“Deus seja louvado” papageia o presidente do quintal dos USA em nossa moeda nacional numa imitação sem imaginação ao “In God we trust” da moeda imperialista mundial. O mesmo presidente escritor cacique do estado de menor IDH do país junto com o estado de outro político pilantra expulso da presidência por ‘malversação do dinheiro público’, que é uma expressão mais nobre e civilizada para ladroagem.
Na reimpressão atual em novo formato e desenho de nossa nobre moeda real o insulto a Deus e a heresia continuam. Afinal a social democracia é uma forma mais moderna de reverenciar o capital: algumas políticas compensatórias para acalmar o povão e políticas de estado para garantir aos capitalistas o seu sagrado lucro.
Afinal, que deus seja louvado? O Deus (em maiúsculo) ou o deus (em minúsculo)? Esta é a idéia: a dúvida. Na verdade é o deus (em minúsculo) da civilização cristã ocidental. Jesus Cristo? Não, o capital.
Assim, se louva deus (em minúsculo) pela história brasileira afora. Louva-se o Deus (em maiúsculo) na forma do deus (em minúsculo). É só uma questão de escrita, coisa pouca.
O deus (em minúsculo) é louvado desde 1500 aparentando ser o Deus (em maiúsculo). O Deus (em maiúsculo) não requer mais sacrifícios, pois o seu sacrifício foi único na cruz do Gólgota por nós. No entanto, o deus (em minúsculo) requer sempre e continuados sacrifícios de seus adoradores e não adoradores sacrificados no altar do deus capital, que é o deus (em minúsculo) maior da trindade composta pelo dinheiro, pela mercadoria e pelo capital. Vemos, pois muitas semelhanças entre o Deus (em maiúsculo) e o deus (em minúsculo) e uma delas é a trindade.
Conta-nos o Eduardo Galeano no primeiro livro de sua trilogia: Memória de Fogo, o livro Os Nascimentos (seguido por As caras e as máscaras e O século do vento – que é semelhante ao livro: Espelhos, que fala da história universal; a trilogia fala da história das Américas, em textos curtos):
“HATUEY
Nestas ilhas, nestes humilhadeiros, são muitos os que escolhem sua morte, enforcando-se ou bebendo veneno junto aos seus filhos. Os invasores não podem evitar essa vingança, mas sabem explicá-la: os índios, tão selvagens que pensam que tudo é comum, dirá Oviedo, são gente de natural ociosa e viciosa, e de pouco trabalho ... Muitos deles por ser passatempo, se mataram com peçonha para não trabalhar, e outros se enforcaram com suas próprias mãos.
Hatuey, chefe índio da região da Guahaba, não se suicidou. Em canoa fugiu do Haiti, junto aos seus, e se refugiou nas covas e montes do oriente de Cuba.
Ali apontou uma cesta cheia de ouro e disse:
- Este é o deus dos cristãos. Por causa dele nos perseguem. Por ele morreram nossos pais e nossos irmãos. Bailemos para ele. Se nossa dança o agradar, este deus mandará que não nos maltratem.
É agarrado três meses depois.
E amarrado em um pau.
Antes de acender o fogo que o reduzirá a carvão e cinza, um sacerdote promete-lhe glória e eterno descanso se aceitar batizar-se. Hatuey pergunta:
- Nesse céu estão os cristãos?
-Sim.
Hatuey escolhe o inferno e a lenha começa a crepitar.”
Este sábio chefe indígena acertou em cheio o alvo ao entender que o deus (em minúsculo) dos cristãos é o ouro, hoje se diria: o capital. Quem é contra este deus (em minúsculo) sedento de vingança e de sacrifícios vai arder no fogo da Santa Inquisição, que ainda hoje persiste, não mais em ardentes fogueiras, mas em desprezo, no melhor dos casos, no pior dos casos paga a sua heresia na prisão e morre sob tortura ou assassinato perpetrado pelo Estado Democrático e de Direito; afinal o mundo é hoje uma enorme democracia! O melhor exemplo de democracia (em minúsculo) são os USA onde o ex-presidente Bush ordena do alto de seu trono de glória que a tortura agora será mais humana. A ordem é humanizar a tortura!
Enquanto isso a social democracia humaniza a exploração!
Seguem alguns exemplo da humanização da tortura diária da classe trabalhadora perpetrada pelo capital e legitimada pela democracia (em minúsculo) do Estado de Direito em nossa república (em minúsculo).
Vilma Fátima Favero, “encostada” aos 42 anos, trabalhava na Seara de Sidrolândia, no interior do Mato Grosso do Sul, como “ajudante agropecuária”. “A gente separa os pintos, põe na caixa, vacina, forma o lote e põe no caminhão”. Cada trabalhador coloca milhares de pintos por hora nas caixas. Cada caixa tem cem aves. “Tinha gente que não agüentava e desmaiava, pois muitas vezes se varava a noite. Começava às duas da tarde e largava por volta da meia noite. Muitas vezes passava do horário, pois eram 130 mil pintos e apenas quatro pessoas para sexar. Se alguém faltava era pior, o trabalho acumulava para ser dividido entre quem se encontrava. O ritmo aumentava ainda mais, insuportável”. Hoje tem tendinite e cinco hérnias de disco por causa do trabalho repetitivo e extenuante.
Os custos sociais que envolvem a produção não estão sendo computados pela Previdência. Um levantamento realizado pelo sindicado dos trabalhadores das empresas do estado de Santa Catarina demonstrou que a Sadia contribuiu com 30 milhões ao INSS, no período de 2003 a 2007, e que, em contrapartida, o INSS desembolsou 170 milhões em benefício previdenciário, seja como afastamento do trabalho, aposentadoria por invalidez, etc.
Quando as metas de trabalho não eram atingidas, uma sirene é acionada, avisando que há algo errado. Nesses casos, muitos trabalhadores chegavam a ter reações de pânico, de intensa ansiedade e ficavam agitados só de ouvir qualquer barulho que se assemelhasse a uma sirene, mesmo fora do ambiente de trabalho. Ao cobrar metas, as chefias tratam os funcionários de maneira ofensiva para instaurar o medo no ambiente de trabalho. Eles, por sua vez, muitas vezes não conseguem atender às suas necessidades básicas como ir ao banheiro, tomar água, ir ao atendimento médico da empresa.
O medo tem um papel muito forte para manter os trabalhadores na produção.
Temos de mostrar à sociedade o que está ocorrendo com os trabalhadores nos frigoríficos, os crimes sem castigo que estão sendo cometidos de forma indiscriminada. Quando se fala em aquisição de empresas, fusão, se pega dinheiro público, recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, do BNDES, sem que o governo garanta nenhuma contrapartida social. Assim, enquanto enriquecem, estas empresas espalham a dor, com lesões muitas vezes irreversíveis, mutilações, e mandam o trabalhador para a Previdência. Isso precisa acabar. Presidente da Contac/CUT, Siderlei de Oliveira
“Para se tornarem competitivas internacionalmente, e exportarem quatro milhões de toneladas, as empresas estão provocando enfermidades em larga escala devido à altíssima repetitividade e freqüência dos movimentos ao longo da jornada. Assim é que após 1995 começou a aparecer o adoecimento em larga escala de punhos, braços, cotovelos e ombros. Sem descanso, pelo ritmo intenso a que estão sendo submetidas, as articulações são danificadas” Paulo Serro, auditor fiscal de Santa Catarina
Técnica coordenadora de Saúde do Trabalho da Fundacentro em São Paulo, Thais Helena Carvalho Barreira lembra que o trabalho nos frigoríficos avícolas contém praticamente tudo o que os compêndios médicos colocam como caldo de cultura para o aparecimento das LER/DORT: “repetitividade, força, postura inadequada, frio, umidade, pressão, atrito, problemas no mobiliário”. Thaís lembra que, além do imenso custo humano e social que representa a continuidade da atual situação, há também um enorme custo econômico para a sociedade e para o Estado, que acaba pagando, através da Previdência, por males causados pelas práticas daninhas destas empresas.
