22 de junho de 2015

Recordar é viver!




O povo de Israel confessava sua fé recordando a história de Deus com seu povo, conforme Dt 6.20-23. A própria confissão de fé é um relato histórico, pois nosso Deus é um Deus que age no processo histórico da luta de classes em andamento para acabar com a luta de classes, acabando com a sociedade de classes e construindo uma sociedade sem classes sociais. Isso podemos ver em Js 6-8. O povo cristão confessa a sua fé (pelo Credo Apostólico, Niceno e outros) recordando e confessando que ele faz parte do processo histórico insurgente da construção de uma nova sociedade não classista que é o Reino de Deus. Esta é a mística que nos conduz na participação no processo revolucionário da construção coletiva do Reino de Deus. A fé em Jesus Cristo a partir de Pentecostes construiu um processo coletivo de resistência frente à sociedade de classes da época que o povo chamou de Igreja, uma assembleia, um processo coletivo, do povo de Deus para participar comunitariamente da construção do Reino de Deus, se insurgindo contra e revolucionando a velha sociedade de classes no sentido de eliminar as bases das relações de dominação e de exploração de classe, que é a propriedade privada dos meios de produção e o Estado. Foi o Estado, aliado à Religião, que assassinou a Jesus Cristo e a milhares de cristãos no Império Romano; e foi o Estado e seus mantenedores capitalistas, no campo e na cidade, que assassinaram milhares de pessoas no processo de construção das ditaduras a serviço do imperialismo estadunidense nos anos 60 a 80 no mundo; e o mesmo Estado que não viabiliza a justiça frente às perseguições e os assassinatos dos pobres e lutadores/as do povo de hoje que lutam para impedir a apropriação dos bens da natureza e da produção coletiva pelo capital.
Toda celebração do povo de Deus estava ancorada no processo histórico da luta de classes no processo histórico de acabar com a sociedade de classes. O culto estava sempre embasado e partia de fatos históricos. Culto de ritos e embasado em ritos da natureza somente é culto pagão. A base do culto cristão é o processo histórico de lutas por justiça e paz (Rm 14.17) na qual a comunidade está inserida na caminhada para construir uma nova sociedade que Jesus Cristo chama de Reino de Deus.
Culto cristão está ancorado no processo na qual a Ceia do Senhor se insere, que é a luta pelo Reino de Deus, uma nova sociedade não classista e não capitalista onde não existe mais a propriedade privada dos meios de produção e consequentemente não existe mais o Estado, que tem a função de defender os interesses da classe economicamente dominante. Quando celebramos a Ceia do Senhor estamos confessando que estamos inseridos no processo insurgente e revolucionário do Reino de Deus que possibilita comida e bebida para todos, o que requer uma sociedade não classista onde não haja mais o controle privado sobre os meios de produção. A Ceia do Senhor lembra o processo histórico da inserção de Javé a partir da classe camponesa, materializado historicamente no camponês artesão sem terra marginal Jesus de Nazaré, para revolucionar a sociedade em direção ao Reino de Deus. Comer o corpo e beber o sangue de Cristo na Ceia é incorporar e assimilar fisicamente o projeto de Jesus Cristo, o Reino de Deus; é incorporar fisicamente a insurgência revolucionária do Reino de Deus na luta contra a sociedade de classes existente hoje, o capitalismo, que é o oposto do projeto do Evangelho de Jesus Cristo.
Celebrar a Ceia do Senhor sem apontar para a utopia revolucionária do Reino de Deus, uma sociedade não capitalista e não classista, é minimizar a Ceia e reduzi-la ao mero rito individual, descomprometido do processo revolucionário coletivo que ela propõe. Individualizar somente a participação na Ceia do Senhor sem se sentir inserido no conjunto do processo histórico da revolução do Reino de Deus é reduzir a Ceia a um mero rito religioso, que nos leva à condenação (1 Co 11.28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; 29 pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. 30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. 31 Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. 32 Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.). À confissão de pecados individuais devem se somar aos pecados estruturais da sociedade dos quais participamos quando reproduzimos a sociedade de classes, ambos devem ser confessados e ambos devem ser deletados (Mc 1.15). Também somos fruto dos pecados estruturais da sociedade e os reproduzimos. A celebração da Ceia do Senhor requer que estes pecados estruturais devem ser deletados, o que requer uma inserção no processo histórico da luta de classes nos partidos políticos de esquerda, no movimento sindical, nos movimentos populares, povos originários, pequenas cooperativas de resistência e ONGs de esquerda para acabar com a sociedade de classes.
