março, abril e maio deste ano. Mas, depois disso, arrefeceram. É possível que as pessoas, percebendo a ineficácia de seus esforços, tenham se cansado e desistido de ir às ruas. (Sem contar que a forte repressão desanimou as pessoas...).
A maior parte da população, as massas, se mantiveram ausentes. Estão atordoadas com o que está ocorrendo – o golpe, as medidas antipopulares que estão sendo aprovadas em ritmo acelerado, o desemprego atingindo ou ameaçando a todos/as.
Provavelmente, não acreditam piamente na grande mídia ou, pelo menos, desconfiam da versão dada por ela. Por outro lado, houve o fato de que o governo que representava o lado deles, dos trabalhadores, se mostrou indigno de confiança (ajuste fiscal, medidas impopulares, recessão, estelionato eleitoral).
Mesmo Lula, que é a liderança ainda respeitada pela maioria, perdeu parte do seu encanto em razão das sucessivas denúncias de corrupção (desde o "mensalão" até o "petrolão"), alardeadas pela grande mídia. Mesmo que nem todos acreditem na campanha mediática contra Lula, algo do que foi denunciado ficou.
É verdade que faltam alguns instrumentos importantes: os partidos políticos, que foram impulsionadores da campanha das Diretas Já em 1984, não representam mais nada hoje. O PT, embora tenha recuperado um pouco de seu brilho, não é mais símbolo de mudança.
O esforço permanente de esvaziamento da capacidade crítica dos movimentos sociais por parte dos governos Lula e Dilma levou a uma “desidratação” dos mesmos (veja-se a fraca atuação da CUT, da UNE – e mesmo do MST -, por exemplo, durante os governos Lula-Dilma).
Tudo isso pode explicar a ausência das massas nas ruas até o presente momento.

Há, porém, brasas embaixo das cinzas. Há um acúmulo de indignação, de desejo de protestar na grande maioria das pessoas. Falta pouco para esta raiva explodir, mas não sabemos quando nem onde nem o que provocará esta explosão. Porém, ela virá, mais cedo ou mais tarde. Em muito pouco tempo, menos de três anos, a situação da população trabalhadora, dos mais pobres, se deteriorou: desemprego, demissões, baixos salários, precarização, perda de renda, perda de moradia, perda de planos de saúde, aumento da população de rua. Ao mesmo tempo, os ricos ficaram mais ricos. E o governo gasta milhões para garantir a continuidade de seu apoio no Legislativo e no Judiciário.
Isto vai ter consequências, mais cedo ou mais tarde.
Construir um projeto de Brasil
Precisamos construir uma saída para esta situação. Hoje, não apenas há um governo ilegítimo que tomou o lugar do governo eleito: este governo está fazendo aprovar em pouco tempo – sem discussão com a sociedade - uma nova constituição, um conjunto de leis que desmontam o Estado que tínhamos anteriormente. O programa que está sendo implementado é o programa de governo que foi derrotado nas eleições de 2002, 2006, 2010 e 2014. A legislação trabalhista foi derrubada, a Constituição Cidadã foi rasgada, os recursos para as principais políticas públicas – saúde, educação – estão sendo cortados. E os recursos tirados dos mais pobres estão indo para os mais ricos.
Precisamos, em primeiro lugar, denunciar esta situação: o desmonte do Estado, o golpe na democracia.
Só há um meio de sermos ouvidos: as ruas. Sim, temos meios de nos fazermos ouvir: a comunicação via meios alternativos, via redes sociais. Mas não podemos parar na comunicação digital: temos de nos fazer presentes, fisicamente presentes.
E temos de nos organizar: nos bairros, nas escolas, nas universidades, no campo, nas cidades, nas aldeias. Discutir o que estamos vivendo, pensar coletivamente saídas, montar estratégias. Este trabalho dos pequenos grupos, das associações, das articulações, parece pouca coisa, mas é ele que vai embasar as grandes mudanças: o grande nasce do pequeno. Sem este trabalho de base, não se criam as raízes para as mobilizações.
Precisamos discutir o Brasil que queremos, elaborar um Projeto de Brasil. Não basta eleger um candidato: precisamos definir o que queremos que se faça, o programa de governo, qualquer que seja o governante.
Queremos, para começar, que todas as medidas que foram votadas depois do impeachment da presidente (agosto de 2016), sejam submetidas a referendo popular. Elas só podem ser validadas depois de julgadas pela população, pelos cidadãos e cidadãs. Porque elas foram aprovadas por um Congresso constituído em boa parte por suspeitos de corrupção e em sua maioria por votos comprados. Portanto, estas leis não têm valor: são fruto da corrupção, da propina, do suborno.
Qualquer candidato que se apresente para nos representar tem de se comprometer com este programa.

Estamos vivendo um momento difícil, de muitos retrocessos, de muitas derrotas. Mas as coisas não vão permanecer assim, nós vamos mudá-las: lentamente, de baixo para cima, do pequeno para o grande, de poucos para muitos, nós chegaremos lá.
“Não temais os que podem matar o corpo, mas não têm poder para matar a alma”. Eles não podem matar a esperança.