“Para a Seara, os trabalhadores são peças de reposição. Não se importam com a qualidade de vida das pessoas, estão sempre sugando, sugando. Assim, antes de emitirem o Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT), que poderia garantir a estabilidade, eles já demitem”, denuncia a advogada Valdira Ricardo Galo Zeni. Acompanhando há dez anos as práticas da empresa na cidade, Valdira alerta que o grande problema das doenças ocupacionais é que não são visíveis: “eles estragam, dispensam e põem outro no lugar. As mulheres, por exemplo, acabam perdendo o movimento dos membros superiores e sequer conseguem pegar o filho no colo ou mesmo fazer um simples trabalho doméstico”.
“Eu trabalhava (na JBS Friboi) na triparia tirando o sebo com a tesoura para cozinhar e embalar. É questão de segundos e vai caindo tripa e mais tripa, o que deixa muita gente doente pelo ritmo. Lá dizem que tem 70 trabalhadores, mas se trabalham 40 é muito porque muitos acabam pegando atestado por não suportar o ambiente ou estão encostados na Previdência. E aí quem fica ali tem que dar conta do serviço todo e se arrebenta”, explica Verônica. Passados dois anos, o assédio moral convertido em “pressão psicológica” para cumprir metas cada vez mais inatingíveis rendeu bons resultados para a empresa, que vitaminou suas exportações, enquanto a trabalhadora foi uma das que ficou com o prejuízo. O laudo de verônica aponta para a existência de um edema, além de “bursite subacromial” e “tendinite do supraespinhal e subescapular” que a incapacitam para o trabalho.
“Agora, a empresa diz que não têm nada com isso. Mas não foi lá que adquiri estas lesões? Se a gente chegava com um atestado de 15 dias, tiravam dez e só davam cinco, com o médico da empresa remanejando de função, fazendo as pessoas trabalharem doentes. Então, de quem é a culpa?”, questiona a operária. Recebendo do INSS “auxílio-doença”, já que “a JBS tem como norma não reconhecer o acidente de trabalho”, Verônica vem pagando consultas e remédios do próprio bolso. “Não consigo tirar ou vestir a blusa, pentear o cabelo ou erguer o braço”, desabafa.
A Foxconn é uma empresa de ponta de Taiwan do novo capitalismo mundial – associada à Revolução Informacional, porém, com padrões de trabalho que a situa na pré-Revolução Industrial. Capitalismo do século XXI com exploração do trabalho do século XIX. Em 2010, 13 trabalhadores da sua unidade em Shenzhen (China) cometeram suicídio. A empresa é conhecida pelas regras duras que impõe a seus trabalhadores. “Não temos permissão de falar ao trabalho”, diz Wang Cui. “Trabalho de segunda a sábado, 12 horas por dia”, diz Zhang Feng, 20, que também faz parte do controle de qualidade. Cada dia de trabalho tem duas horas extras obrigatórias e os sábados também contam como hora extra. “Assim, são quase 20 horas extras por semana”, diz Zhang, “e um total de 80 por mês”.
O cacique Hatuey morreu na fogueira pedindo para ir para o inferno, já que os “cristãos” estavam no céu e hoje a classe trabalhadora é “fritada” no processo de produção infernal.
Enquanto isso para salvar o valioso capital (o deus da maioria dos cristãos) nos conta o noticiário:
02/09/2011 - O governo vai deixar de arrecadar R$ 24,5 bilhões até julho de 2013. Indústrias de confecção, calçados, móveis e softwares não pagarão mais a contribuição de 20% para a Previdência Social. Somente o subsídio que o Tesouro Nacional deverá aportar à Previdência Social, em função da desoneração da folha de pagamentos do projeto piloto anunciado pelo governo, custará cerca de R$ 1,3 bilhão anuais. Terão a alíquota previdenciária de 20% zerada sobre a folha de pagamento os setores de confecções, calçados, móveis, e tecnologia da informação. "Isso significa que esses setores terão um ganho. Essa desoneração é importante para regularizar o emprego e combater a informalidade. Essa medida tem um impacto neutro na Previdência Social", afirmou o ministro Guido Mantega (Fazenda). Exportadores de bens industrializados receberão de volta até 3% do ganho com a exportação. É uma compensação pelos impostos pagos ao longo da produção. O governo vai reduzir impostos sobre a compra de máquinas, equipamentos para a indústria, materiais de construção, caminhões e veículos. As medidas são para fortalecer a indústria nacional e tornar as empresas mais competitivas no mercado internacional.
02/09/2010 - O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, afirmou nesta quinta-feira (2) que o Brasil deixou aproximadamente R$ 21 bilhões de arrecadar durante a crise financeira internacional, que atingiu o auge em setembro de 2008 e prejudicou o desempenho das principais economias do mundo em 2009. Para superar a crise, o governo isentou de impostos ou reduziu a carga de alguns segmentos do setor produtivo, como veículos, eletrodomésticos, materiais de construção, móveis, entre outras.
O mundo vive uma forte ofensiva neoliberal, que utiliza o endividamento como principal instrumento de chantagem, para que governos de todo o mundo, do Sul e do Norte, cortem gastos sociais, privatizem as empresas estatais e retirem direitos duramente conquistados pelos trabalhadores.
Para o capital tudo, para a classe trabalhadora a invalidez permanente após 5 a 10 anos de trabalho nos frigoríficos.
Nos tempos da Conquista capturavam-se os povos para escravizá-los para construírem a base para fazer a acumulação primitiva do capital. Nos tempos que correm os escravos são voluntários, se oferecem de graça para o carrasco sacrificá-los no altar do capital, pois não tem mais a opção de fugir para o mato e se esconder dos conquistadores modernos. Não apenas são voluntários para o ritual do auto-sacrifício como ainda defendem este sistema de sacrifício e a teologia do deus capital convencidos que não há saída, pois só existe o capitalismo como forma de organizar a vida e a sociedade. Enquanto isso a igreja cristã (em minúsculo) não tem a capacidade de dizer que já há 2 mil anos há outra proposta para organizar a vida e a sociedade anunciada por Jesus Cristo que é o Evangelho do Reino de Deus que propõe a construção de uma nova sociedade não capitalista.
Mas, como os teólogos adoram Deus, em maiúsculo, na forma e essência do deus, em minúsculo, não conseguem entender o Evangelho de Jesus Cristo que é subversivo por excelência e na sua essência. Os teólogos de deus (em minúsculo) estão aí para legitimar e perpetuar o sacrifício do povo no altar do deus (em minúsculo) dizendo que estão interpretando a mensagem do Deus (em maiúsculo). Assim, o Deus (em maiúsculo) virou deus (em minúsculo) dizendo que continua sendo o Deus (em maiúsculo). Este deus metamorfoseado está aí para dizer que não há esperança, que o presente é o nosso futuro, portanto não há futuro. O presente se apresenta como trabalho extenuante e repetitivo que invalida permanentemente após poucos anos mesmo sendo a vítima jovem. É especialmente de jovens que o deus capital se alimenta em seus sacrifícios; os velhos não servem mais para alimentar a fornalha industrial: carne lenta, fraca, flácida e dura. Como diria Dante na Divina Comédia: “Ai de vós ó condenados, deixai aqui toda esperança”.