Quando a pessoa cristã diz que não existe a possibilidade de construir outra sociedade além da capitalista ela está se conformando com este século e negando o conteúdo da Ceia do Senhor e do próprio Evangelho do Reino de Deus anunciado por Jesus Cristo; está negando a confissão de fé, tanto do povo de Deus do AT como do NT; está transformando o Evangelho revolucionário do Reino de Deus em mera religião, que se reproduz através de ritos a-históricos e da natureza. O Evangelho se reproduz no processo histórico da luta de classes em direção a uma nova sociedade não classista, de irmãos/ãs, que Jesus Cristo chama de Reino de Deus, que já começou com Jesus Cristo e continua a se viabilizar a partir das classes subalternas no processo de luta contra a sociedade de classes vigente.
Comunidade, que se diz cristã, não inserida no processo histórico da luta de classes contra a sociedade de classes já se desprendeu da essência evangélica, que é a participação no processo histórico coletivo da construção dessa nova sociedade não classista que é o Reino de Deus. Jesus Cristo e milhares de pessoas cristãs morreram assassinados, no passado e morrem assassinados no presente, por causa de sua inserção nesse processo histórico da luta de classes para acabar com a sociedade de classes, hoje chamada de capitalismo. A luta contra o capitalismo faz parte da essência revolucionária da pessoa cristã que alicerça sua luta no Evangelho de Jesus Cristo. O Projeto deste Evangelho poderíamos resumir assim:
1. O Primeiro Projeto Camponês de Javé.
O primeiro modo de Javé construir seu projeto histórico dentro do processo da luta de classes na sociedade começou no Êxodo (Dt 6.20-23; Êx 3). Ali no processo da luta de classes Javé faz a sua opção de classe em favor da classe camponesa escrava hebreia contra a classe que controlava o Estado e contra o próprio Estado para conduzir a classe camponesa sem terra no processo coletivo de luta pela terra para as montanhas da Palestina e ali acabar com o Estado (cidade-estado Js 6-8) e mudar o modo de produção tributário para tribal onde o meio de produção, a terra, agora está sob o controle da coletividade (o clã e a tribo) como proposta econômica de não acúmulo privado (Êx 16), com isso também acontece o processo de participação popular nas decisões políticas (Êx 18.13-27; Nm 27.1-11; Js 8.33-35), uma nova relação de gênero (Gn 1.27; 2.24; Nm 27.1-11; Jz 4.1-9), de etnia (Rt 4.18-22; Js 8.35), de fé (Js 24.14-25) e assim assegurar a liberdade, uma sociedade não classista, igualitária, e sem propriedade privada.
Segundo Nm 26.54 “À tribo mais numerosa darás herança maior, à pequena, herança menor; a cada uma, em proporção ao seu número, se dará a herança.” e Lv 25.25 “Se teu irmão empobrecer e vender alguma parte das suas possessões, então, virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o que seu irmão vendeu.” e Lv 25.23 “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos.” Terra é posse, herança, e, nunca, propriedade privada (1 Rs 21.2-3), pois a terra é de Deus que a cedeu para o uso do camponês para sua sobrevivência.