Para aqueles que seguem a teologia do deus (em minúsculo) só resta repetir com Dante: “Ó condenados, Ai de vós!”, porque o deus capital não nos apresenta nenhuma esperança, por mais que nos distraia com o consumo de mercadorias (que a esmagadora maioria não pode comprar com seu parco salário) para nos iludir com efêmera felicidade.
Para que o escrito no papel moeda nacional se torne realidade, repitamos: Deus seja louvado! e o inferno se alegrará, não com a chegada do cacique Hatuey, que certamente não está lá, mas com a chegada dos cristãos cujo deus verdadeiro é o ouro dentro da cesta, como já nos advertia Jesus, o Cristo, em Mt 6.24: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”.
A questão é: o que fazer com esta igreja (em minúsculo) que legitima o deus capital e não permite que este seja questionado e muito menos eliminado? O que fazer com esta igreja (em minúsculo) que não consegue enxergar ou não quer enxergar a classe trabalhadora sendo aniquilada no processo de trabalho para que a indústria nacional (composta também por multinacionais) possa competir no mercado internacional? Os trabalhadores escravos antes de 1888 duravam entre 15 e 20 anos, os/as trabalhadores/as nos frigoríficos de hoje duram apenas entre 5 a 10 anos e são inválidos permanentemente para o trabalho e para uma vida saudável e digna. Mas acima de tudo: Deus seja louvado! e o povo iludido pela fé no deus (em minúsculo) que promete milagres e curas das doenças geradas pelo próprio deus capital e não esquecer do circo do futebol. Fé como alienação plena. Tudo Religião, nada de Evangelho! Enquanto a igreja (em minúsculo) reproduz Religião não teremos Evangelho nela. Outra purificação do Templo faz-se necessária! Jo 2.13-22.
Toda sociedade construída em cima de classes sociais mata para sobreviver e se reproduzir. O rei Acabe (classe dominante) mata o camponês Nabote (classe dominada) que se recusa a transformar a terra em mercadoria, pois defendia o modo de produção Tribal e não o Tributário do qual o rei era defensor. Então nada de anormal dentro do capitalismo quando ele mata de tanto trabalhar a classe trabalhadora e mata nas guerras para garantir os recursos naturais que considera valiosos. A morte é a essência de toda sociedade de classes. Por isso a Bíblia propõe uma nova sociedade sem classes sociais baseada na vida abundante (Jo 10.10) que Jesus chama de Reino de Deus. A pessoa cristã batizada tem a tarefa de buscar este reino e a sua justiça e não o reino do capital do presente baseado na morte. Uma das tarefas da Igreja (em maiúsculo) é denunciar o capitalismo como instrumento do diabo que quer se arrogar o direito à divindade. O interessante na igreja cristã (em minúsculo) é que se alguém põe o capitalismo em cheque as pessoas se escandalizam, e, se for pastor/a, vai ser mandado embora da paróquia porque ousou questionar o deus capital, o deus verdadeiro da maioria dos cristãos, que mesmo assim continuam dizendo que Jesus Cristo é seu Deus. Mas, Jesus já disse em Mt 7.20: “pelos seus frutos os conhecereis”. Os frutos do capitalismo são a morte isto está mais que comprovado. Paulo lembra em Rm 6.2 que: “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. O sistema capitalista está construído em cima e a partir do pecado, pois se constrói a partir do roubo de parte do trabalho não pago que gera o capital. A origem do capital está no roubo da mão de obra não paga e no roubo das riquezas dos povos dominados. Roubo, segundo a Bíblia, é pecado; tem até um mandamento relacionado a este fato. A essência do capitalismo é o roubo. Rouba-se trabalho, saúde, riquezas e vidas humanas.
Enquanto isso: Deus seja louvado! porque existe uma outra possibilidade de organizar a vida e a sociedade que Jesus chama de reino de Deus que sempre aponta para a construção de uma nova sociedade não capitalista.
Mas tem sempre um Miquéias que no cap. 3 nos lembra:
“Ouvi, agora, vós, cabeças de Jacó, e vós, chefes da casa de Israel: Não é a vós outros que pertence saber o juízo? Os que aborreceis o bem e amais o mal; e deles arrancais a pele e a carne de cima dos seus ossos; que comeis a carne do meu povo, e lhes arrancais a pele, e lhes esmiuçais os ossos, e os repartis como para a panela e como carne no meio do caldeirão?” Isto encaixa bem no que se refere aos trabalhadores/as dos frigoríficos. Procurem assistir o documentário: Carne e osso, para entender isto melhor.
O profeta Isaías 5.20 não nos deixa esquecer que juízo haverá: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!”
Ai da igreja (em minúsculo, que se diz ser em maiúsculo) que se conforma com este século (Rm 12.2) e o reproduz em sua teologia e em seu medo de enfrentar o capital e seus representantes que estão infiltrados também na direção desta igreja e nos seus quatro ministérios.
O Ap 19.17-18 nos lembra do grande banquete do juízo: “Então, vi um anjo posto em pé no sol, e clamou com grande voz, falando a todas as aves que voam pelo meio do céu: Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para que comais carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e seus cavaleiros, carnes de todos, quer livres, quer escravos, tanto pequenos como grandes”.
"Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." (Jo 8.32)
6 de novembro de 2011
5 de novembro de 2011
A luta de classes é o motor da história.
Para Marx a luta de classes é o motor da história.
“A história da Sociedade se confunde até hoje com a história das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e companheiro, em outros termos, opressores e oprimidos em permanente conflito entre si, não cessam de se guerrearem em luta aberta ou camuflada, luta que, historicamente, sempre terminou ou numa reestruturação revolucionária da Sociedade inteira ou no aniquilamento das classes em choque”. (O Manifesto Comunista. Marx e Engels, 1848)
“O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência”. (Prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política". Karl Marx)
“Em qualquer época histórica, a produção econômica e a estrutura social, que dela necessariamente decorre, constituem a chave da história política e intelectual dessa época”. (Prefácio à edição alemã de 1883 do Manifesto Comunista. Friedrich Engels)
As pessoas pensam a partir daquilo que fazem. Por isso a maioria dos cristãos é capitalista porque pensam a partir de sua prática econômica. A sua prática econômica determina a sua teologia/ideologia invalidando assim o Evangelho de Jesus Cristo que propõe o Reino de Deus como objetivo primeiro e último. A maioria dos cristãos não organiza a sua vida conforme o Evangelho de Jesus Cristo, mas conforme a dinâmica do capitalismo, vivendo como se não houvesse outra proposta a não ser o capitalismo. A partir disso dá para entender que a maioria dos cristãos segue a Ditadura do Pensamento Único que legitima o capital que diz que não há outra forma de organizar a sociedade além do capitalismo. No entanto, há outra proposta de organizar a vida além do capitalismo que é o Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus Cristo, o Deus encarnado em Jesus de Nazaré da classe camponesa palestina. Em vez da maioria dos cristãos defenderem o projeto do Reino de Deus defendem com unhas e dentes o capitalismo, negando o seu batismo.
Vamos ver como acontece a luta de classes na Bíblia e como ela determina a ação de Javé:
Dt 6.20-23: “Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito e contra Faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais”.
Aqui vemos como a luta de classes é o motor da história do povo de Deus. Javé é reconhecido na luta de classes ao optar pela classe oprimida: a classe camponesa sem terra escrava no Egito. “Eu sou o que sou”, diz Javé para Moisés em Ex 3.14. Significa: eu sou o que faço. O que Javé faz? Ele se coloca na luta de classes ao lado dos oprimidos, junto à classe oprimida e contra a classe opressora. A teologia de Javé é determinada pela sua prática a partir da luta de classes que há na sociedade. E sua prática é lutar contra os opressores e seu projeto de dominação propondo com isso uma nova proposta de sociedade construída a partir dos oprimidos libertos: uma sociedade sem classes sociais (Dt 15.4: para que entre ti não haja pobre), sem estado, sem templo (templo é coisa do estado para legitimar a opressão da classe que controla o estado; por isso foi o Templo de Jerusalém que prendeu Jesus e o condenou à morte em aliança ao estado romano. “Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos”, diz o Credo Apostólico. O templo e o estado mataram Jesus. No período do deserto havia o tabernáculo, a tenda da congregação, que era móvel, onde se realizava o culto a Deus e a Assembléia Popular da qual todos podiam participar e propor, também as mulheres, conforme Nm 27), onde não há propriedade privada dos meios de produção, pois a terra é posse da tribo e do clã (a terra é de Deus; Lv 25.23: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos”; terra não é propriedade privada é para uso; vende-se o seu uso por determinado tempo: vende-se o número de colheitas e não a terra. Lv 25.14-16: “Quando venderes alguma coisa ao teu próximo ou a comprares da mão do teu próximo, não oprimas teu irmão. Segundo o número dos anos desde o Jubileu, comprarás de teu próximo; e, segundo o número dos anos das messes, ele venderá a ti. Sendo muitos os anos, aumentarás o preço e, sendo poucos, abaixarás o preço; porque ele te vende o número das messes”.), todos tem acesso aos meios de produção: a terra (até as mulheres Nm 27) e a luta contra os deuses cananeus que legitimavam o modo de produção tributário. Cada deus tem a sua teologia e a sua prática. Os deuses cananeus eram os deuses da fertilidade que defendiam uma sociedade de classes: camponeses e o estado. Os camponeses adoravam os deuses da fertilidade na esperança de boas colheitas para que pudessem pagar os tributos ao estado e não passar fome. O Deus Javé tem a sua teologia baseada no desmonte desta sociedade amparada pela religião que legitima a sociedade de classes para garantir o tributo ao estado. O que para a teologia dos deuses cananeus é legítimo para Javé é opressão. A teologia dos deuses cananeus é cimentar a sociedade de classes e a teologia de Javé é desmontar a sociedade de classes. Como nos relata o livro de Juízes: cada vez que o povo de Israel seguia os deuses cananeus vira refém desta sociedade classista e era saqueado e oprimido, pois os deuses cananeus permitem e se constroem em cima da sociedade de classes baseada no saque, na escravidão e na opressão. Por isso os Dez Mandamentos começam dizendo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. Esta é a teologia e a prática de Javé. Como a luta de classes é o motor da história Javé muda a direção da história a partir desta luta de classes. Javé muda a história em favor dos oprimidos: esta é a sua teologia e a sua prática. A teologia dos falsos deuses cananeus é manter a sociedade como está.
A teologia do falso deus capital de hoje também é tentar manter a sociedade classista eternamente como está, por isso os seus teólogos pregam o fim da história, pois não existe outra proposta de sociedade além do capitalismo. O interessante do deus capital é que ele é um deus leigo, que não se diz sagrado, não requer ritos prescritos oficialmente, nem tem teologia oficialmente defendida e definida, nem requer culto com liturgia determinada de seus adoradores, não precisa de templos, mas de fato tem sua teologia, tem seus templos (não tidos como tais: os shoppings centers, onde nos fins de semana seus adoradores vão adorar um dos elementos da trindade: a mercadoria) e seus ritos religiosos, como o consumo e a adoração da mercadoria como algo sagrado, pois é no processo da produção da mercadoria que se dá o processo de exploração do mais valor, do lucro. Adorando a mercadoria se adora o lucro, o capital. A mercadoria produzida pelo trabalhador vale mais que aquele que a produziu, apesar de que somente o trabalhador (que no processo também vira mercadoria que se compra e se vende no mercado de trabalho) tem a capacidade de gerar lucro. O lucro surge a partir do roubo do tempo de trabalho feito, mas em parte não pago à classe trabalhadora. O deus capital se compõe da trindade: dinheiro, mercadoria, capital. O deus capital é muito dinâmico e maleável e se insere na religião cristã assumindo o lugar de Javé. As pessoas adoram Jesus Cristo na forma de adorar o deus capital achando que estão adorando Jesus Cristo. Transformam a teologia do deus capital na teologia de Jesus Cristo. Para muitos cristãos questionar o deus capital é questionar o próprio Jesus Cristo. É a metamorfose do deus capital que se transforma em Jesus Cristo, mas tem a sua teologia e prática mantida como da do deus capital. É o diabo assumindo a forma de Jesus Cristo e sendo adorado como Jesus Cristo. As pessoas adoram este Jesus Cristo que na verdade é o diabo metamorfoseado de Jesus Cristo. Assim, Jesus Cristo se transforma no legitimador do deus capital, sendo escravo do deus capital e executor da vontade do deus capital, vira satélite do deus capital, sem vontade própria. Isto se chama de idolatria: adorar a Jesus Cristo de forma falsa. Isto explica todo o processo da Conquista das Américas onde a religião cristã (falo em religião cristã e não em Evangelho de Jesus Cristo, que é outra coisa) era usada como instrumento de dominação, matança e escravidão. A missão cristã que os portugueses e espanhóis vinham fazer nas Américas era na verdade missão do deus capital metamorfoseado de Jesus Cristo. Falava-se de Jesus Cristo, mas a prática sócio-econômico-política-cultural era do deus capital. Era tudo Religião e nada de Evangelho. A teologia era de Jesus Cristo adaptada à prática do deus capital e desta forma também a teologia se tornava a teologia do deus capital metamorfoseada de Evangelho de Jesus Cristo. Por ser tão complicado as pessoas não conseguem ver o que é de fato o verdadeiro culto a Deus. O culto que normalmente as pessoas praticam é na verdade o culto ao deus capital achando que é dirigido a Jesus Cristo.
Paulo diz em 1 Co 1.18: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus”. Deus se revela na cruz de Cristo na luta de classes entre o Templo de Jerusalém aliado ao império romano e os camponeses. Isto é loucura como Religião, mas como Evangelho isto é poder de Deus. A opção de Javé em Jesus Cristo na cruz é pura loucura, pois mostra de que lado Deus está: do lado e com os camponeses crucificados pelo sistema econômico escravista mantido pelo estado romano opressor. Em Jesus de Nazaré Deus se fez classe camponesa e conseqüentemente luta contra o estado romano conforme dizem as acusações feita a ele em Lc 23.2,5: “Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei. Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde começou, até aqui”. O Deus encarnado no camponês Jesus de Nazaré, periferia de Israel, luta contra o Estado (padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos) como em Dt 26.20-23 luta contra o Faraó, representante da classe do Estado egípcio. A teologia da cruz de Paulo aponta para esta opção de Deus na luta de classes, pois os seus seguidores sempre serão perseguidos pelo Estado, como o foram os primeiros cristãos por não adorarem o Estado como sendo divino. Hoje muitos cristãos colocam o capitalismo como sendo divino por não aceitarem qualquer possibilidade de eliminá-lo dentro da proposta de Jesus do Reino de Deus. Dentro da teologia da cruz está a opção revolucionária de Deus como diz em 1 Co 1. 28-29: “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus”. Na luta contra o Estado divinizado (Gn 11.4) que legitima o sistema econômico opressor construído a partir da sociedade de classes o crente é crucificado. Enquanto estivermos vivendo numa sociedade de classes Deus estará com a classe oprimida para organizá-la para acabar com esta sociedade de classes onde o estado é o aparelho legitimador e de direito da classe opressora. Enquanto estivermos vivendo numa sociedade de classes o cristão será crucificado na luta contra esta sociedade de classes.