2. A continuidade do Projeto Camponês de Javé em Jesus Cristo (Lc 16.16).
Assim, o Projeto Camponês de Javé que ele inicia com a classe camponesa no AT (Êx 1-15), continua, agora, por/em/com o camponês artesão sem terra pobre palestino marginal Jesus Cristo, com o nome de Reino de Deus (Lc 16.16), a partir das classes subalternas do império romano (mulheres e homens: camponeses, artesãos, pescadores, escravos, estrangeiros, sem terra, diaristas, plebeus,). O novo formato coletivo, agora, após Pentecostes, chamado de Igreja, é um dos instrumentos coletivos que Deus usa para construir seu Reino a partir de Jesus Cristo. A Igreja subversivamente começa a solapar, na prática da vida, as bases do Império Romano Escravocrata da propriedade privada dos meios de produção e da mão de obra, tornando pela fé e pelo batismo as pessoas iguais dentro da Igreja. Isto fez com que sonhassem serem iguais também em todas as relações da sociedade, como aponta Paulo em Gl 5.1. Assim, a semente subversiva do Evangelho de Jesus Cristo vai minando aos poucos as bases da sociedade classista escravocrata legitimada pela Religião. Com base na Religião o Estado escravocrata movimenta os seus mecanismos de repressão contra a subversão evangélica libertadora da Igreja condenando à morte as pessoas que eram denunciadas como cristãs.
As pessoas cristãs e suas Igrejas são desafiadas hoje no capitalismo, a partir da classe trabalhadora, classe camponesa e povos originários, a permanecer nesse processo da construção subversiva do Reino de Deus, a partir da fé em Jesus Cristo, do batismo e da celebração da Ceia do Senhor, como convidados, porque receberam a salvação de graça pela fé, que automaticamente as compromete e se inserir nesse processo. Continuamos a lutar a partir da Igreja [e outras religiões], dos Movimentos Populares, Sindicais, Partidos de esquerda, ONGs e Povos originários pela construção desse Reino de Deus, uma sociedade sem classes e sem propriedade privada onde a Religião (como instrumento de dominação ideológica de classe) é superada pelo Evangelho insurgente e revolucionário de Jesus Cristo que torna as pessoas livres (Gl 5.1,13-15) e com vida abundante (Jo 10.10).
O Projeto de Deus, em resumo:
No AT, no processo da luta de classes entre o Estado e os camponeses sem terra escravos, Javé opta pela classe camponesa e a guia na luta coletiva pela terra que é conquistada após a destruição do Estado nas montanhas da Palestina em que a seguir se muda o modo de produção de Tributário para Tribal onde o meio de produção, a terra, passa ao controle da coletividade, a tribo, sem propriedade privada dos meios de produção.
No NT Javé radicaliza e se torna classe camponesa em Jesus de Nazaré com a proposta da construção do Reino de Deus, uma sociedade não classista, igualitária, de irmãos/ãs, sem Estado, sem templo, onde os meios de produção estão sob o controle da coletividade, sem propriedade privada dos meios de produção. Este Reino de Deus já está em vigência desde Jesus Cristo, o que faz com que o capitalismo procure neutralizá-lo e inviabilizá-lo neutralizando e cooptando um de seus atores, a Igreja.

15 de janeiro de 2015

O FIO DA MEADA


Frei Betto

       O ataque terrorista ao jornal “Charlie Hebdo” não foi apenas um gesto tresloucado de dois jovens franceses de fé muçulmana. Ele se origina em um dos últimos capítulos da Guerra Fria: a ocupação do Afeganistão pelos soviéticos (1979-1989). Em 1979, um golpe de Estado levou ao poder afegãos pró-soviéticos.
       Zbigniew Brzezinsky, responsável pela Segurança Nacional dos EUA na gestão Jimmy Carter, viu na ocupação soviética excelente oportunidade de colocar em prática seu mirabolante plano para rechaçá-la e instalar um governo pró-EUA: incrementar o fanatismo religioso contra os “comunistas ateus”.
       Havia alternativas, como grupos nacionalistas afegãos, laicos, que se opunham a Moscou. Porém, a Casa Branca preferiu chocar o ovo da serpente e patrocinar os grupos fundamentalistas reunidos na Aliança Islâmica do Mujahedin (combatente) Afegão, que reagia indignada aos propósitos da infiel modernização soviética, como permitir às meninas acesso à escola...