Martim Lutero fala da teologia da cruz quando fala da Ceia do Senhor:
"A primeira pergunta: 'Por que tu tomas o Sacramento?'
Resposta: 'Por que sou um co-herdeiro e tenho comunhão com Cristo, com todos os queridos santos e com todos os cristãos pie¬dosos, para junto com ele sofrer e morrer'".
O cristão vai ser crucificado e morrerá por causa da luta pelo Reino de Deus que é o Projeto de Deus de uma sociedade igualitária em oposição à sociedade de classes vigente. A instituição da Ceia do Senhor por Jesus Cristo coloca as bases de uma nova sociedade igualitária onde todos são irmãos e irmãs a partir do batismo e da fé em Jesus Cristo e concidadãos do reino, portanto uma sociedade sem classes sociais. Numa sociedade de irmãos (1 Ts 5.25-26; 2 Ts 1.3) não há classes sociais e nem mecanismos de opressão de classe, como é o estado.
Paulo fala em 1 Co 1. 28-29 “para reduzir a nada as que são”, isto significa mudar a sociedade que está construída sobre o modo de produção opressor. No tempo de Paulo ‘as coisas que são’ é o Império Romano aliado ao Templo de Jerusalém que será destruído pelo que nada é; como de fato aconteceu em 476, pelos que eram considerados nada, os chamados: bárbaros. É o que ele diz em Rm 12.2: não se conformar com este século, não se deixar moldar pela sociedade de classes. Quando a comunidade cristã se deixa moldar pela sociedade de classes ela fica igual a esta sociedade, reproduz esta divisão dentro dela e vive desta divisão. Não se deixando moldar a fé cristã é essencialmente subversiva. A cruz de Cristo mostra isto. O símbolo cristão: a cruz, é um símbolo que mostra a subversão inerente a fé cristã. Deus encarnado num camponês sem terra e sem teto foi morto por subversão. A subversão é a sua mensagem central: o Reino de Deus (Lc 4.43), pois se Deus se fez pessoa na classe camponesa foi para construir uma nova sociedade não classista e isto é subversão pura, por isso ele foi para a cruz.
Em Ap 13.1-2 (“Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade”.) diz que o poder, o trono e a autoridade do imperador romano vieram do diabo (do dragão). O estado e o poder opressor não são coisa de Deus, são coisa do diabo. O estado opressor é instrumento do diabo. O estado só não é opressor quando é diakonos (que cuida dos pobres e doentes) e leitourgos (que serve o povo e a Deus) – daí vem a palavra liturgia, que é serviço a Deus e serviço de Deus; seria um estado, ou melhor uma sociedade, construída a partir do poder popular. Na tradução do Almeida as palavras gregas diakonos e leitourgos são traduzidos por ‘ministros’.
O problema do Estado permanece, pois surge da existência de uma sociedade de classes. Por isso em Js 6-8 a classe camponesa sob a direção e orientação de Javé acaba com a cidade de Ai (a cidade é o estado, como também em Gn 11 Deus confunde a linguagem, a ideologia, para acabar com a construção da cidade, do estado) para mudar o modo de produção de Tributário para Tribal. Tem que acabar com o Estado que é instrumento da classe economicamente dominante para construir um novo modo de produção para uma sociedade igualitária. O Apocalipse 21 e 22 não falam da existência do Estado e dizem claramente que não haverá templo, pois o templo é instrumento do estado para dominar ideologicamente e religiosamente o povo. Fala que a cidade santa, a nova Jerusalém, desce do céu. Esta é uma cidade que não se iguala à concepção de estado opressor, pois vem de Deus que quer uma sociedade igualitária e justa. O texto fala em tabernáculo – Ap 21.3 – (tenda móvel do tempo do deserto onde ficava a Arca da Aliança, símbolo da presença de Javé no meio do povo na luta contra o Estado e pela terra em direção à uma nova sociedade), lembrando o período do deserto onde Deus estava no meio do povo na caminhada em direção da Terra Prometida, a nova sociedade, e diz que na nova cidade não haverá santuário (Ap 22.22, aqui se refere a templo fixo e não ao tabernáculo, que é móvel) porque Deus é o santuário. Por enquanto Deus mora no corpo dos cristãos (1 Co 6.19-20: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”.) e por isso o corpo é santo, sagrado e portanto não pode ser oprimido, escravizado e explorado, pois este corpo vai ressuscitar.
Na luta de classes na história, Deus sempre está na classe oprimida para acabar com a opressão exercida pela sociedade de classes e com a própria sociedade de classes. No capitalismo Deus está na e com a classe trabalhadora na luta pelo Reino de Deus que aponta para a construção de uma nova sociedade não capitalista.
Contra o capitalismo Jesus Cristo propõe o Reino de Deus onde não há classes sociais, simbolizado em At 2.42-47 e 4.32-37 e Paulo fala em ‘concidadãos dos santos’ em Ef 2.19: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus”. Paulo diz em 1 Ts 2.17: “Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente”. A partir da fé em Jesus Cristo somos irmãos e irmãs da mesma família de Deus. A partir da fé em Jesus Cristo acaba a sociedade de classes, pois somos uma família e uma família abriga seres iguais. Diferentes no ser, na cor e no gênero, mas iguais como seres humanos. Somos uma família que acolhe as vítimas da sociedade de classes, os estrangeiros e peregrinos (Ef 2.19 - os paroikoi – daí vem a palavra “paróquia” que acolhe e organiza contra a opressão os oprimidos da sociedade de classes), mas que a partir do batismo são nova criatura (2 Co 5.17: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”.) para uma nova sociedade.
O Evangelho desmonta a sociedade de classes pela comunhão na Ceia do Senhor, pelo serviço ao próximo pelo amor. Por isso João 13.5 fala do lava-pés durante a ceia pascal que culmina com a Ceia do Senhor. A fé em Jesus Cristo cria uma relação de serviço ao próximo como ensaio da Ceia do Senhor no dia a dia em direção desta nova sociedade que é o Reino de Deus.
A comunidade é a essência da resistência contra a sociedade de classes que impede que todos sejam irmãos. No entanto, a teologia cristã incorporou a sociedade de classes na comunidade por uma falsa liberdade que há no capital, por uma falsa individualidade pela teologia da salvação meramente individual, enquanto que a Bíblia fala também da salvação do coletivo – de todo o povo (Mt 1.21; Zc 8.7; Dn 12.1; Sl 18.27; Sl 28.9; 2 Sm 22.28). Na Ceia do Senhor Jesus diz em Mt 26.28: “porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados”. Não diz apenas para tua salvação, pois você faz parte de uma comunidade, de um coletivo, a partir do batismo. Você não vive mais sozinho, você vive em comunidade. Prática cristã é prática coletiva, é luta coletiva contra o sistema econômico encastelado no Estado para privilegiar a classe economicamente dominante que usa a ideologia/teologia para se perpetuar no poder político e econômico dizendo que não há outra possibilidade de organizar a vida e a sociedade além do capitalismo. O Evangelho de Jesus Cristo diz que há outra possibilidade de organizar a vida e a sociedade que é o Reino de Deus anunciado e vivido pelo camponês sem terra Jesus de Nazaré, o filho do Deus vivo (Lc 16.16).
A salvação nos é dada de graça pela fé em Jesus Cristo e por isso acolhemos as vítimas do sistema opressor (Mt 25.31-46), sem medo, pois já fomos salvos, que denota prática profética de denúncia das injustiças e anúncio de uma nova sociedade de concidadãos dos santos que não mais cria vítimas. Quem não acolhe as vítimas do sistema opressor para acabar com a opressão não tem a salvação, mesmo que diga que tem Jesus no coração e teve uma experiência de conversão.