       Agentes da CIA passaram a incentivar a jihad (guerra santa) contra os soviéticos. A Arábia Saudita, aliada da Casa Branca, se dispôs a doar US$ 20 bilhões para a cruzada da Aliança Islâmica treinar seus fanáticos guerrilheiros e armá-los inclusive com mísseis anti-helicópteros. A CIA desembolsou mais US$ 20 bilhões. Assim, lograriam expulsar os “comunistas ateus” e levar ao poder um governo aliado dos EUA.
       George Bush pai era, desde os anos 60, amigo íntimo de um saudita do ramo da construção: Muhammad Bin Laden, pai de Osama. Após o Afeganistão ser invadido pelos russos, ele propôs ao amigo que seu filho trabalhasse para a CIA, na Arábia Saudita, disfarçado de monitor da ONG Blessed Relief. Logo, o jovem Osama, de 23 anos, foi transferido para Cabul, entusiasmado com a jihad financiada pelos EUA. Através de sua ONG, atraiu 4 mil voluntários sauditas que, no Afeganistão, foram incorporados à Aliança Islâmica – berço do Taliban e, a médio prazo, do Estado Islâmico.
       A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética apressaram a saída das tropas de Moscou do Afeganistão. Porém, os 4 mil voluntários sauditas, ao retornarem a seu país de origem, já não se readaptaram à vida civil. Sem formação política, haviam sido transformados em “máquinas de matar”.
        O rei Fahd ainda tentou cooptar o jovem rebelde Osama Bin Laden. Nomeou-o conselheiro real. Mas ele retornara encantado com a jihad, obcecado em combater os infiéis. No ano seguinte, foi expulso da Arábia Saudita. E em 1996 declarou a jihad contra os EUA.
       Os atos terroristas contra o “Charlie Hebdo” e o supermercado judaico resultaram da política equivocada dos EUA e da Europa Ocidental no Oriente Médio.
       Em 2003, Geoge W. Bush invadiu o Iraque sob pretexto de armas de destruição em massa e alinhamento com Bin Laden. Ao terminar a guerra, os xiitas tomaram o poder no Iraque, para decepção dos EUA, que preferiam os sunitas. Passam, então, a estimular os sunitas a derrubarem os xiitas, também influentes na Síria.
       O gênio escapou da garrafa: os sunitas formaram o Estado Islâmico. O EI agora domina parte da Síria e do Iraque e oferece ao mercado petróleo bem mais barato, angariando uma fortuna.
       Diante do terror, todas as atitudes segregadoras, da islamofobia à “guerra infinita”, são inúteis. O terror é imprevisível. E continuará a sê-lo, enquanto o Ocidente acreditar que a paz resultará da imposição das armas, e não como fruto da justiça e do reconhecimento de que a diversidade de ideias e crenças é um direito - e merece respeito.
Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros livros.
http://www.brasildefato.com.br/node/30991


Avelãs Nunes: Os Blair do mundo são tão terroristas quanto os do Charlie

Tenho acompanhado as imagens e os comentários sobre o massacre na sede do Charlie Hebdo, em Paris. Também eu penso que se trata de um massacre, algo que a civilização não pode comportar. Mas também penso, como alguns (não sei se muitos) outros, que o essencial a discutir, para preservar a liberdade e a civilização, não é propriamente a história trágica dos assassinos e dos assassinados.
Creio que é necessário recordar que foi o terrorismo que, em 1948, expulsou milhões de palestinianos das suas casas e das suas terras. E lembrar que os crimes por terrorismo não prescrevem. E lembrar que um dos mais célebres terroristas desse tempo (Menahem Begin) foi anos depois Primeiro-Ministro de Israel e condecorado com o Prémio Nobel da Paz (como, entre outros, Kissinger, Obama e a UE).
É preciso não esquecer que, desde 1967, Israel ocupa ilegitimamente, território palestiniano e que ninguém, na dita ‘comunidade internacional’, se lembrou de invadir Israel e matar o ‘ditador’, como fizeram com o Iraque. É preciso recordar que esta situação (com a construção ilegal dos colonatos, a construção do ‘muro da vergonha’ e muitas outras vergonhas toleradas (estimuladas e pagas) pelo ‘mundo livre’) constitui uma humilhação para os palestinianos e para o mundo árabe. É preciso não esquecer que a Carta da ONU reconhece aos povos ocupados o direito de resistir à potência ocupante por todos os meios, incluindo a luta armada.
Ninguém (entre os democratas) condena as forças da Resistência pelos atos de ‘terrorismo’ praticados contra o ocupante nazi; os salazarentos chamavam terroristas aos combatentes dos movimentos de libertação que Paulo VI recebeu no Vaticano; o ‘mundo livre’ (vá lá…, uma boa parte dele) chamou terrorista a Nelson Mandela e achou muito bem que ele estivesse preso por não renunciar à luta armada, até chegar à conclusão de que, afinal, aquele ‘terrorista’ era uma referência moral do mundo inteiro.
Talvez o ato mais importante (oxalá decisivo) contra o terrorismo islamita fosse obrigar Israel a cumprir as múltiplas decisões da AG da ONU no sentido de entregar aos palestinianos o território que lhes pertence (e já se deixa de lado o território pilhado pelas ações terroristas de 1948 e antes). Após a constituição do estado da Palestina (com a capital em Jerusalém), então poderia exigir-se a este e ao povo palestiniano que respeitasse a soberania e a segurança do estado de Israel.
Parece-me uma enorme hipocrisia aceitar (como estão a dizer as televisões) que Netanyahu (que comete atos inaceitáveis de terrorismo de estado, muito mais grave do que o terrorismo dos ‘fanáticos’) desfile ao lado dos que protestam contra o terrorismo. Como classificar os bombardeamentos de Israel sobre territórios palestinianos, sacrificando milhares de inocentes? Como classificar os atos do estado de Israel que, recorrentemente, destrói as casas de família dos familiares dos palestinianos que cometem atos de terrorismo contra cidadãos israelitas? Em nenhuma civilização os crimes de uns podem incriminar outros, só porque são familiares do criminoso. E se a vendetta é repugnante quando praticada pela máfia, é muito mais repugnante quando praticada por estados que se querem civilizados. Como seria bom que, depois da barbárie nazi de Guernica e de Oradour crimes destes não se repetissem…
Em consequência de bombardeamentos e outros ataques israelitas, morreram, em 2014, 600 crianças palestinianas da Faixa de Gaza. Terão sido mortas para defender a liberdade de imprensa? Esses mesmos bombardeamentos mataram 17 jornalistas em funções na Faixa de Gaza. Talvez estivessem a abusar da liberdade de expressão. Uma coisa é certa: não se trata de terrorismo, são meros “danos colaterais”…
O que eu penso é que este massacre dos jornalistas franceses é mais um episódio desgraçado de uma guerra global feita pelo e em nome dos interesses do famoso complexo militar-industrial, que não deixou Eisenhower governar segundo a sua vontade, que impôs ao mundo a guerra fria e todas as guerras quentes que fizeram do século XX um inferno e que continuam a marcar o séc. XXI. Em nome desses interesses é que o ‘mundo civilizado’, defensor da liberdade de imprensa, da tolerância e de todas as virtudes republicanas, criou, doutrinou, treinou, armou e pagou (e paga) os bandos terroristas islamitas inventados para expulsar os soviéticos do Afeganistão e depois replicados em várias outras situações.
Foi em nome da tolerância laica e republicana que todas as franças do ‘mundo civilizado’ inventaram o Kosovo (um ‘país’ que dá cobertura a uma base americana, entregue a bandos de terroristas e traficantes de mulheres, de armas, de droga e de tudo o que dê DINHEIRO ) e o entregaram a extremistas islamitas? Foi a defesa da liberdade de imprensa que justificou, aqui há anos (1999, salvo erro), o bombardeamento pela NATO do edifício da televisão sérvia, provocando dezenas de mortos?
Na altura, o porta-voz do Pentágono justificou o ataque invocando que a TV da Sérvia fazia parte integrante da máquina de guerra de Milosevic. Quem se admira que os fanáticos do Islão pensem que o Charlie Hebdofaz parte integrante da máquina de guerra do ‘ocidente’ contra o Islão?