Luta de classes há no Êxodo e na Cruz/Ressurreição onde Deus não está com a classe dominante, mas está na classe dominada para acabar com a sociedade onde há dominação de classe. No AT Deus propõe uma sociedade sem classes e, portanto sem Estado, igualitária, onde todos controlam os meios de produção: a terra. No NT em At 2 e 4; 1 Co 11.17-34 os cristãos retomam isto pela construção da sociedade sem necessitados (At 4.34) onde os meios de produção são colocados a serviço do coletivo.
Na Bíblia Deus lê a realidade em Dt 6.20-23: Há luta de classes e Javé se opõe à proposta e postura do Estado que é o representante da classe economicamente dominante. Em Gn 47 a Bíblia mostra que o Estado empobrece e escraviza os camponeses e domina ideologicamente: ‘a vida nos tens dado’ (Gn 47.25). Gn 1 mostra a luta de classes dos escravos na Babilônia e em Gn 2-3 a luta dos camponeses na monarquia israelita. Fica clara a divisão de classes em Gn 4.2: “Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador”. É a luta entre os camponeses sem terra (que foram expropriados pela classe do estado: 1 Rs 21) – Abel – e o camponês com terra Caim, que construiu uma cidade (Gn 4.17), que representa o Estado que mata o camponês empobrecido e despojado. Deus só aceita o sacrifício do camponês sem terra e não do construtor da cidade (representante do Estado). O pastor não é pastor por opção, mas por ‘precisão’, por necessidade, porque foi despojado dos meios de produção: a terra, pela classe que controla o Estado. O tornado sem terra - Abel - é o preferido de Javé e somente quando o com terra – Caim – se torna um fugitivo e pária é que Deus o protege (Gn 4.14-15). Deus não está com Caim enquanto opressor, mas somente quando migrante e fugitivo.
Deus sempre se revela na história do lado do oprimido para propor uma nova sociedade sem Estado, pois o Estado é o instrumento de uma classe para se favorecer e manter privilégios numa sociedade de classes. Deus não quer a sociedade de classes, mas quer uma sociedade igualitária: de irmãos, como diz no NT. Uma sociedade a serviço dos oprimidos, doentes e empobrecidos como nos anuncia Mt 25 e denuncia Tg 5 e Mq 3.
“A história da Sociedade se confunde até hoje com a história das lutas de classe. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e companheiro, em outros termos, opressores e oprimidos em permanente conflito entre si, não cessam de se guerrearem em luta aberta ou camuflada, luta que, historicamente, sempre terminou ou numa reestruturação revolucionária da Sociedade inteira ou no aniquilamento das classes em choque”. (O Manifesto Comunista. Marx e Engels, 1848)
“O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência”. (Prefácio à "Contribuição à Crítica da Economia Política". Karl Marx)
“Em qualquer época histórica, a produção econômica e a estrutura social, que dela necessariamente decorre, constituem a chave da história política e intelectual dessa época”. (Prefácio à edição alemã de 1883 do Manifesto Comunista. Friedrich Engels)
As pessoas pensam a partir daquilo que fazem. Por isso a maioria dos cristãos é capitalista porque pensam a partir de sua prática econômica. A sua prática econômica determina a sua teologia/ideologia invalidando assim o Evangelho de Jesus Cristo que propõe o Reino de Deus como objetivo primeiro e último. A maioria dos cristãos não organiza a sua vida conforme o Evangelho de Jesus Cristo, mas conforme a dinâmica do capitalismo, vivendo como se não houvesse outra proposta a não ser o capitalismo. A partir disso dá para entender que a maioria dos cristãos segue a Ditadura do Pensamento Único que legitima o capital que diz que não há outra forma de organizar a sociedade além do capitalismo. No entanto, há outra proposta de organizar a vida além do capitalismo que é o Reino de Deus anunciado e vivido por Jesus Cristo, o Deus encarnado em Jesus de Nazaré da classe camponesa palestina. Em vez da maioria dos cristãos defenderem o projeto do Reino de Deus defendem com unhas e dentes o capitalismo, negando o seu batismo.
Vamos ver como acontece a luta de classes na Bíblia e como ela determina a ação de Javé:
Dt 6.20-23: “Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão. Aos nossos olhos fez o Senhor sinais e maravilhas, grandes e terríveis, contra o Egito e contra Faraó e toda a sua casa; e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a terra que sob juramento prometeu a nossos pais”.
Aqui vemos como a luta de classes é o motor da história do povo de Deus. Javé é reconhecido na luta de classes ao optar pela classe oprimida: a classe camponesa sem terra escrava no Egito. “Eu sou o que sou”, diz Javé para Moisés em Ex 3.14. Significa: eu sou o que faço. O que Javé faz? Ele se coloca na luta de classes ao lado dos oprimidos, junto à classe oprimida e contra a classe opressora. A teologia de Javé é determinada pela sua prática a partir da luta de classes que há na sociedade. E sua prática é lutar contra os opressores e seu projeto de dominação propondo com isso uma nova proposta de sociedade construída a partir dos oprimidos libertos: uma sociedade sem classes sociais (Dt 15.4: para que entre ti não haja pobre), sem estado, sem templo (templo é coisa do estado para legitimar a opressão da classe que controla o estado; por isso foi o Templo de Jerusalém que prendeu Jesus e o condenou à morte em aliança ao estado romano. “Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos”, diz o Credo Apostólico. O templo e o estado mataram Jesus. No período do deserto havia o tabernáculo, a tenda da congregação, que era móvel, onde se realizava o culto a Deus e a Assembléia Popular da qual todos podiam participar e propor, também as mulheres, conforme Nm 27), onde não há propriedade privada dos meios de produção, pois a terra é posse da tribo e do clã (a terra é de Deus; Lv 25.23: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos”; terra não é propriedade privada é para uso; vende-se o seu uso por determinado tempo: vende-se o número de colheitas e não a terra. Lv 25.14-16: “Quando venderes alguma coisa ao teu próximo ou a comprares da mão do teu próximo, não oprimas teu irmão. Segundo o número dos anos desde o Jubileu, comprarás de teu próximo; e, segundo o número dos anos das messes, ele venderá a ti. Sendo muitos os anos, aumentarás o preço e, sendo poucos, abaixarás o preço; porque ele te vende o número das messes”.), todos tem acesso aos meios de produção: a terra (até as mulheres Nm 27) e a luta contra os deuses cananeus que legitimavam o modo de produção tributário. Cada deus tem a sua teologia e a sua prática. Os deuses cananeus eram os deuses da fertilidade que defendiam uma sociedade de classes: camponeses e o estado. Os camponeses adoravam os deuses da fertilidade na esperança de boas colheitas para que pudessem pagar os tributos ao estado e não passar fome. O Deus Javé tem a sua teologia baseada no desmonte desta sociedade amparada pela religião que legitima a sociedade de classes para garantir o tributo ao estado. O que para a teologia dos deuses cananeus é legítimo para Javé é opressão. A teologia dos deuses cananeus é cimentar a sociedade de classes e a teologia de Javé é desmontar a sociedade de classes. Como nos relata o livro de Juízes: cada vez que o povo de Israel seguia os deuses cananeus vira refém desta sociedade classista e era saqueado e oprimido, pois os deuses cananeus permitem e se constroem em cima da sociedade de classes baseada no saque, na escravidão e na opressão. Por isso os Dez Mandamentos começam dizendo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”. Esta é a teologia e a prática de Javé. Como a luta de classes é o motor da história Javé muda a direção da história a partir desta luta de classes. Javé muda a história em favor dos oprimidos: esta é a sua teologia e a sua prática. A teologia dos falsos deuses cananeus é manter a sociedade como está.