Dos fanáticos não pode esperar-se racionalidade (para já não falar de decência e de humanidade), mas do Pentágono (e da NATO e da ‘Europa’ que apoiou os EUA) temos o direito de exigir racionalidade e respeito pelos valores do homem. Recordo de ouvir então o ‘não-terrorista’ Tony Blair declarar na TV (uma TV boa, com certeza) que a TV sérvia era um alvo militar legítimo. Certamente porque apoiava o Presidente Slobodan Milosevic (que os EUA tinham declarado inimigo) e difundia notícias (até podiam ser inverdades…) que não agradavam ao Sr. Blair e aos ‘civilizados’ dirigentes da NATO.
Como nega agora o Sr. Blair idêntico ‘direito’ aos que se sentem ofendidos com os textos e cartoons publicados pelo Charlie? A liberdade de imprensa da TV sérvia era má e a liberdade de imprensa da Charlie é boa? Quem define, então, o que é bom e o que é mau? Cá por mim, concluo que o Sr. Blair e outros vários Blaires são tão terroristas como os que agora assassinaram os jornalistas do Charlie. Com algumas diferenças: os Tony Blair que, mentindo aos seus povos e ao mundo, fizeram guerra ao Iraque (e depois à Líbia e agora à Síria) mataram centenas de milhar de inocentes; nenhum deles foi morto pela polícia francesa; nenhum deles irá responder no TPI por crimes contra a humanidade.
Pergunto: foi em nome de quaisquer valores dignos do Homem que os Blaires do mundo fizeram a guerra contra o Iraque, contra a Líbia e contra a Síria? Esta guerra não é terrorismo de estado? Os milhões de vítimas que viram as suas vidas destruídas e os seus países destruídos não são vítimas de nenhum terrorismo? Então são vítimas de quê? Ou morreram de morte natural?
Quem criou e armou o bando dos “Amigos da Síria”? Estes ‘amigos’ não serão agora os ‘amigos do “estado islâmico”? Como em tantas outras situações da vida, o feitiço parece voltar-se agora contra o feiticeiro… Dramaticamente, talvez os ‘terroristas islamitas’, criados, doutrinados e pagos pelo ‘império’ atuem, sem se dar conta disso, por conta desse mesmo ‘império’, em todos os ‘estados islâmicos’ do mundo, em todas os ataques contra todos os Charlies em qualquer parte do mundo (no Mali, na Nigéria, na República Centro-Africana…).
E o que se passa na Ucrânia, entregue a bandos fascistas e facínoras, depois de um processo de luta que não seria tolerado em nenhuma capital europeia, nem mesmo em Lisboa (quem se esquece do gravíssimo atentado à democracia cometido pelos polícias que subiram umas quantas escadas que dão acesso ao edifício da AR?). O massacre cometido na Casa dos Sindicatos de Odessa não foi um ato terrorista? Quantos milhões de pessoas se manifestaram contra ele? Os jornalistas assassinados merecem todo o respeito e toda a solidariedade do mundo. Mas os que foram chacinados na Casa dos Sindicatos de Odessa não merecem idêntico respeito e solidariedade?
Quero deixar claro que, a meu ver, um ato de terrorismo não legitima (não torna lícito moralmente) outro ato de terrorismo. O terrorismo não pode justificar-se à luz da civilização. Mas talvez ajude a compreendê-lo (o sono da razão gera monstros!). O que é certo é que nenhum dos ‘terroristas’ comprometidos com os massacres no Iraque, na Líbia e na Síria vão ser chamados ao TPI, criado para ‘julgar’ os que  são de antemão considerados os maus. E os crimes cometidos pelos que estão do lado dos bons não são crimes, são atos de heroísmo praticados em defesa da democracia.
Esta ‘Europa civilizada’, que nos brindou (a nós e aos espanhóis) com trinta anos suplementares de fascismo, deu cobertura às prisões clandestinas semeadas pelos EUA em território europeu, verdadeiros Guantanamos onde muitas pessoas (quantas?) estão presas e são torturadas, anos a fio, sem culpa formada, sem acesso a advogado, sem contacto com a família, só porque os serviços secretos americanos decidem que assim seja (para combater o ‘terrorismo internacional’, é claro). Estes são crimes que deveriam envergonhar todos os defensores da liberdade, incluindo da liberdade de imprensa, em nome da qual, penso eu, os grandes órgãos da comunicação social silenciam estes e outros atos de terrorismo, as políticas sistemáticas e continuadas de terrorismo levadas a cabo por todos os Bush, por todos os Obama, por todos os Hollande-Sarkozys do mundo.