A teologia do falso deus capital de hoje também é tentar manter a sociedade classista eternamente como está, por isso os seus teólogos pregam o fim da história, pois não existe outra proposta de sociedade além do capitalismo. O interessante do deus capital é que ele é um deus leigo, que não se diz sagrado, não requer ritos prescritos oficialmente, nem tem teologia oficialmente defendida e definida, nem requer culto com liturgia determinada de seus adoradores, não precisa de templos, mas de fato tem sua teologia, tem seus templos (não tidos como tais: os shoppings centers, onde nos fins de semana seus adoradores vão adorar um dos elementos da trindade: a mercadoria) e seus ritos religiosos, como o consumo e a adoração da mercadoria como algo sagrado, pois é no processo da produção da mercadoria que se dá o processo de exploração do mais valor, do lucro. Adorando a mercadoria se adora o lucro, o capital. A mercadoria produzida pelo trabalhador vale mais que aquele que a produziu, apesar de que somente o trabalhador (que no processo também vira mercadoria que se compra e se vende no mercado de trabalho) tem a capacidade de gerar lucro. O lucro surge a partir do roubo do tempo de trabalho feito, mas em parte não pago à classe trabalhadora. O deus capital se compõe da trindade: dinheiro, mercadoria, capital. O deus capital é muito dinâmico e maleável e se insere na religião cristã assumindo o lugar de Javé. As pessoas adoram Jesus Cristo na forma de adorar o deus capital achando que estão adorando Jesus Cristo. Transformam a teologia do deus capital na teologia de Jesus Cristo. Para muitos cristãos questionar o deus capital é questionar o próprio Jesus Cristo. É a metamorfose do deus capital que se transforma em Jesus Cristo, mas tem a sua teologia e prática mantida como da do deus capital. É o diabo assumindo a forma de Jesus Cristo e sendo adorado como Jesus Cristo. As pessoas adoram este Jesus Cristo que na verdade é o diabo metamorfoseado de Jesus Cristo. Assim, Jesus Cristo se transforma no legitimador do deus capital, sendo escravo do deus capital e executor da vontade do deus capital, vira satélite do deus capital, sem vontade própria. Isto se chama de idolatria: adorar a Jesus Cristo de forma falsa. Isto explica todo o processo da Conquista das Américas onde a religião cristã (falo em religião cristã e não em Evangelho de Jesus Cristo, que é outra coisa) era usada como instrumento de dominação, matança e escravidão. A missão cristã que os portugueses e espanhóis vinham fazer nas Américas era na verdade missão do deus capital metamorfoseado de Jesus Cristo. Falava-se de Jesus Cristo, mas a prática sócio-econômico-política-cultural era do deus capital. Era tudo Religião e nada de Evangelho. A teologia era de Jesus Cristo adaptada à prática do deus capital e desta forma também a teologia se tornava a teologia do deus capital metamorfoseada de Evangelho de Jesus Cristo. Por ser tão complicado as pessoas não conseguem ver o que é de fato o verdadeiro culto a Deus. O culto que normalmente as pessoas praticam é na verdade o culto ao deus capital achando que é dirigido a Jesus Cristo.
Paulo diz em 1 Co 1.18: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus”. Deus se revela na cruz de Cristo na luta de classes entre o Templo de Jerusalém aliado ao império romano e os camponeses. Isto é loucura como Religião, mas como Evangelho isto é poder de Deus. A opção de Javé em Jesus Cristo na cruz é pura loucura, pois mostra de que lado Deus está: do lado e com os camponeses crucificados pelo sistema econômico escravista mantido pelo estado romano opressor. Em Jesus de Nazaré Deus se fez classe camponesa e conseqüentemente luta contra o estado romano conforme dizem as acusações feita a ele em Lc 23.2,5: “Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei. Ele alvoroça o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde começou, até aqui”. O Deus encarnado no camponês Jesus de Nazaré, periferia de Israel, luta contra o Estado (padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos) como em Dt 26.20-23 luta contra o Faraó, representante da classe do Estado egípcio. A teologia da cruz de Paulo aponta para esta opção de Deus na luta de classes, pois os seus seguidores sempre serão perseguidos pelo Estado, como o foram os primeiros cristãos por não adorarem o Estado como sendo divino. Hoje muitos cristãos colocam o capitalismo como sendo divino por não aceitarem qualquer possibilidade de eliminá-lo dentro da proposta de Jesus do Reino de Deus. Dentro da teologia da cruz está a opção revolucionária de Deus como diz em 1 Co 1. 28-29: “Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus”. Na luta contra o Estado divinizado (Gn 11.4) que legitima o sistema econômico opressor construído a partir da sociedade de classes o crente é crucificado. Enquanto estivermos vivendo numa sociedade de classes Deus estará com a classe oprimida para organizá-la para acabar com esta sociedade de classes onde o estado é o aparelho legitimador e de direito da classe opressora. Enquanto estivermos vivendo numa sociedade de classes o cristão será crucificado na luta contra esta sociedade de classes.
Martim Lutero fala da teologia da cruz quando fala da Ceia do Senhor:
"A primeira pergunta: 'Por que tu tomas o Sacramento?'
Resposta: 'Por que sou um co-herdeiro e tenho comunhão com Cristo, com todos os queridos santos e com todos os cristãos pie¬dosos, para junto com ele sofrer e morrer'".
O cristão vai ser crucificado e morrerá por causa da luta pelo Reino de Deus que é o Projeto de Deus de uma sociedade igualitária em oposição à sociedade de classes vigente. A instituição da Ceia do Senhor por Jesus Cristo coloca as bases de uma nova sociedade igualitária onde todos são irmãos e irmãs a partir do batismo e da fé em Jesus Cristo e concidadãos do reino, portanto uma sociedade sem classes sociais. Numa sociedade de irmãos (1 Ts 5.25-26; 2 Ts 1.3) não há classes sociais e nem mecanismos de opressão de classe, como é o estado.
Paulo fala em 1 Co 1. 28-29 “para reduzir a nada as que são”, isto significa mudar a sociedade que está construída sobre o modo de produção opressor. No tempo de Paulo ‘as coisas que são’ é o Império Romano aliado ao Templo de Jerusalém que será destruído pelo que nada é; como de fato aconteceu em 476, pelos que eram considerados nada, os chamados: bárbaros. É o que ele diz em Rm 12.2: não se conformar com este século, não se deixar moldar pela sociedade de classes. Quando a comunidade cristã se deixa moldar pela sociedade de classes ela fica igual a esta sociedade, reproduz esta divisão dentro dela e vive desta divisão. Não se deixando moldar a fé cristã é essencialmente subversiva. A cruz de Cristo mostra isto. O símbolo cristão: a cruz, é um símbolo que mostra a subversão inerente a fé cristã. Deus encarnado num camponês sem terra e sem teto foi morto por subversão. A subversão é a sua mensagem central: o Reino de Deus (Lc 4.43), pois se Deus se fez pessoa na classe camponesa foi para construir uma nova sociedade não classista e isto é subversão pura, por isso ele foi para a cruz.
Em Ap 13.1-2 (“Vi emergir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças e, sobre os chifres, dez diademas e, sobre as cabeças, nomes de blasfêmia. A besta que vi era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão. E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade”.) diz que o poder, o trono e a autoridade do imperador romano vieram do diabo (do dragão). O estado e o poder opressor não são coisa de Deus, são coisa do diabo. O estado opressor é instrumento do diabo. O estado só não é opressor quando é diakonos (que cuida dos pobres e doentes) e leitourgos (que serve o povo e a Deus) – daí vem a palavra liturgia, que é serviço a Deus e serviço de Deus; seria um estado, ou melhor uma sociedade, construída a partir do poder popular. Na tradução do Almeida as palavras gregas diakonos e leitourgos são traduzidos por ‘ministros’.