Por alturas do ataque às torres gémeas, o jornalista Francisco Sarsfield Cabral escreveu (no Público, creio) uma nota em que concluía mais ou menos deste modo: dizem agora que o mundo vai dar combate ao terrorismo internacional; pois bem: eu fico à espera para ver o que vai acontecer aos paraísos fiscais, por onde passa todo o tráfico de armas, drogas, mulheres, etc., e por onde passam as operações de financiamento do terrorismo internacional; se nada lhes acontecer, terei de concluir que o mundo, afinal, não quer combater o terrorismo internacional. Pois bem. O que aconteceu aos paraísos fiscais? O negócio corre de vento em poupa, cada vez mais próspero.
Olhando para a nossa Europa. Queremos maior atentado contra a democracia, contra a inteligência e contra a decência do que o desgraçado slogan tatcheriano NÃO HÁ ALTERNATIVA (TINA)? Querem maior obscurantismo do que isto? Isto não é uma nova Inquisição? Não é em nome deste dogma que se estigmatizam todos os que não concordam com ele e persistem em proclamar a sua fé na liberdade de pensamento dos homens? Não é em nome deste dogma que se vêm aplicando as políticas de austeridade salvadora, humilhando povos inteiros, num retrocesso civilizacional perigosíssimo? Não são estes dogmas que impõem os tratados orçamentais, com todas as suas ‘regras de  ouro’ e outras de metais menos nobres, que matam a soberania dos povos da Europa e reduzem os ‘povos do sul’ a um indisfarçável estatuto colonial? Não são estes dogmas que, matando a soberania nacional, estão a liquidar o único quadro dentro do qual pode lutar-se pela democracia, pela liberdade, pela civilização? Estas ‘políticas terroristas’ não justificarão muito mais a unidade de todas as franças da Europa e do mundo contra aqueles que friamente as aplicam todos os dias e não apenas no desgraçado dia do massacre dos cartunistas doCharlie Hebdo? Não são estes os dogmas que todos os dias amordaçam a liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa? Se metermos bem a mão na consciência, teremos de responder que sim: estes são os dogmas do pensamento único.
Para não remar contra a maré, eu sou Charlie. Estou do lado dos que foram assassinados, não estou do lado dos assassinos.
Mas estou também do lado de Mona Chollet, a jornalista do Charlie Hebdo que foi sumariamente despedida em 2000 por protestar contra um artigo do editor da revista (Phillipe Val) que chamava “não civilizados” aos palestinianos: então, a ‘liberdade de imprensa’ foi invocada para despedir uma jornalista, tendo-se conservado no seu posto o editor, substituído apenas em 2009 por Stéphane Charbonier, agora assassinado.
E estou igualmente (que bom se estivéssemos todos…) do lado dos 34 estudantes que foram barbaramente sequestrados, torturados e assassinados pelas ‘autoridades’ mexicanas por quererem manifestar publicamente as suas opiniões. E estou do lado dos sindicalistas massacrados em Odessa. E estou do lado das vítimas do terrorismo praticado em todos os ‘civilizados’ guantanamos do mundo. E estou do lado de todas as vítimas do terrorismo, desde as vítimas do terrorismo de estado (“danos colaterais” de bombardeamentos ou vítimas de drones criminosos) às vítimas do fanatismo de todas as religiões e às vítimas do sectarismo classista das políticas praticadas em nome do argumento TINA, que vêm empobrecendo e humilhando povos inteiros nesta nossa europa do euro.
Uma coisa é certa, para mim: ao contrário do que disse o nosso primeiro ministro, em todas estas ‘guerras terroristas’ quem se lixa é mexilhão! Mexilhões de todo o mundo, uni-vos!
António Avelãs Nunes
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/antonio-avelas.html