O problema do Estado permanece, pois surge da existência de uma sociedade de classes. Por isso em Js 6-8 a classe camponesa sob a direção e orientação de Javé acaba com a cidade de Ai (a cidade é o estado, como também em Gn 11 Deus confunde a linguagem, a ideologia, para acabar com a construção da cidade, do estado) para mudar o modo de produção de Tributário para Tribal. Tem que acabar com o Estado que é instrumento da classe economicamente dominante para construir um novo modo de produção para uma sociedade igualitária. O Apocalipse 21 e 22 não falam da existência do Estado e dizem claramente que não haverá templo, pois o templo é instrumento do estado para dominar ideologicamente e religiosamente o povo. Fala que a cidade santa, a nova Jerusalém, desce do céu. Esta é uma cidade que não se iguala à concepção de estado opressor, pois vem de Deus que quer uma sociedade igualitária e justa. O texto fala em tabernáculo – Ap 21.3 – (tenda móvel do tempo do deserto onde ficava a Arca da Aliança, símbolo da presença de Javé no meio do povo na luta contra o Estado e pela terra em direção à uma nova sociedade), lembrando o período do deserto onde Deus estava no meio do povo na caminhada em direção da Terra Prometida, a nova sociedade, e diz que na nova cidade não haverá santuário (Ap 22.22, aqui se refere a templo fixo e não ao tabernáculo, que é móvel) porque Deus é o santuário. Por enquanto Deus mora no corpo dos cristãos (1 Co 6.19-20: “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”.) e por isso o corpo é santo, sagrado e portanto não pode ser oprimido, escravizado e explorado, pois este corpo vai ressuscitar.
Na luta de classes na história, Deus sempre está na classe oprimida para acabar com a opressão exercida pela sociedade de classes e com a própria sociedade de classes. No capitalismo Deus está na e com a classe trabalhadora na luta pelo Reino de Deus que aponta para a construção de uma nova sociedade não capitalista.
Contra o capitalismo Jesus Cristo propõe o Reino de Deus onde não há classes sociais, simbolizado em At 2.42-47 e 4.32-37 e Paulo fala em ‘concidadãos dos santos’ em Ef 2.19: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus”. Paulo diz em 1 Ts 2.17: “Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente”. A partir da fé em Jesus Cristo somos irmãos e irmãs da mesma família de Deus. A partir da fé em Jesus Cristo acaba a sociedade de classes, pois somos uma família e uma família abriga seres iguais. Diferentes no ser, na cor e no gênero, mas iguais como seres humanos. Somos uma família que acolhe as vítimas da sociedade de classes, os estrangeiros e peregrinos (Ef 2.19 - os paroikoi – daí vem a palavra “paróquia” que acolhe e organiza contra a opressão os oprimidos da sociedade de classes), mas que a partir do batismo são nova criatura (2 Co 5.17: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”.) para uma nova sociedade.
O Evangelho desmonta a sociedade de classes pela comunhão na Ceia do Senhor, pelo serviço ao próximo pelo amor. Por isso João 13.5 fala do lava-pés durante a ceia pascal que culmina com a Ceia do Senhor. A fé em Jesus Cristo cria uma relação de serviço ao próximo como ensaio da Ceia do Senhor no dia a dia em direção desta nova sociedade que é o Reino de Deus.
A comunidade é a essência da resistência contra a sociedade de classes que impede que todos sejam irmãos. No entanto, a teologia cristã incorporou a sociedade de classes na comunidade por uma falsa liberdade que há no capital, por uma falsa individualidade pela teologia da salvação meramente individual, enquanto que a Bíblia fala também da salvação do coletivo – de todo o povo (Mt 1.21; Zc 8.7; Dn 12.1; Sl 18.27; Sl 28.9; 2 Sm 22.28). Na Ceia do Senhor Jesus diz em Mt 26.28: “porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados”. Não diz apenas para tua salvação, pois você faz parte de uma comunidade, de um coletivo, a partir do batismo. Você não vive mais sozinho, você vive em comunidade. Prática cristã é prática coletiva, é luta coletiva contra o sistema econômico encastelado no Estado para privilegiar a classe economicamente dominante que usa a ideologia/teologia para se perpetuar no poder político e econômico dizendo que não há outra possibilidade de organizar a vida e a sociedade além do capitalismo. O Evangelho de Jesus Cristo diz que há outra possibilidade de organizar a vida e a sociedade que é o Reino de Deus anunciado e vivido pelo camponês sem terra Jesus de Nazaré, o filho do Deus vivo (Lc 16.16).
A salvação nos é dada de graça pela fé em Jesus Cristo e por isso acolhemos as vítimas do sistema opressor (Mt 25.31-46), sem medo, pois já fomos salvos, que denota prática profética de denúncia das injustiças e anúncio de uma nova sociedade de concidadãos dos santos que não mais cria vítimas. Quem não acolhe as vítimas do sistema opressor para acabar com a opressão não tem a salvação, mesmo que diga que tem Jesus no coração e teve uma experiência de conversão.
Luta de classes há no Êxodo e na Cruz/Ressurreição onde Deus não está com a classe dominante, mas está na classe dominada para acabar com a sociedade onde há dominação de classe. No AT Deus propõe uma sociedade sem classes e, portanto sem Estado, igualitária, onde todos controlam os meios de produção: a terra. No NT em At 2 e 4; 1 Co 11.17-34 os cristãos retomam isto pela construção da sociedade sem necessitados (At 4.34) onde os meios de produção são colocados a serviço do coletivo.
Na Bíblia Deus lê a realidade em Dt 6.20-23: Há luta de classes e Javé se opõe à proposta e postura do Estado que é o representante da classe economicamente dominante. Em Gn 47 a Bíblia mostra que o Estado empobrece e escraviza os camponeses e domina ideologicamente: ‘a vida nos tens dado’ (Gn 47.25). Gn 1 mostra a luta de classes dos escravos na Babilônia e em Gn 2-3 a luta dos camponeses na monarquia israelita. Fica clara a divisão de classes em Gn 4.2: “Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador”. É a luta entre os camponeses sem terra (que foram expropriados pela classe do estado: 1 Rs 21) – Abel – e o camponês com terra Caim, que construiu uma cidade (Gn 4.17), que representa o Estado que mata o camponês empobrecido e despojado. Deus só aceita o sacrifício do camponês sem terra e não do construtor da cidade (representante do Estado). O pastor não é pastor por opção, mas por ‘precisão’, por necessidade, porque foi despojado dos meios de produção: a terra, pela classe que controla o Estado. O tornado sem terra - Abel - é o preferido de Javé e somente quando o com terra – Caim – se torna um fugitivo e pária é que Deus o protege (Gn 4.14-15). Deus não está com Caim enquanto opressor, mas somente quando migrante e fugitivo.
Deus sempre se revela na história do lado do oprimido para propor uma nova sociedade sem Estado, pois o Estado é o instrumento de uma classe para se favorecer e manter privilégios numa sociedade de classes. Deus não quer a sociedade de classes, mas quer uma sociedade igualitária: de irmãos, como diz no NT. Uma sociedade a serviço dos oprimidos, doentes e empobrecidos como nos anuncia Mt 25 e denuncia Tg 5 e Mq 3.
Assinar:
Postagens (Atom)